Centro multimeios de Espinho, Gugenheim ou Titanic?

Se este texto fosse uma notícia, aqui e ali com umas pinceladas de exagero metafórico, poderia começar assim: "Um barco de grande porte acaba de encalhar ao largo de Espinho, e de adornar. No entanto, misteriosamente, foi parar ao recinto da feira semanal, uns bons 300 metros para além da linha da costa, voltando-se completamente ao contrário". Bem-vindos ao Centro multimeios de Espinho, a mais recente "provocação" do arquitecto Nuno Lacerda Lopes

Carlos Nuno Lacerda Lopes é, pode dizer-se, um arquitecto multimeios. Faz o que fazem todos os arquitectos, mas muitas coisas mais. É que para além de dar aulas na faculdade de arquitectura da Universidade do Porto e de gerir o seu próprio "atelier" (e até aqui nada de muito novo a assinalar, trabalha habitualmente em cenografia - tem-no feito sobretudo com Ricardo Pais -, dá forma aos objectos e aos "décors" do mágico Luís de Matos, concebe e vende o seu próprio mobiliário, tem uma empresa de produção de CD Rom e prepara-se agora para lançar um portal de arquitectura, engenharia e "design" na internet.Aos 39 anos, desde há muito radicado em Espinho, oriundo das terras de Dão-Lafões, acaba de ver inaugurada a sua mais recente e emblemática obra pública, precisamente na cidade geométrica das ruas numeradas que escolheu para viver e trabalhar: o arrojado centro multimeios, que os admiradores designam, sem pudor, como "o Gugenheim de Espinho", e que os detractores apelidam, sem misericórdia, como "o nosso Titanic".Conhecido o arquitecto e visitado o edifício, torna-se difícil de imaginar um outro exemplo de tão grande sintonia entre a obra e o seu criador: ambos são multifuncionais, provocadores, elementos de ruptura, catalisadores de emoções, factores de movimento.Se este texto fosse uma notícia, aqui e ali com umas pinceladas de exagero metafórico, poderia começar assim: "Um barco de grande porte acaba de encalhar ao largo de Espinho, e de adornar. No entanto, misteriosamente, foi parar ao recinto da feira semanal, uns bons 300 metros para além da linha da costa, voltando-se completamente ao contrário".Esta foi a primeira provocação de Nuno Lacerda, embora sugerida pelo caderno de encargos elaborado pela autarquia: erigir o mais contemporâneo dos edifícios públicos espinhenses no mais tradicional dos espaços urbanos da terra - a zona onde decorre a celebrizada feira semanal, ainda hoje a maior e mais movimentada do país.Percebe-se que o arquitecto não aprecia a imagem redutora do barco que encalhou por ali. E explica que a sua forma de trabalhar procura, antes de tudo, um conceito, "uma ideia que depois se procura desenvolver em forma e que não começa pela forma em si". Neste caso, a ideia deu os primeiros passos "à volta do olhar, do próprio olho", de um contentor também, de um conceito que pudesse criar um espaço "para incorporar outros espaços e outras formas no seu interior". Por isso, o centro multimeios de Espinho é um espaço muito fechado, sem relações aparentes com o meio exterior que lhe é envolvente, que não tem janelas, e que assim permite transportar as pessoas "para um outro mundo, o mundo da imagem, o mundo do conhecimento".Entra-se no edifício e percebe-se que é mesmo assim. Cá fora, e para facilitar a descrição, vamos mesmo admitir que temos um barco de pernas para o ar. Mas lá dentro, afinal, não há porões, nem zonas acanhadas, nem falta de luz natural. Há pés direitos gigantescos, uma rampa que faz lembrar uma ponte, um conjunto de salas que se aloja numa autêntica carruagem de comboio sub-urbano, uma imensa bola metálica que alberga um planetário, um cinema que se desenvolve na vertical para a projecção em formato "imax". "Quero que as pessoas entrem e sintam o peso daquele espaço, porque o espaço é o verdadeiro dom da arquitectura - porque a arquitectura cria espaços, mais do que formas", insiste Nuno Lacerda Lopes, à medida que acompanha a reportagem do PÚBLICO na visita ao centro multimeios de Espinho. As ideias que o animam são "o movimento e uma certa relação com a realidade e as imagens do quotidiano. Daí o barco, a carruagem, a ponte...". No mesmo sentido, e com um sorriso que não esconde a provocação, vai dizendo que se encontra a desenvolver um projecto "que é um zepellin", um dirigível que há-de ser o futuro museu arqueológico da cortiça, em Santa Maria da Feira.Vale a pena perder um pouco mais de tempo com o criador para melhor perceber a sua obra: "Tenho algum receio sobre alguma da arquitectura actual, feita de espaços vazios, de espaços por habitar. Olho para as fotografias das revistas especializadas e cada vez mais vejo que o homem está ausente, que os espaços não passam de grandes maquetas por habitar, por utilizar, sem vivência".Tal como as pessoas, Nuno Lacerda considera que os edifícios devem estar preparados para mudar com a passagem dos anos, para sofrer com o tempo, para alterar o seu comportamento, para se adaptarem e transformarem face ao inesperado, para serem, no fundo, obras inacabadas.É no exterior do centro multimeios, no seu revestimento, que essa ideia está plasmada com maior evidência. O envelhecimento dos edifícios é um processo caro a Nuno Lacerda e a escolha do cobre para forrar este centro multimeios não foi, assim, fruto do acaso, ou apenas uma determinação de ordem estética. O objectivo passou por criar uma segunda pele, um acabamento que hoje é castanho e que daqui a um ou dois anos se vai tornar progressivamente esverdeado. Uma segunda pele que, além do mais, oferece a durabilidade necessária num clima agressivo como o de Espinho, "e que tem a ver com o mar, e se calhar com o revestimento dos barcos".Este edifício é também consequência de alguma indignação. Porque o seu autor fica "um bocadinho chocado, um bocadinho entristecido", quando vê um centro comercial que acaba por ser igual a um museu, um museu que acaba por ser igual a uma bomba de gasolina, uma bomba de gasolina que acaba por ser igual a uma residência. "E o pavimento acaba por ser quase sempre em mármore, e tem o incontornável lambril, e o tecto é sempre em branco, e a mesa tem que ter madeira, e tudo isso cria um léxico arquitectónico que nos desresponsabiliza da atitude da experiência, da comunicação, da pesquisa, da investigação". Defendendo que a arquitectura tem por função primordial "oferecer espaços para a felicidade do homem", Nuno Lacerda foi aluno de Souto Moura e com ele diz ter aprendido "sobretudo a atitude de não sermos pessoas que sabemos tudo - ou que pensamos saber tudo". Em caso de dúvida, "o melhor é sempre estudarmos mais para encontrar as melhores soluções".Todavia, vê-se a obra, ouve-se o arquitecto, e não parece estarmos na presença de alguém da denominada "escola do Porto". Será verdade? "Não, não é bem assim. A escola do Porto é uma escola do desenho, do rigor, da qual se fala muitas vezes, erradamente, como sendo uma escola padronizada, com uma arquitectura ligada à forma pura, ao cubo, ao paralelipípedo, em que as janelas são meros buracos na parede, onde há uma certa ideia de geometria". A explicação, afinal, é simples: "A minha identificação tem a ver com o sentido geométrico do rigor e com u