A cultura na primeira página

manchete@abc.esSabes? Comecei bem a manhã, o que para mim é decisivo, porque, em regra, se prolonga ao longo do dia. Na minha habitual banca de jornais, comprei o "ABC", de Madrid, jornal de tradição conservadora e monárquica, que raramente me acontece ler. Possui um formato cómodo e "sui generis", uma espécie de mini-tabloide, com as páginas agrafadas como se de um magazine se tratasse. O que me interessou naquela edição do jornal foi a primeira página, hegemonizada pela fotografia do pensador George Steiner, a quem foi atribuído o Prémio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades. O "grande plano" de Steiner - ou de outro intelectual do mesmo tipo - não é a opção mais comum na primeira página de um quotidiano de informação geral. Nem é frequente a cultura sobrepor-se assim ao escândalo, ao "fait divers", à política, ao desporto. Se fazer jornalismo pode ser uma acto de cultura, esta primeira página corresponde a um gesto cultural forte e assumido, tal como a atribuição da página três, na íntegra, a um texto inédito do escritor (em pré-publicação da tradução castelhana).Para mais, não estava em causa um eventual Prémio Nobel conferido a um escritor espanhol, mas apenas uma distinção espanhola atribuída a um escritor estrangeiro, embora cidadão do mundo, num sentido que não é apenas metafórico, porque Steiner é, ele próprio, um exemplo vivo de multiculturalismo. Nasceu em França, mas é cidadão norte-americano, país onde a sua família se refugiou por causa do nazismo. Nasceu numa babel linguística. "Não tenho memória de uma primeira língua", escreveu o pensador. Em sua casa, falava-se inglês, francês, alemão e até húngaro. Além destas línguas, conhece o hebreu e o italiano. Curiosamente, não domina o castelhano, o que significa que o júri do Prémio Príncipe de Astúrias não agiu por motivações estreitas e nacionalistas. Pelo contrário pretendeu consagrar uma obra de valia universal.capuchino@la.scala.itO modo como a manchete está redigida corresponde a um estilo hiperbólico, a um exagero jornalístico - "George Steiner, el último gran sabio contemporáneo" -, mas traduz a política cultural de um dos quatro grandes diários de Espanha, a par de "El País", "El Mundo" e "La Vanguardia", que possui uma tiragem diária superior a 290 mil exemplares (informação de Nobre Correia, "Expresso", 5 do corrente). Através do "ABC", mas também de desenvolvidas reportagens, entrevistas e críticas em "El País", "El Mundo" e "La Vanguardia", os jornais retribuem a Steiner a amizade que o próprio escritor dedica à imprensa. Não só por ter sido crítico literário do "New York Times" e do "New Yorker", além de comentarista do "Economist", mas porque, ao contrário de certo pedantismo académico, valoriza a leitura dos periódicos enquanto rotina quotidiana geradora de prazer. Numa entrevista recente, perguntaram-lhe como concebia o paraíso e o pensador respondeu: "É muito fácil. Conhece Milão? Conhece a galeria? Estou ali sentado a tomar um capuchino. Tenho sobre a mesa "Le Monde", "La Stampa", "El Mundo"... e uma entrada para La Scala. Isso é para mim o paraíso." (entrevista a Irene Hdez Velasco, "El Mundo", 10 de Maio).conservador@escritorQueres saber se, em minha opinião, aquilo a que chamas "o conservadorismo" do pensamento de George Steiner não terá constituído uma das motivações do relevo concedido pelo "ABC" ao galardão literário que lhe foi atribuído? Não acho a pergunta grave. Parece-me, antes, divertida. E eu respondo-te de duas formas que me parecem complementares.Primeiro, não considero o rótulo de conservador adequado para classificar, na sua globalidade, a obra de Steiner, não só pela sua oposição a todas as formas de totalitarismo político e intelectual, mas porque a cada página a cada linha dos seus livros - ou até das meras declarações em entrevistas de ocasião - nos provoca, desafia e ensina a questionar as rotinas e as dogmáticas. Segundo, se existe um lado efectivamente conservador nas propostas de Steiner, quiçá a sua relação ao judaísmo (não sendo, aliás, sionista, como faz questão de sublinhar) ou o seu pensamento sobre a relação entre a literatura, arte e a crença religiosa ("não sabemos o que poderia ser a contrapartida ateia da "Divina Comédia" de Dante ou da música de Bach"), e se essa componente esteve, porventura, na origem da opção do quotidiano de Madrid, não vejo qual é o problema...Oxalá tivéssemos, em Portugal, uma direita conservadora, ligada a princípios e a uma certa visão da cultura, em vez de convivermos um "centrão" mole, sem princípios, nem opções culturais, vinculado apenas aos cultos da moda, do efémero e da eficácia, uma "ideologia" do apolítico, do rentável e do tecnologicamente correcto. Desculpa lá, não estou a desinscrever-me da família de esquerda a que pertenço (um pouco naquela atitude do meu avô farmacêutico, republicano e anticlerical, que não frequentava igrejas, excepto no fim de cada ano em que participava no "Te Deum" de Acção de Graças), mas lembro-me, com alguma nostalgia, do "Fígaro", nos anos 70, onde escreviam intelectuais de direita e centro-direita como Raymond Aron e tantos outros do mesmo nível...steiner@sic.ptPor ironia, a SIC difundiu recentemente uma longa e, ao que me dizem, magnífica entrevista com George Steiner. Ora, o problema é precisamente esse - tão debatido no Encontro Ibero-Americano de Jornalismo Cultural (decorrido no Porto, na semana passada, com Luís Humberto Marcos como anfitrião) - das temáticas culturais serem remetidas muitas vezes para guetos, corporizados em programações fora de horas, canais temáticos, lugares esconsos, publicações hiperespecializadas. Por isso rejubilei, ingenuamente, com aquela primeira página do "ABC"...No Encontro Ibero-Americano (socorro-me aqui da excelente síntese conclusiva dos meus colegas Manuel Neto da Silva e Pedro Matos Trigo) um dos responsáveis pela Televisão da Galiza, José Durán, sublinhou que o tratamento jornalístico da cultura deve ser encarado, em simultâneo, como forma diferenciada e autónoma, com programas específicos, mas também com participações avulsas e fragmentárias integradas no todo informativo. A coexistência das duas dimensões - permito-me acrescentar - é essencial, a fim de garantir, simultaneamente, o tratamento aprofundado das temáticas culturais mas também que estas não fiquem confinadas a um gueto. A especialização no domínio do "jornalismo cultural" é necessária - como sublinhou o Professor da Complutense de Madrid, Javier Fernández del Moral -, tanto mais que a informação especializada deve ser "divulgação contextualizada", sem se confundir com uma "vulgarização" que signifique ausência de rigor e caricatura do saber, a reboque das estratégias e dos interesses do "marketing" cultural.O tratamento informativo da homenagem espanhola a Steiner - no "ABC", "El País", "El Mundo" e "La Vanguardia" - constitui um exemplo de excelente jornalismo cultural, com recurso a editoriais, pequenos ensaios, entrevistas e textos originais do escritor. Talvez uma forma de atenuar o pessimismo do próprio Steiner, quando afirma: "As democracias populistas não estão, necessariamente, voltadas para a excelência. O império dos meios de comunicação e do mercado, o oportunismo distributivo do consumo de massas (...) podem ser muito mais perniciosos para a arte do que a censura nos regimes do passado" (entrevista a Juan Pedro Quiñonero, "ABC", 10 de Maio). Dito desta forma brutal, por um democrata, humanista, anti-tot