Leonardo Sciascia, o inventor da sicilianização do mundo

A obra novelesca e ensaística de Leonardo Sciascia é uma representação da metáfora siciliana e dos mundos de hoje e de sempre onde o homem vive espartilhado pelos caminhos que lhe são traçados pela lógica implacável dos poderes ocultos

A morte visitou-o no dia 20 de Novembro de 1989 por volta das sete da manhã e esse foi o último amanhecer na vida do velho escritor. Desaparecia o homem que dias antes de morrer chorava como uma criança num velho cinema de Milão emocionado com o filme "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore, belíssima metáfora da alma sensível do italiano meridional, esse género humano invulgar que encontra a infantilidade no mais implacável carácter. Leonardo Sciascia é tudo isso mas também a racionalidade crítica ou a inteligência glaciar de um espírito improvavelmente siciliano no austero estilo de vida.Nessa manhã longínqua de 20 de Novembro de 1989 o velho mestre-escola que guardava o mundo na universalidade do seu pensamento político e literário despediu-se da vida e deixou para trás mais de 40 livros, património histórico de uma luta pela verdade e pela justiça, expressa na cirurgia minuciosa que foi fazendo durante décadas a fio à sociedade italiana a partir da Sicília, da Mafia, da política e da desconstrução dos poderes reais.Tudo isso está na excelente biografia escrita pelo jornalista e escritor italiano Matteo Collura, lançada em finais do ano passado no mercado espanhol e sem edição portuguesa. "El maestro de Regalpetra" (Alfaguara) é uma biografia essencial para descobrir Leonardo Sciascia e toda a sua vida e obra que representam, afinal, um único e interminável livro sobre o muito que o mundo tem de sicilianização. A vasta obra novelesca e ensaística de Leonardo Sciascia é uma representação da metáfora siciliana e dos mundos de hoje e de sempre onde o homem vive espartilhado pelos caminhos que lhe são traçados pela lógica implacável dos poderes ocultos. A sicilianização do mundo que Sciascia inventou tem a sua marca mais inconfundível na história da própria Itália e na forma como ela se disseminou pelo mundo na sequência das vagas de imigração do princípio do século XX mas, também, nas formas marginais de poder que o fim de um mundo bipolar criou atrás da antiga Cortina de Ferro ou na implosão de países inteiros na América do Sul. E tudo começou, para Sciascia, na literatura. Nas tardes da canícula siciliana o escritor mergulhava na leitura dos clássicos que tinha à mão. Lá dos confins de Racalmuto, o jovem Leonardo devorava Diderot, Victor Hugo, Stevenson, Paul Pouis Courier, Voltaire e consolidou a mesma convicção moral dos enciclopedistas do século XVIII: a literatura podia ser também uma arma contra a injustiça, a opressão e os interesses particulares que, enraizados na sociedade, se opõem ao livre desenvolvimento de um Estado fundado na razão e em valores predominantemente cívicos.Mas foi também na leitura dos grandes autores italianos como Pirandello, Manzoni e Brancati que o futuro mestre-escola fundaria a sua consciência cívica. Os primeiros romances de Sciascia, que lhe permitiram afirmar-se como uma personalidade singular, datam dos anos 50. A partir daí Sciascia impõe o romance policial não como mero exercício de dedução lógica mas sobretudo de pretexto para passar uma ideia de cariz social ou política. No policial de Sciascia a história não se esgota na sua própria trama ou nos seus personagens. Ela é o veículo de uma forte intervenção política. O escritor põe a nu os caminhos da Mafia por entre os meandros do poder e da sociedade italianas, com toda a espessura do racionalismo pessimista que marca a sua relação com a política. Sciascia fê-lo, aliás, num momento em que isso só por si lhe valeu um confronto com as autoridades civis e religiosas que proclamavam a Mafia como uma mera invenção da imprensa. "Il Giorno della Civetta" (Turim, Einaudi, 1961) é o livro que representa toda a força novelesca e política de Sciascia, por muito que a sua carreira estivesse apenas a começar. O lugar de Sciascia na literatura mundial foi confirmado desde logo por este livro que, a par de "Le Parocchie de Regalpetra" e "Gli Zii di Sicilia", o primeiro de 1956 e o segundo de 1958, representa a verdadeira matriz da obra de Sciascia, tanto no que ela nos dá da metáfora siciliana, que constitui a sua atmosfera política, social e humana preferencial, como, noutra perspectiva, de análise sociológica e interpretação política. Sempre com o fundo romanesco magistral que o espírito meridional e culto de Sciascia sabia construir como ninguém.Sciascia nunca abandonou essa matriz que se desenvolveu à sombra do romance policial mas misturou-a com incursões bem sucedidas pelos caminhos da narrativa histórica em "O Conselho do Egipto" e outros. No fundo, a sua obra revelava uma progressão cada vez mais assumida a caminho daqueles que viriam a ser os seus interesses predominantes, ou mesmo obsessivos, como o direito e a relação dos homens com essa superestrutura que no tempo das ideologias era encarada pelo pessimismo do racionalismo crítico como uma forma de a classe dominante continuar a mandar e a explorar a classe dominada. Sciascia interessava-se pelas questões do direito, tanto aquelas que lhe eram dadas pelos "fait-divers" dos jornais e das suas secções de "casos do dia" como as que o transportavam para as profundezas dos "dossiers" judiciários ou de arquivos onde a dupla moral do poder repousava. Sciascia reconstituía a respiração desses mecanismos perversos dos poderes da penumbra.Os seus romances foram, tantas vezes, uma espécie de duplicação ou prolongamento dos seus ensaios e vice-versa. Sciascia desenvolveu, em contraposição com a sua visão da História encarada como um lugar da mentira e da injustiça, o optimismo da escrita. Na sua obra tomam corpo a utopia da literatura, chamada a ordenar o caos circundante, e o primado da elegância narrativa. Possuía, aliás, um modo próprio de descodificação da realidade que se manifestava sobre a forma de uma longa divagação ou por uma intuição fulgurante, partindo sempre da sua matriz literária, essa verdadeira constelação de estrelas cintilantes a que sistematicamente recorria para alimentar o espírito e a alma. Fernando Savater, escrevendo sobre Sciascia no suplemento literário do "El País", interrogava-se há tempos sobre o escritor siciliano de um modo eloquente: "Qual é, afinal, a temática essencial da obra de Sciascia? A Sicília? A política italiana? A perversão gradual de uma democracia maquilhada que esconde uma autocracia mafiosa? Uma justiça sem saída nos actuais Estados? Na verdade, todas estas interrogações podem acolher de forma razoável a mais significativa dimensão da obra literária de Sciascia e exprimem temáticas que se complementam umas às outras. Todavia, pela minha parte assinalo um outro tema, quiçá de um alcance mais vasto que os anteriores e menos localista nos planos geográfico e histórico: refiro-me à ambiguidade da lei."