Bactra, a cidade perdida de Alexandre, foi descoberta no Afeganistão

Apesar de sucessivas campanhas, iniciadas por Alfred Foucher, o primeiro director da Delegação Arqueológica Francesa no Afeganistão (DAFA), em 1924, Bactra, uma das mais importantes cidades da Rota da Seda, era, até Maio, uma "miragem". Os historiadores acreditavam que seria descoberta, mas os arqueólogos pareciam ter deixado de sonhar com essa possibilidade desde que, na década de 80, Kabul inaugurou, sob ocupação soviética, um longo período de isolamento, que viria a agravar-se em 1996, ano em que os taliban chegaram ao poder. Situada entre o território afegão e duas repúblicas da ex-União Soviética - o Tajiquistão e o Uzbequistão -, Bactra, capital da Báctria, foi fundada em 2500 a.C., a sul do rio Oxus, o actual Amu-darya, e assumiu um papel de destaque naquela região da Ásia Central entre os séculos VII a.C. e VII, tanto ao nível económico como cultural, sobretudo graças à presença grega. Os primeiros vestígios, recentemente trazidos à luz do dia em condições peculiares, permitirão aos especialistas reunir informações preciosas sobre as diversas ocupações daquele importante núcleo urbano, que Alexandre "o Grande", senhor do maior império do mundo antigo, viria a conquistar em 329 a.C.. Em Maio, durante o congresso que a UNESCO organizou em Kabul, com o objectivo de analisar o estado do património afegão, Roland Besenval, especialista em Ásia Central, deslocou-se a Balkh, uma pequena aldeia, na companhia de David Jurie, estudante de arqueologia e ciência política, no âmbito de um relatório sobre o desgaste sofrido pelos sítios escavados pela DAFA. Numa das visitas de campo, ao caminharem em torno da cintura de muralhas, Besenval e Jurie encontraram um buraco, junto a uma habitação, onde se podiam identificar vestígios de um muro. "A proprietária estava em casa e convidou-nos a entrar", recordou David Jurie, em declarações ao diário francês "Le Monde". Estupefactos, puderam constatar que, no pátio interior, "estavam duas bases de coluna, claramente gregas", acrescentou. "O seu marido, um comandante da região, acabou por nos mostrar o local, nas proximidades, onde as tinha encontrado. Mostrou-nos, de igual modo, outros objectos helénicos que descobriu ao longo dos últimos quatro anos, entre os quais uma estátua, vendida de imediato, no Paquistão."Roland Besenval entrou em contacto com o responsável pelas escavações do sítio grego de Ai Khanoum, Paul Bernard, que, a partir de uma série de fotografias, confirmou a origem dos achados. Informado o congresso da UNESCO, Jean-François Jarrige, director do Museu Guimet, dirigiu-se ao local e, munido de uma pá, resolveu retirar a terra em torno do muro, descobrindo uma estrutura de 2,32 metros, com três pilastras em estuque e algumas fissuras, construída sobre um empedrado. Quinze dias depois, a 19 de Junho, Bernard defendia que os vestígios postos a descoberto deveriam pertencer a um templo kushan, sendo os primeiros testemunhos da época alta de um império que passou a integrar a Báctria, em 130 a.C..Apesar deste dado ser altamente significativo, os objectos revelados a Besenval e a Jurie pelo comandante local bastavam para que os especialistas pudessem afirmar, com certeza, que a cidade de Bactra fora reencontrada.Se a procuraram durante 80 anos nas imediações, por que razão escapou Bactra ao olhar dos arqueólogos? Para os especialistas ouvidos pelo "Le Monde", a razão é surpreendentemente simples, e tem um reflexo nas práticas de construção do Afeganistão da actualidade. O erro de Alfred Foucher - cometido por muitos arqueólogos seus contemporâneos - foi começar a escavar na parte mais elevada do sítio, ignorando que as cidades da região, edificadas em tijolo cru, não eram reconstruídas sobre as anteriores, mas ao lado. O que faz prever que, tal como Bactra, outras cidades gregas continuem ainda por descobrir, a sete metros de profundidade.Até que os especialistas possam regressar ao local para escavações sistemáticas, as quadrículas abertas para prospecção foram aterradas, na tentativa de afastar possíveis saqueadores. Numa altura em que o governo afegão procura recorrer a todos os meios disponíveis para recuperar da profunda crise em que o regime taliban mergulhou o país, dedicando especial atenção ao património, ao contrário dos seus antecessores, o regresso dos arqueólogos a Balkh e à herança de Alexandre é já uma certeza.