O mistério da morte de Alekhine

As circunstâncias da morte do campeão do mundo de xadrez, Alexandre Alekhine, na noite de 23 para 24 de Março de 1946, no Hotel Parque, no Estoril, são ainda hoje motivo de apaixonadas discussões entre os amantes do xadrez e historiadores. Novos documentos aqui revelados, incluindo a autópsia feita no Instituto de Medicina Legal de Lisboa, não esclarecem todas as dúvidas. Talvez nos aproximem um pouco mais da verdade.

Quando se estabeleceu no Estoril, vindo de Espanha, em finais de 1945, Alexandre Alekhine não era apenas um dos milhares de exilados e refugiados que à época ali permaneciam à espera de um barco para paragens mais distantes. O xadrezista era, certamente, um dos mais ilustres.E era também um homem só, como frequentemente acontece com os verdadeiro génios. A sua quarta mulher, a americana Grace Wishar, não estava autorizada a sair de França, onde o casal, naturalizado francês, residia e possuía propriedades, quer durante a ocupação alemã quer após a libertação. O seu irmão mais velho, Alexei, inseparável parceiro de tantas e tantas partidas da juventude, permanecia na União Soviética de Estaline e fora obrigado a renegá-lo publicamente. Os seus únicos e ténues laços de amizade eram mantidos com alguns xadrezistas e amigos portugueses, que se responsabilizaram pelo alojamento num hotel e pagavam as contas. Alekhine não tinha quaisquer fontes de rendimento quando chegou a Portugal. Os seus únicos proventos tinham origem em eventos sociais, partidas simultâneas e exibições de xadrez que periodicamente eram organizadas pelos amigos, principalmente no Casino Estoril, Instituto Superior Técnico e Sociedade de Geografia. Mas só isto não chegava para pagar a conta do bar. Ele estava hospedado no quarto 43 do Hotel Parque, edifício vizinho do Hotel Palácio, ambos propriedade da Sociedade Estoril-Plage. O Parque já não existe, mas as fotografias da época mostram como era fácil circular entre os dois hotéis, que possuíam um belo jardim comum. A tradição e as conveniências da altura mandavam que os espiões do Eixo (alemães e japoneses) ficassem hospedados no Parque e os Aliados no Palácio. Quando o Hotel do Parque foi demolido, os quartos estavam infestados de fios e microfones. Certamente no vizinho se passaria algo semelhante, mesmo que em menor escala. Mas com ou sem microfones, todos sabiam quem eram todos, principalmente os empregados. Numa altura em que Lisboa fervilhava de espiões, identidades falsas, conspirações, não raro algum hóspede desaparecia sem deixar rasto e muitas vezes sem ter tempo ou oportunidade para levar a bagagem. Alekhine morreu quando na sua vida, após longos anos de desespero, finalmente parecia ter surgido algo que lhe dava novamente sentido. A possibilidade de competir ao mais alto nível, de defender o seu título de campeão do mundo frente ao soviético Botvinik, depois de tantos e tantos anos de ostracismo a que tinha sido votado pela maior parte dos xadrezistas aliados, sobretudo pela influência aberta da Federação de Xadrez Americana e pelas manobras de bastidores da Federação de Xadrez da URSS. Botvinik era um adversário temível. Alekhine tinha predito, após o ter defrontado no torneio de Nottingham, ainda antes da Segunda Guerra, que ele seria, provavelmente, o mais sério candidato ao título. E agora que Botvinik o desafiara novamente, Alekhine tinha a oportunidade de mostrar que ainda era capaz de jogar como um campeão. Mesmo que as suas hipóteses parecessem remotas: anos e anos sem prática em torneios internacionais à altura, uma débil saúde física, e também mental, a que não era alheia a propensão para o abuso do álcool, os quase vinte anos a mais que o adversário. Mas Alekhine sempre fora admirado pela sua combatividade, pela capacidade de trabalhar e de se concentrar nos objectivos a que se propunha. Exemplo disso, foi o facto de, à semelhança do que já sucedera em 1935, após o match para o título mundial que perdera devido ao álcool para o holandês Max Euwe, ter deixado de beber para se preparar para os novos desafios. Dois anos mais tarde, em 1937, reconquistaria brilhantemente o título ao seu anterior adversário, num match em que bebeu unicamente sumo de maçã. E não mais o perderia. Até à morte.Apesar das várias doenças diagnosticadas, Alekhine não morreu de causas naturais. Pelo menos isso nunca é referido em nenhum relatório médico. 