Daniel Faria: o rapaz raro

Poucos poemas em língua portuguesa nos últimos 20 anos terão o impacto verdadeiro dos de Daniel Faria. O seu último livro, "Dos Líquidos", publicado no início deste ano, já foi póstumo.

Sophia de Mello Breyner Andresen foi, para ele, o princípio da poesia. E quando chegou a vez de Sophia o ler, disse: "Versos que põem o mistério a ressoar em redor de nós." Essa é a síntese, tudo o que importa. É da poesia que partimos, mesmo quando vamos de casa em casa, à volta da vida. Para saber um pouco mais, para voltar a não saber. Vale só por isto, a aproximação a uma biografia. Quando lhe pediram um auto-retrato, Daniel Faria (1971-1999) escreveu que era "um rosto que há-de vir". E assim será, para o leitor dos poemas. Acreditamos que na poesia portuguesa dos últimos 20 anos poucos tenham vindo à luz assim, com um impacto de pedra. O Daniel coleccionava pedras. É uma pequena coisa. Com as vozes de 18 pessoas e a presença de alguns lugares, esta é uma história de pequenas coisas, ao longo de quatro casas, ao longo do tempo. Depois, o que mais importa está nos livros, em cada mão.Basta respirares / E olharei em redorNesse tempo, o lugar ainda se chamava Além-do-rio, e a hora era a de Sábado de Aleluia, na memória da mãe: "Foi pelas oito da noite. Eu estava em casa, senti que ele ia nascer, a minha irmã veio para a minha beira, e ele nasceu tão rápido que a parteira não chegou a tempo." O segundo filho de Fernanda Nogueira da Cunha, filha e neta de camponeses, nascia-lhe assim, "com o tempo", aos nove meses de gravidez, à hora em que se começa a cantar a ressurreição - "uma alegria" mais, sendo ela católica praticante.Hoje o lugar já não se chama, oficialmente, Além-do-rio (apesar de a placa ainda lá estar), mas sim Alto Trigais, freguesia de Baltar, concelho de Paredes, 25 km a norte do Porto. E Sábado de Aleluia é, desde o Concílio Vaticano II, Sábado Santo.A primeira manhã de Daniel foi, então, a de um Domingo de Páscoa, nessa casa ainda só térrea, erguida num monte da sua avó materna, Ermelinda. Para trás campo, para a frente vinhas, logo abaixo o tráfego da estrada Porto-Vila Real, e em volta fábricas, crescendo. Ainda hoje é assim, com menos campo, mais casas e mais pisos nas casas: a dos pais de Daniel e as de seus tios, que se foram estabelecendo naquela subida, perto da primeira casa, a de pedra, a da avó. O único que não mora lá (hoje, professor de filosofia em Penafiel) foi o antecedente familiar no estudo das letras e é dele que vem o nome Daniel Augusto, por vontade da sua irmã, madrinha (e tia) de Daniel. Todas as raízes (os avós paternos eram de uma freguesia vizinha, Mouriz) apontam para estas terras roubadas aos poucos pela indústria - em que o pai de Daniel também foi operário mais de 30 anos. O rio do nome é quase um riacho no Verão. Há algum milho, alguma batata, criam-se galinhas e coelhos, em Setembro vindima-se o bago verde e faz-se o vinho. Coisa poucochinha, mas bastante para todos terem de ajudar. E o Daniel, como todos, primos, irmãos, desde pequeno, a cegar erva, a pisar uva, a apanhar maçãs, pêras, laranjas, diospiros, no quintal: "Tinha muita força, era saudável, até gordinho, só depois é que amiudou", recorda a mãe, "se fosse preciso, pegava num saco de batatas com 50 quilos, fazia tudo. Mas do que gostava mesmo era de ler, desde a primária, apanhava qualquer coisa com letras, uns bocados de jornal que fosse... Era muito sossegado, tinha muita paz, conversava-se com ele e ele dava paz." Paulo, irmão mais velho três anos - com a mesma diferença, os mais novos são Miguel e depois Clara - conta que "se lhe dessem a escolher entre ficar em casa ou ir para a praia, o Daniel ficava em casa." A praia, durante anos, em Agosto, era a da Luz, na Foz, Porto. "Ele não gostava, mas ia", acrescenta a mãe, "e voltava com búzios, conchas, caramujos, pedras. Depois fazia