Da velha à nova economia no Ruhr

A maior região industrial da Europa, a bacia do Ruhr, na Alemanha, viveu uma reconversão de fundo na última década. O carvão e o aço foram em grande parte substituídos pelas tecnologias da informação e biotecnologias.

Sinónimo durante quase um século da industrialização alemã, a região situada entre os rios Ruhr, Reno e Lippe, a chamada "Ruhrgebiet" (bacia do Ruhr), a maior cintura industrial europeia, viveu na última década uma dramática reconversão. As tradicionais indústrias do carvão e do aço cederam, em importância, lugar às empresas da nova economia - das tecnologias da informação à biomedicina.Se hoje os números que se discutem no Ruhr incidem sobre o Nemax 50, em vez dos sombrios 400 mil postos de trabalho extintos desde 1954 nas indústrias carbonífera e siderúrgica, isso deve-se em grande medida aos esforços da "Iniciativa Ruhrgebiet"(IR). A IR, sediada em Essen, é uma associação de 47 empresas (E.on, RAG, RWE, Thyssen-Krupp, Deutsche Bank, Dresdner Bank, Siemens, STEAG, etc.) considerada como um modelo único na Europa de parceria entre o sector público e o privado.Na génese da IR, constituída em 1989, estiveram as graves crises no carvão e no aço na década de oitenta. Até esse momento, as titânicas companhias no Ruhr eram tidas como garantia de bem-estar e de emprego seguro. Um cenário comum era ver várias gerações da mesma família a trabalhar ao longo de toda a vida na mesma empresa."O mineiro com a face escurecida pelo pó de carvão cunhou a imagem desta região durante décadas", recorda Jochen Melchior, presidente do Conselho de Administração da STEAG. Confrontado com o declínio dos pilares económicos do Ruhr - e os consequentes desemprego, pobreza, aumento das tensões sociais e radicalismos políticos -, o então Governo do chanceler Helmut Kohl convocou para uma conferência, realizada em Bona em 1988, todas as grandes empresas da região, representantes da banca, das diversas áreas sociais e políticos, destinada a debater o futuro do Ruhr. Como "follow-up" da conferência surgiu em Fevereiro de 1989 a "Initiativkreis Ruhrgebiet", que assumiu a responsabilidade social de criar novos postos de trabalho, de tornar a região atractiva para investimentos (um dos argumentos mais fortes são a localização geográfica e as excelentes infra-estruturas de que a região dispõe, não apenas em termos de tráfego viário e ferroviário, mas também fluvial), fomentar a investigação, o desporto e a cultura (realiza-se um festival anual de piano, exposições de pintura) e melhorar a imagem da bacia do Ruhr ao nível nacional e internacional.Decorrida uma década, cerca de 60 mil pessoas trabalham na indústria extractiva e menos de 40 mil na siderurgia, o que numa população activa de dois milhões de pessoas representa cinco por cento (há dez anos havia 260 mil pessoas a trabalhar nestes sectores). O carvão e o aço não são mais as indústrias dominantes no Ruhr. "A exploração de carvão está hoje concentrada nas mãos da Deutsche Steinkohle e a produção de aço faz-se apenas sob uma chancela, a da Thyssen-Krupp", sublinha Jochen Melchior.Muitas das antigas minas e fábricas foram convertidas em museus de "cultura industrial". Dois excelentes exemplos dessa recuperação são o Museu Zollverein, em Essen (cujo trabalho de restauro esteve a cargo do arquitecto britânico Norman Foster, o autor da cúpula envidraçada do Reichstag em Berlim), e o Gasómetro, em Oberhausen, onde os escultores Christo e Jeanne-Claude instalaram uma monumental escultura colorida com milhares de barris de óleo. Outras instalações fabris acolheram elegantes restaurantes - onde a maquinaria pesada confere um toque interessante à decoração -, são "incubadoras" de novas empresas ou simplesmente foram integradas no projecto "natureza industrial" (ver caixa).Na área de Dortmund, estabeleceram-se cerca de 850 novas companhias no sector da telecomunicações e das tecnologias da informação, que ocupam cerca de 13 mil pessoas, e tiveram, em 1999, um volume de receitas de 2,8 mil milhões de marcos (287 milhões de contos). Face a 1998, o crescimento registado é de 20 por cento, claramente superior à média nacional alemã, de oito por cento. "Dortmund está a viver uma revolução no sector do 'software', comércio electrónico e multimedia", nota Helmut an de Meulen, administrador da Materna Information and Communication, empresa líder mundial de mercado na distribuição de serviços de mensagens curtas. Até 2010 pretende-se criar em Dortmund 70 mil postos de trabalho neste sector.Com o auxílio de programas específicos de apoio suportados pelo governo regional da Renânia do Norte Vestefália, fixaram-se no Centro Tecnológico de Dortmund 15 empresas na área das tecnologias de microssistemas e 12 centros de investigação e pesquisa. Uma dessas companhias é a STEAG microparts GmbH, "filha" da STEAG, líder na área das aplicações biomédicas (que desenvolveu, por exemplo, um microespectrómetro óptico que permite, sem recurso a agulha, detectar os níveis de bilirubina [responsável pela icterícia] no sangue de recém-nascidos, ou o "lab on a chip", uma lamela que permite efectuar cerca de seis dezenas de análises com apenas uma gota de sangue). "Instalámo-nos em Dortmund em 1994 com 40 empregados, hoje temos 160, afirma o administrador Reiner Wechsung.Apesar da dinâmica intervenção da IR, os problemas da região estão longe de estar resolvidos: em muitas cidades do Ruhr a taxa de desemprego ronda os 16 por cento - um índice semelhante ao dos estados do Leste alemão - e a produção de carvão continua a ser fortemente subsidiada pelos contribuintes alemães (em 70 por cento).Contudo, quando se viaja pela bacia do Ruhr é palpável uma mudança na cultura empresarial (por exemplo, quando a Thyssen e a Krupp se fundiram numa empresa emagrecida, uma das suas principais apostas foi no comércio electrónico, na venda de aço via Internet) e na percepção que os habitantes da região têm acerca dela: o Ruhr não é mais uma zona poluída, marcada pela indústria pesada, é uma área que oferece aos seus cinco milhões de habitantes uma diversidade de ofertas culturais (seis óperas, 130 museus, orquestras sinfónicas), de lazer e oportunidades de emprego interessantes no domínio das tecnologias de ponta.A "Initiativkreis Ruhrgebiet" assumiu a responsabilidade social de criar novos postos de trabalho, de tornar a região atractiva para investimentos, fomentar a investigação, o desporto e a cultura e melhorar a imagem da bacia do Ruhr ao nível nacional e internacional.