De crise em crise até ao museu final

Para que do antigo "império" Duarte Ferreira, em Tramagal, reste no mínimo uma recordação, ex-funcionários, autarcas e instituições locais procuram criar um museu, depois e duas tentativas frustradas. A metalúrgica da vila chegou a empregar dois mil funcionários, mas as crises na agricultura, na produção de azeite e no transporte ferroviário e o fim da produção de viaturas militares para a guerra colonial, condenaram a Duarte Ferreira. Do potentado económico resta a hipótese de um museu.

Depois de uma primeira tentativa, em 1981, e de um segundo esforço feito em 1995, um grupo de autarcas e antigos funcionários da Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF), no Tramagal, concelho de Abrantes, está a desenvolver iniciativas para a criação do Museu Comendador Eduardo Ferreira, uma "homenagem à obra, à vida e aos valores" defendidos pelo fundador da metalúrgica. A MDF, que foi um ex-libris da indústria ligeira em Portugal - empregou nos seus tempos áureos cerca de dois mil funcionários -, sofreu nas duas últimas décadas uma profunda transformação, ficando fragmentada em empresas independentes e perdendo a identidade. Mas os ex-empregados e a comunidade da vila ribatejana não querem que depois da queda do "império" Duarte Ferreira se deixem desaparecer as imagens e os símbolos da família a quem Tramagal deve o seu crescimento e a importância actual. A MDF espelhou em grande parte o desenvolvimento da agricultura portuguesa ao longo deste século, impulsionou o progresso dos caminhos-de-ferro e sustentou a produção dos veículos Berliet que equiparam as forças militares portugueses nas guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. E foram as crises sucessivas na agricultura, o desinvestimento na ferrovia e, sobretudo, a forte aposta na produção de camiões Berliet nos últimos anos das guerras coloniais que enfraqueceram a MDF. "O grande problema de MDF foi o facto de, a partir de certa altura, ter-se vocacionado para o apoio ao Estado, produzindo veículos militares em série e descurando a parte agrícola. Houve uma grande expansão na produção dos Berliet, mas depois do 25 de Abril ficou tudo parado, com grande prejuízo da empresa", observa Francisco Oliveira Estudante, funcionário da empresa durante 40 anos e membro da comissão que luta pelo museu. "A empresa começou também a ficar desactualizada na área das máquinas agrícolas e foi sendo ultrapassada por outras firmas", acrescenta Francisco Estudante. "Os nossos antigos clientes, mais fiéis, foram abandonando a actividade agrícola e, quando demos por isso, eram os filhos que mandavam e eram clientes dos nosso concorrentes. A sigla MDF e o símbolo da borboleta já nada lhes dizia". Após o 25 de Abril a empresa foi intervencionada pelo Estado e em 1980 é devolvida à família, ficando Carlos Duarte Ferreira, neto do fundador, a presidir o conselho de administração. Apesar dos esforços da administração, a MDF não conseguiu acertar a sua estratégia com o mercado. E onde eram as suas instalações foram surgindo novas unidades industriais, como a Mitsubishi de Portugal, a Indústrias de Fundição do Tramagal, a Futrifer ou a Futra, também recentemente falida. Tramagal pretende, no entanto, que a metalúrgica que durante décadas foi a ganha-pão da freguesia e da região e a imagem de Eduardo Duarte Ferreira permaneçam na memória de todos e volta-se agora a insistir na criação do museu, quando tudo o que sobra só lá parece ter lugar. "O primeiro passo para a criação do museu foi dado em Dezembro de 1981, quando eu e o escultor Charters de Almeida traçámos as linhas gerais para a recolha do material museológico", diz Francisco Estudante, adiantando que a seguir visitou algumas das maiores casas agrícolas do Ribatejo, para verificar se algum material já em desuso poderia servir de espólio. Nessa altura tudo o que era ferramenta agrícola, desde uma simples enxada aos arados ou às complexas ceifeiras-debulhadoras tinham a chancela da marca do Tramagal. De entre o espólio que foi possível obter, Francisco Estudante foi guardando muitas peças na cave da pousada onde dantes pernoitavam os quadros da MDF. "Fazer a história da MDF é fazer a história da agricultura e da indústria do país neste século, incluindo de Angola para onde foram muitos equipamentos agrícolas quando era uma colónia", afirma o dinamizador do museu, repetindo uma frase que atribui a Charters de Almeida. Nesta primeira fase, Manuel Manana, outro elemento da comissão pró-museu, ficou encarregue de enviar circulares da MDF, manisfestando interesse junto de antigos clientes em reaver material já sem uso. Mas a partir de 1984 a crise da metalúrgica acentuou-se e a ideia do museu sofreu as consequências. A cessação de actividade da Fábrica de Máquinas Agrícolas de Tramagal, em 1995, reacendeu a ideia da instalação do museu e, no dia 30 de Janeiro desse ano, foi criado um novo grupo de apoio, incluindo representantes da junta, assembleia de freguesia e comissão de melhoramentos do Tramagal, além de elementos da escola básica e secundária da vila e do centro de emprego de Abrantes. O grupo foi recebido pelo presidente do executivo municipal, Nelson de Carvalho, que toma conhecimento do anteprojecto e da sua justificação. A família concorda com a iniciativa, mostra-se disponível a apoiá-la. Carlos Duarte Ferreira salienta que o investimento respeita a quatro gerações de tramagalenses, admite que é possível recorrer a fundos comunitários para juntar os 200 mil contos previstos para a instalação e disponibiliza-se a indicar um arquitecto que apresente um projecto. Em vista aérea, o edifício devia parecer a borboleta do logotipo da empresa - mas a verdade é que o projecto ficou por aí e a "borboleta depois de iniciar o voo não voltaria a poisar": "Numa nova reunião, em Março de 1995, o vereador da Cultura Hélder Silvano salientou que era necessário o grupo ter personalidade jurídica e só a partir daí desenvolver a sua acção", recorda Francisco Estudante. Por coincidência, no dia seguinte a comissão de melhoramentos de Tramagal realizava a sua assembleia geral. Como tinha estatuto jurídic,o criou internamente uma comissão exectiva para avançar com o museu. Já passaram cinco anos e o ex-técnico da MDF está convicto de que "com os dados novos, como o novo plano de urbanização da vila, é possível progredir". Para já, parece que há condições para arrancar. "O actual responsável pelas instalações da antiga MDF, Joaquim Dias Amaro, está a dinamizar o aproveitamento dos edifícios. É possível que o antigo escritório principal ou a secção técnica possam ser adaptados para receber o espólio do museu", nota, com alguma expectiva, Francisco Estudante. Máquinas para sementeira, colheita, debulha e rega, equipamentos para lagares, moagem de cereais, fábricas de sisal ou de vidros, guindastes e centenas de outras peças já em desuso aguardam a sua vez de contribuir para o museu que homenageia a figura pioneira de Eduardo Duarte Ferreira, o "o homem das noras".