'Acidente' é a causa oficial, como se conclui da leitura da autópsia assinada pelo então director do Instituto de Medicina Legal, João Rumell de Azevedo Neves: "Asfixia por obstrução das vias respiratórias superiores, por corpo estranho; pedaço de carne". Um pedaço que ainda se conserva no IML. Na imprensa da época, portuguesa e internacional, muito se especulou sobre as causas da morte. Asfixia, sim, mas também ataque cardíaco, suicídio, assassínio. No pós-guerra que se vivia, todas as versões eram legítimas.Em Portugal, Alekhine estava certamente sob vigilância de vários serviços secretos, incluindo os soviéticos. Após um longo período de depressão, impedido de se reunir à família, banido das competições internacionais sob acusação de colaboração com os nazis, recebeu o desafio de Botvinik. Segundo Luís Lupi, campeão nacional e amigo pessoal de Alekhine, após a recepção da carta ele transfigurou-se de alegria. Deixou de beber e começou afincadamente a preparação para aquele que, provavelmente, seria o seu último campeonato mundial. Retomou até o trabalho sobre alguns livros que tinha em mão e preparava-se para aceitar um cargo de treinador na Federação Portuguesa de Xadrez.Na noite de 23 de Março de 1946, regressado ao Hotel após o habitual passeio de fim de tarde pelas redondezas, Alekhine recolheu ao quarto e pediu para lhe levarem o jantar. Era um hábito tomar as refeições no quarto, ao mesmo tempo que analisava alguma posição ou partida e preparava alguma novidade teórica. Na manhã seguinte, domingo, por volta das 11 horas, uma empregada bateu várias vezes à porta e não teve resposta. Quando a abriu, deparou-se com o cadáver. Chamou-se o médico e a polícia. Avisaram-se os amigos mais chegados. Nos bolsos de Alekhine foram encontrados 452$55, provavelmente todo o dinheiro que lhe restava. O médico Manuel Marques da Mata verifica o óbito e, uma vez que a morte se deu sem assistência médica, o cadáver é levado para o IML, pelo guarda número 1081, para autópsiaTestemunhas ainda vivas dos últimos momentos de Alekhine? Há o 'senhor Pinto', um madeirense à época porteiro no Hotel Parque, que é referido em diversos artigos e obras, como sendo das pessoas mais bem informadas sobre a espionagem em Lisboa durante a guerra. Francisco Correia de Barros, director de Food and Beverage do Hotel Palácio, contactou telefonicamente o sr. Pinto, com quem tinha trabalhado. Mas ao saber que o motivo do contacto era Alekhine, o antigo porteiro não se disponibilizou a falar alegando que já tinha dito tudo em ocasiões anteriores. No entanto deixou escapar "O Alekhine morreu-me nos braços". De um outro porteiro, que sabia russo e costumava jogar xadrez com Alekhine, não foi possível encontrar rasto.Durante a tarde desse fatídico domingo, 24 de Março, a notícia da morte do campeão é transmitida pelas agências noticiosas. Na manhã seguinte, a notícia vem estampada na imprensa portuguesa e internacional. A este propósito, Botvinik conta, nas suas memórias, um episódio no mínimo curioso. No dia 24 à tarde, encontrando-se em casa a tomar chá, recebe um telefonema de um amigo que trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Moscovo que lhe dá a notícia inesperada da morte do futuro adversário. O impacto da notícia deve ter sido tão grande que, em todas as suas memórias, é o único acontecimento em que é referida com alguma precisão a hora. Obviamente que o MNE soviético não soube da notícia pela imprensa. Ou foi a agência noticiosa oficial, TASS, que recebeu a notícia e a transmitiu a instâncias superiores, de modo a receber instruções quanto ao seu tratamento, ou então passou por outros canais menos formais. A rapidez com que a notícia chegou a Botvinik numa época em que as comunicações eram mais demoradas é, sem dúvida, curiosa. O óbito foi registado às 11 horas (14 em Moscovo) e nessa mesma tarde Botvinik recebeu a notícia. De resto, a notícia foi transmitida a quem poderia interessar muito antes de ser publicada nos jornais locais - isso só sucedeu apenas uma semana depois. O corpo ficou depositado numa das salas do necrotério, à temperatura ambiente, à espera de ser autopsiado. Nesse tempo, havia falta de amoníaco e os frigoríficos nem sempre funcionavam. Foi este o motivo porque não foi colocado numa câmara frigorífica. Na terça-feira, dia 26, a autópsia é realizada por uma equipa chefiada por João Rumell de Azevedo Neves, director do Instituto de Medicina Legal. O corpo apresentava já uma cor esverdeada e sinais avançados de decomposição. A autópsia revela que sofria de gastrite crónica, duodenite crónica, artero-esclerose da aorta abdominal, esclerose renal bilateral. Não foram encontradas lesões no fígado, coração, rins, etc., nem tão pouco o corpo