Mariana, outra vez

"Mariana, Todas as Cartas", de Cristina Silva, é mais uma incursão no universo da freira portuguesa, incursão que se faz à sombra dos trabalhos dos investigadores portugueses (Luciano Cordeiro, Manuel Ribeiro, Belard da Fonseca, Alfredo Saramago).

Em 1699, surgiu em França uma obra intitulada "Lettres Portugaises traduites en Français" sem indicação quer do nome do autor, quer do nome do tradutor. A autora (suposta) das cartas seria Marianne (Mariana), freira portuguesa, que as teria enviado a um não identificado "gentil-homem de qualidade (francês) que serviu em Portugal". No mesmo ano, surge em Colónia uma nova edição em que se identifica o destinatário das cartas (Noël Bouton de Chamilly) e o tradutor, Gabriel de Lavergne, Senhor de Guilleragues.A autora das cartas só no séc. XIX saiu da semi-identificação, ganhando um nome de família (Alcoforado) e uma biografia (local e data de nascimento e morte, laços de família, contexto histórico), fruto das investigações de Luciano Cordeiro, que, em 1888, publicou um estudo intitulado "Soror Mariana - A Freira Portuguesa".A tese de Luciano Cordeiro tem sido contestada por filólogos e historiadores da literatura, mas não deixa de alimentar a imaginação de leitores e poetas (Rilke traduziu as cartas para alemão e eleva a "Portuguesa" a modelo da mulher amante), dando também origem a obras romanescas que recriam a vida e o sentir da freira de Beja (Katherine Vaz, escritora americana luso-descendente, foi um dos autores que melhor soube dar vida à "autora" das cartas no romance que intitulou "Mariana", Asa, 1998)."Mariana, Todas as Cartas", de Cristina Silva, é mais uma incursão no universo da freira portuguesa, incursão que se faz à sombra dos trabalhos dos investigadores portugueses (Luciano Cordeiro, Manuel Ribeiro, Belard da Fonseca, Alfredo Saramago), que a autora aceita como provatórios dos dados biográficos que utiliza (apesar de dar conta da incongruência da atribuição do designativo "soror", reservado a monjas de origem plebeia) para recriar uma figura de mulher que escapa ao seu tempo e em que se reconhece uma independência e liberdade que seria apanágio de uma intelectual dos nossos dias. As 12 cartas que uma Mariana, já velha, dirige ao amante morto não são senão o que se poderia designar por uma autobiografia (a escrita da vida própria), em forma epistolar, ao mesmo tempo que traça o quadro da vida em Portugal no séc. XVII. O propósito de traçar um "retrato de tinta" é anunciado, de forma algo confusa, logo na primeira carta: "Como contar-te, como narrar-te todas as cartas, todas aquelas em que estiveste ausente. Através de ti olhei para mim, vislumbrei toda uma vida que eu não tive, e tu foste o espelho que os meus pensamentos tinham como reflexo."O destinatário, o antigo amante, é apenas a ocasião para o desdobramento do eu que toda a escrita autobiográfica e memoralista supõe. Mariana, na antecâmara da morte, passa em revista os diversos acontecimentos da sua vida, vida que tem o seu acme no encontro com o amante. Mas, se continua presa da recordação desse amor, não deixa de proclamar que "... te queria menos a ti do que à minha paixão", aparecendo o objecto do seu amor como "o pretexto que me serve de evidência para crer que, em outras circunstâncias, eu teria todas as capacidades para fazer da vida uma impressão mais palpitante".A Mariana destas cartas é uma Mariana revista e transformada que pouco ou nada tem que ver com a personagem das "Lettres Portugaises". Lúcida, livre e feminista "avant la lettre", denuncia não só a incapacidade de amar dos homens ("será que tu, como meu pai, só te importaste mesmo com as honrarias e a tua carreira militar?"), como é capaz de detectar nas manifestações místicas das monjas a marca do desejo sexual, ao mesmo tempo que assume o carácter deslocado do seu amor por Deus: "A maior parte das vezes dirijo as minhas ocas e improfícuas preces a ti e não a Ele, ao Todo- Poderoso."Se a personagem Mariana resulta anacrónica não é por aí que falha este romance ambicioso (a liberdade poética é infinita e o não verdadeiro pode ser verosímil). O que torna penosa a leitura é a escrita - uma pontuação arrevesada, erros na utilização das preposições, um fascínio gratuito pelas aliterações (que cria efeitos de gosto duvidoso), novo-riquismo vocabular - que exigiria um árduo trabalho do editor e desmente a sentença que se lê na contracapa: "'Mariana, Todas as Cartas', o livro de estreia de Cristina Silva, revela uma segurança e um domínio da língua raros numa primeira obra."