coisas, fazia presépios..." A paixão das pedras durou toda a vida. Cada amigo em viagem lhe foi trazendo uma. As mais pequenas e preciosas continuam na sua cela do Mosteiro de Singeverga, as maiores em casa dos pais. E o lugar de todas será o da palavra, tantas são as que vemos nos poemas. Que tenham começado por formar presépios, é o natural numa casa humilde em que a catequese, os retiros e a missa de domingo (até nas férias) faziam parte da vida das crianças. Fernanda Cunha recorda que "desde o jardim de infância" ele dizia que queria ser padre: "Eu sorria. Mas ele foi sempre dizendo, na escola, na catequese." Até que, no fim do ciclo, pediu para ir para o seminário. "Ainda lhe perguntámos se não queria fazer primeiro o liceu, aqui. Ele ficou calado, a pensar, e depois disse: se não têm nada contra, prefiro ir já."Põe uma escada e sobe ao cimo do que vêsO Seminário do Bom Pastor, à entrada de Ermesinde, divide-se por seis pavilhões, entre castanheiros, carvalhos, faias, pinheiros, e fieiras de hortênsias e rosas. Perdeu sossego desde que uma via rápida se atravessou ao fundo do parque. Mas quando o Daniel chegou, como "um miúdo de aldeia", conforme lembram os companheiros, ainda era um lugar de silêncio e pássaros.Aqui, o grande anfitrião foi o Padre Manuel Mendes, professor de português e apaixonado leitor, que lhe deu a ler Sophia e Eugénio de Andrade. "Contou-me que fazia poemas desde o ciclo. Tínhamos um jornalzinho, ele começou a escrever com entusiasmo e a passar esse entusiasmo aos outros. Era sereno, mas muito curioso, sempre a querer ir mais longe, a querer lidar com as coisas difíceis."Este padre e amigo - de quem Daniel se dizia herdeiro, no amor à poesia - não tem memória de uma adaptação difícil: "Ele era muito independente em relação à família. Desabrochou ali em Baltar como uma forma rara, e no seminário encontrou um espaço para crescer. Era muito bom aluno, gostava dessa vida regrada com horas para tudo, em que tinha tempo para ler, foi descobrindo música, teatro, marionetas, amigos com outras experiências."O enérgico colega de camarata Fernando Mota - hoje pároco em Santo Tirso - lembra que "o Daniel não se afirmou logo, não era um jogador de futebol, por exemplo, ficava a ver-nos, mas sempre se integrou".Fernando Nuno, colega de então e amigo de sempre - hoje, professor de filosofia no Porto -, recorda-se de "admirar o Daniel à distância, primeiro, e depois de ler por causa dele os contos de Sophia, "As Memórias de Adriano", da Yourcenar, o Michel Tournier, o "Crime e Castigo", de Dostoiévski, Raul Brandão..." Isto, algures entre os 12 e os 15 anos.O Padre Mendes confirma que nele "acontecia tudo muito cedo, muito depressa", chega a dizer que, apesar da diferença de idades, gostava de o ouvir "como um conselheiro".Do Bom Pastor, onde esteve três anos, Daniel segue para o Seminário de Vilar, no centro do Porto, onde, até ao 12º ano frequentará o liceu Rodrigues de Freitas. Começa a compor poemas torrencialmente, e a partilhá-los. Dá livros inteiros: "Traço Branco", "Pórtico", assinados ora Daniel Augusto, ora com pseudónimos como Germano Serra, quando se tratava de participar em concursos. Entre versos inocentes sobre o Porto, os pescadores, o campo, o amor, emergem já duas presenças: a morte e Deus. Conta-se que a professora de português, Rosa Maria Valente, de quem ele gostava muito, pensava a princípio que eram copiados.Literárias, não literais, seriam, de acordo com a memória de amigos, as inspiradoras dos versos de amor. "Não me lembro de conversarmos sobre raparigas, sempre achei que ele queria ser padre", relembra o jovem Padre Mota, "eu dizia-lhe que achava fascinante ter uma família, casar, e ele respondia que não tinha vocação nenhuma para casar. Gostava do seu mundo, de o partilhar, mas creio que a ideia de estar para sempre com alguém lhe fazia impressão. No entanto, lidava muit