apresentava lesões traumáticas. Durante a autópsia é descoberto um pedaço de carne de elevadas dimensões (10 x 1 cm) alojado na laringe e conclui-se que esta é a causa provável da morte. Assunto encerrado, morreu engasgado. Trate-se do funeral.Acontece porém, que algumas dúvidas permanecem legítimas perante este relatório. Um especialista português em Medicina Forense, que preferiu manter o anonimato, afirmou que embora a morte por asfixia na sequência de ingestão de alimentos não seja um fenómeno extremamente raro, o pedaço de carne poderia ter-se alojado na laringe após a morte. Para além disso, as manchas que frequentemente surgem na pele após morte por asfixia, não são referidas na autópsia. É certo que o corpo já se encontrava em decomposição e elas poderiam não ser visíveis. Mas, deveriam ter sido efectuados exames toxicológicos para confirmar, ou não, a causa da morte. Com os dados disponíveis, afirmou não ser absolutamente certo que a morte se tenha dado por asfixia.As únicas fotografias publicadas na imprensa do corpo de Alekhine, e que surgem em todas as biografias, mostram um homem recostado no sofá, com a cabeça ligeiramente descaída. Pose pouco provável para quem certamente se debateu com o pedaço de carne e não teve morte imediata. Parece hoje consensual, também por outros indícios visíveis na fotografia, que esta foi composta. Porquê? O caso foi dado como encerrado e havia que enterrar o morto. Alekhine não possuía familiares em Portugal e, por isso, o seu corpo não foi reclamado. A Embaixada de França, alertada para o facto de um súbdito francês ter falecido, não se disponibilizou a pagar o funeral ou a trasladação. Grace Wishar não foi autorizada a sair de França para assistir ao funeral do marido. Restavam os amigos. Foi assim que a Federação Portuguesa de Xadrez foi praticamente obrigada a suportar os encargos. O funeral ficou a cargo da Agência Magno e custou 3748 escudos. Alekhine foi sepultado num jazigo propriedade do amigo Manuel Esteves, no cemitério do Alto de São João, no Estoril, no dia 16 de Abril de 1946. Em 1948, Botvinik sagrou-se, finalmente, campeão do mundo ao vencer um torneio por convites, organizado pela FIDE, entre os cinco melhores xadrezistas do mundo (Botvinik, Smyslov e Keres, da URSS, Reshevski, dos EUA. e Euwe, da Holanda). Este torneio, cuja primeira metade decorreu em Haia, e a segunda em Moscovo, consagrou o xadrez soviético como a maior potência da época. Representa um marco no início da hegemonia soviética que só seria abalada vinte anos mais tarde com o aparecimento do norte-americano Bobby Fischer. Apesar de já se encontrar morto e enterrado, a saga de Alekhine não terminaria aqui. Após a sua morte e durante vários anos, as autoridades soviéticas pretenderam que o corpo fosse trasladado para Moscovo. Mas esta pretensão encontrou um adversário intransponível: a viúva, que nunca autorizou a trasladação. Grace Wishar pretendia que o corpo do marido fosse sepultado em França mas, já não possuindo meios financeiros e perante a indiferença das autoridades francesas, teve de resignar-se.O caso Alekhine praticamente não voltou a ser falado até que a Federação Internacional decidiu homenageá-lo por ocasião dos dez anos da sua morte. Dessa homenagem fazia parte a trasladação do corpo para um cemitério de Paris e a construção de um monumento funerário. Houve neste caso acordo com a federação soviética. Foi, mais uma vez, a Agência Magno a tratar de todo o processo cujo orçamento rondou os 7.900 escudos e foi integralmente suportado pela FIDE. Finalmente, em Março de 1956, o corpo de Alekhine chegou a França por via marítima (o comboio deparava com dificuldades espanholas ao transporte de cadáveres por via terrestre e o avião era financeiramente incomportável) e foi transportado até Paris, ao cemitério de Montparnasse. Na lápide da campa número 38 é possível ler: "Alexandre Alexandrovich Alekhine. Génio do xadrez da Rússia e da França. 1 de Novembro de 1892 - 25 de Março de 1946. Campeão do Mundo de Xadrez de 1927 - 1935 e de 1937 até à morte. Grace Alekhine, nascida Wishar (1876 - 1956), morreu a 27 de Fevereiro de 1956. Este monumento foi erigido em 25 de Março de 1956 pela FIDE, Federação Internacional de Xadrez. Folke Rogard, Presidente (Suécia), Viatcheslav Ragosin, Vice-Presidente (Rússia), Marcel Berman, Vice-Presidente (França), Mikhail Botvinik, campeão do mundo (U.R.S.S.), Giancarlo del Verme (Itália), Pierre Diernan (Bélgica)".A viúva de Alekhine havia falecido a 27 de Fevereiro, 17 dias antes da chegada do corpo do marido.