Tecnologias ainda longe da sala de aula

Apesar de as escolas já estarem consideravelmente bem apetrechadas em termos de equipamento informático, com uma taxa de 22 alunos por computador e 42 alunos por cada PC ligado à Internet, as tecnologias ainda são pouco usadas como instrumento educativos. A conclusão é retirada pelo estudo "As Tecnologias de Informação e Comunicação, Utilização pelos Professores" que será apresentado publicamente amanhã.O estudo foi realizado ao longo do ano lectivo de 2001-2002 por Jacinta Paiva, uma investigadora que contou com o apoio do Programa Nónio Século XXI, do Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento do Ministério da Educação (DAPP) e ainda do Centro de Competência Softciências e do Grupo de Ensino e História das Ciências do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra.De uma amostra de 26.707 professores de 2499 escolas de todas as tipologias e todos os níveis de ensino à excepção do superior, das redes públicas e privada de Portugal Continental, foram obtidas mais de 19.300 respostas, o que corresponde a uma taxa de resposta de 72,4 por cento. Desta forma, o resultado corresponde ao maior levantamento feito aos professores sobre a utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e revela as importantes tendências nesta área, permitindo apurar "o que sentem e praticam os professores relativamente às TIC no ensino".Jacinta Paiva destaca, dos extensos dados obtidos neste trabalho, a atitude globalmente positiva dos professores face às TIC, mostrando uma vontade de saber mais. Para esta investigadora, também professora do ensino secundário na área de Biologia, esta atitude é fundamental, já que se sabe que "as mudanças de comportamento são mais difíceis de obter do que a implementação prática dos projectos". Em termos da utilização do computador na sala de aula, o panorama não é muito animador: apenas 26 por cento dos professores admite usar as tecnologias no contexto educativo, sendo no primeiro ciclo (do primeiro ao quarto ano) que esse uso é mais intenso, representando 42 por cento do total, enquanto no segundo e terceiro ciclos e no secundário se obtém uma taxa de 17 e 24 por cento, respectivamente.O facto de o ambiente criado em sala de aula no primeiro ciclo poder propiciar mais a utilização dos computadores - já que se favorece uma diversificação de tarefas -, pode justificar em parte estas diferenças. Jacinta Paiva realça também que este resultado se refere a práticas declaradas e não a uma verificação do facto pela investigação, mas que daqui se pode deduzir que, seja a utilização pedagógica grande ou pequena, pelo menos existe o uso da ferramenta em ambiente de sala de aula, o que é muito positivo.Destacando que, no segundo e terceiro ciclos e no ensino secundário, deveria haver maior uso das tecnologias - porque é daqui que os alunos saem para o ensino superior ou para o mercado de trabalho onde vão ter necessidade de aplicar estas ferramentas -, a investigadora refere que existem ainda muitas barreiras à utilização do computador, nomeadamente em termos das condições criadas.Jacinta Paiva confessa-se uma apaixonada não tanto pelas TIC mas "pela parte bonita que elas podem trazer em termos pedagógicos e de interacção com os alunos", e defende que muitas dessas barreiras podem ser ultrapassadas com criatividade e estratégias pedagógicas. "Se o professor não se sente muito confiante com uma determinada ferramenta, pode pedir a colaboração dos alunos", tendo de ser criativo nas abordagens e aproveitar as vantagens de usar os mesmos meios que os alunos usam virando-os para uma perspectiva pedagógica e educativa.Isabel Ferreira, do Centro de Competências Nónio da Universidade de Évora, concorda que o salto do computador para a sala de aula é difícil porque o professor quer sentir-se seguro, mas também porque as condições logísticas e de organização temporal nas salas de aula não o favorecem. "Existe uma sobreocupação dos espaços com computadores e não é fácil fazer deslocar toda a turma", explica Isabel Ferreira que salienta, porém, que se tem assistido a passos muito positivos nas novas áreas curriculares de projecto, formação cívica e estudo acompanhado.Ida Brandão, coordenadora do Projecto Nónio Século XXI, admite que este é um retrato não muito positivo mas salienta que estas alterações levam muito tempo e que se está no caminho certo. Como factores positivos destaca o grande esforço que os professores têm feito e o crescimento da oferta e procura de formação, que poderão criar uma melhor adequação das TIC à realidade educativa. "Há uma atitude de grande receptividade e a verificação de que os professores têm computadores pessoais e os periféricos necessários, e que os utilizam para preparar as aulas". De facto, de acordo com o estudo, 94 por cento dos professores afirma que gostaria de saber mais sobre o uso das TIC no contexto educativo, enquanto 81 por cento revela usar o PC na preparação das aulas, quer na elaboração das fichas ou testes quer para pesquisas na Internet de assuntos relacionados com a disciplina. Por isso, Ida Brandão afirma que os professores já usam as ferramentas; falta agora o salto para a integração nas aulas, que será o ponto que irá fazer a diferença em termos de educação. Mas, para isso é necessário criar as condições, não só de disponibilização dos equipamentos e das ligações à Internet, mas também da infra-estrutura de apoio e manutenção dos computadores para que os professores não percam tempo com os problemas que possam surgir e não tenham de ter receio de os resolver.O aproveitamento do grande potencial educativo trazido pelas TIC - de trazer formas aliciantes de trabalho com os alunos e mesmo entre eles - implica alteração de metodologias na sala de aula, considera Ida Brandão. É preciso mais trabalho colaborativo, fomentando outras atitudes em relação às tecnologias que são hoje muito relevantes em termos de produtividade no mercado de trabalho, entre outros factores. Embora considere importantes os rácios de computador por aluno e reconheça que é necessário trabalhar para se atingir as metas definidas em termos europeus, Ida Brandão destaca que a taxa de utilização é muito importante: "Todas as escolas devem estar apetrechadas das ferramentas, mas não vale a pena pôr um computador na escola se não houver utilização porque é meio caminho andado para haver desperdício." Por isso, a coordenadora do Projecto Nónio defende a manutenção de modelo que foi promovido nas escolas através do Nónio, com financiamentos atribuídos às escolas que apresentassem projectos educativos e um acompanhamento do cumprimento com regras bem definidas. Por muito positivo que o caminho realizado até agora de introdução das TIC nas escolas e a sua adaptação pelos professores possa ser, há ainda muito a fazer - reconhecem, em geral, todos aqueles com quem Computadores contactou. "Este é um problema económico de disponibilização dos meios e social pelo enquadramento das escolas e da família, mas, mais do que isso, é uma questão de mudança de mentalidade" e de conseguir conjugar as ferramentas tradicionais com as modernas, admite Jacinta Paiva.