Retrato do artista enquanto coisa

A poesia de Manoel de Barros é pré-literatura na medida em se coloca no limiar de uma inexorável sageza. Nele, a arte poética é uma ética em estado de palavras.

Saudemos em primeiro lugar o enorme mérito de uma jovem editora portuguesa que se arrisca (sem rede nem apoios do lado das instâncias oficiais brasileiras, a não ser a simpática compra de exemplares por parte da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão)) a publicar uma breve antologia de um dos nomes mais conhecidos (no Brasil, sublinhe-se, mas não em Portugal) da poesia contemporânea de língua portuguesa: Manoel de Barros. Sob o título de "O Encantador de Palavras", o poeta Valter Hugo Mãe lançou-se a fazer esta difícil escolha no corpo de uma extensa obra poética com títulos que vão de 1937 até aos nossos dias. Refira-se que Manoel de Barros tem hoje 84 anos e constitui indubitavelmente uma referência de primeiro plano nas letras brasileiras. Foi o próprio poeta que impôs uma selecção que não excedesse os trinta poemas, argumentando que "poesia deve ser coisa pouca". Como o poeta, que para ser coisa pouca, se deve retratar enquanto coisa. O resultado destas apertadas regras do jogo foi um conjunto em que Valter Hugo Mãe procura concentrar-se na arte poética do autor. Mas isso não é redutor, na medida em que neste caso, como em tantos outros, a arte poética é uma ética em estado de palavras.O que constitui a marca de Manoel de Barros (e que de certo modo pode significar para outros um óbice) é precisamente a tendência para imprimir aos seus textos uma dimensão de inscrições lapidares num percurso de iniciação. A poesia de Manoel de Barros é pré-literatura na medida em se coloca no limiar de uma inexorável sageza. E, se eu quisesse encontrar uma fórmula que sintetizasse tudo isto, diria que toda a sageza está numa persistente procura da anterioridade, não como mundo de essências, nem mesmo com fenomenológico mundo original, ou espaço antepredicativo, mas apenas como efeito de um incansável passo atrás, que permite que a pré-coisa anuncie a coisa, o pré-nome antecipe os nomes e o pré-humano apareça sempre como um lugar de redenção. Disto nos dá amplamente conta um dos mais interessantes poemas deste livro: "Naquele tempo de dantes não havia limites/ para ser./ Se a gente falasse a partir de um córrego/ a gente pegava murmúrios./ Não havia comportamento de estar./ Urubus conversavam auroras. / Pessoas viraram árvore,/ pedras viraram rouxinóis. Depois veio a ordem das coisas e as pedras/ têm que rolar seu destino de pedra para o resto/ dos tempos./ Só as palavras não foram castigadas com/ a ordem natural das coisas./ As palavras continuam com seus deslimites."Estamos perante uma cosmogonia discreta de Manoel de Barros, em que ele inventa um espaço anterior de metaforicidade generalizada, isto é, em que tudo transborda para tudo numa reversibilidade permanente (do mineral ao animal, do vegetal ao humano), e em que, mercê de uma espécie de pecado original, se veio instalar uma ordem das coisas supostamente natural a que apenas escaparam as palavras, e por isso são elas, as palavras salvas que ressalvam as palavras arrrebanhadas pelas malhas da ordem, que permitem manter a virtualidade do espaço anterior. E é isto que promove a operador privilegiado o prefixo "des-", naquela desenvoltura de linguagens em que a poesia brasileira se desabotoa mais facilmente do que a portuguesa: e temos por isso os "deslimites", mas também "os desobjectos artísticos", ou "o desimportante", ou ainda o "desfuncionalizar" ("dar ao pente funções de não pentear"), e depois o "desinventar" e mesmo o imprescindível "desaprender" ("desaprender oito horas por dia ensina os princípios").É claro que se avoluma aqui uma linha romântica que vai valorizar lunáticos, bêbados e outros tropeçantes tontos da aldeia - como se fossem, ao lado dos poetas, os profetas do espaço anterior. Mas este aspecto vai acompanhado por outros que suponho mais interessantes. Por um lado, a ideia de que tudo isto se constrói com alguma paciência e engenharia artesanal: trata-se de construções lúdicas. E por isso é possível definir a poesia como "armação de objectos lúdicos com emprego de palavras imagens cores sons". Em segundo lugar, ao contrário do que a tradição impõe, não se trata de considerar uma natureza extática, em posição de abertura para o outro que nós somos. Diz Manoel de Barros que "o esplendor da manhã não se abre com faca", e se alguma coisa caracteriza as coisas não é a sua abertura, mas a sua clausura, o recolhimento, uma espécie de ensimesmamento expansivo (isto é, que se propaga por contágio). As coisas não se abrem nem vão em demanda de um nome: são "coisa que não faz nome para explicar." O poeta não ostenta o ofício de nomear. Trata-se de propagar a linguagem do desnome, aquela que deslimita, e permite, através das frestas que assim se introduzem, que passe o surpreendente, o inaudito, uma espécie de "espantação" sem fim.O poeta tem um trabalho específico que é o de multiplicar os indícios dispersos de semelhanças: "Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças", e para isso basta que use "algumas palavras que ainda não tenham idioma".Por outro lado, da parte do poeta há uma espécie de voluptuosidade em se sentir coisa. Tudo se coloca - como diz o título de um dos seus livros mais conhecidos - no plano de uma "Gramática expositiva do chão", em que a poesia não se impõe, mas expõe e se expõe nesse gesto de expor. Contudo, para além disso sentimos o prazer da exposição, do corpo entregue a um processo de vegetalização quase masoquista: "Já posso amar as moscas como a mim mesmo" (desvio subtil do "amar os outros como a nós próprios", que induz mais adiante o "quero cristianizar as águas"), "plantas desejam minha boca para crescer por cima", o que leva a uma morte sem sujeito de morrer ("não tenho competências para morrer"), por simples absorção lenta e putrefacta de animais especados e plantas carnívoras.Isto propõe-nos uma vocação cabisbaixa que pode passar por modéstia, mas é certamente uma modéstia para eleitos, para os que atravessam o crivo da ordem imposta das coisas e ficam do lado do desperdício: "o que é bom para lixo é bom para poesia". Trata-se de certo modo de uma recusa do valor de troca, ou, se preferirem, uma rejeição do mercado (dando a primazia a "tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma / e que você não pode vender no mercado"), mas é ainda uma espécie de ecologia resignada, sem fundamentalismo nem militantismo que não sejam os de uma afirmação da equivalência entre "o estado de árvore" e "o estado de palavra". Por isso não se pretende afirmar a responsabilidade do poeta, mas o seu empenhamento no reino das irresponsabilidades. Inventado o primeiro verso, a criança mostra-o à mãe: "Mostrei a obra para minha mãe./ A mãe falou:/ Agora você vai ter que assumir as suas/ irresponsabilidades./ Eu assumi: entrei no mundo das imagens". Isto é, das facas sem cabo nem lâmina.