SIC-Notícias: entusiasmo e apreensão

Prioridade absoluta à informação, noticiários de meia em meia-hora com peças curtas, programas de carácter informativo de permeio, apostas em horários matinais e nocturnos, tecnologia digital avançada. Eis os primeiros contornos do SIC-Notícias, tal como Rangel os apresentou à redacção da SIC generalista. Que está apreensiva pelo acréscimo de trabalho e ausência de contrapartidas. O SIC-Notícias terá 60 pessoas, mas toda a gente em carnaxide é suposo trabalhar para lá.

O SIC-Notícias, o novo canal de notícias da SIC que substituirá o CNL na TV Cabo a partir de Setembro próximo, começa a ter os seus contornos definidos. Numa reunião com a redacção da SIC na quarta-feira à noite, Emídio Rangel explicou que o novo canal vai funcionar de uma forma integrada com a redacção da SIC generalista, anunciando que os serviços de agenda, os serviços técnicos, a produção e os editores serão comuns a ambos os canais. A notícia colheu de surpresa muita gente, incluindo alguns editores, que manifestaram preocupação pelas dificuldades de articulação que prevêem venham a existir entre os dois canais, assim como pela ausência de contrapartidas financeiras pelo trabalho acrescido que passarão a ter. O SIC-Notícias vai ter uma grelha com noticiários de meia em meia-hora, com as chamadas "hard news" tratadas em peças curtas, devendo preencher o espaço entre as notícias com programas de carácter informativo. Este aspecto não ficou ainda claro na exposição de Rangel à redacção, mas é provável que rubricas como "Toda a Verdade", Internacional SIC, "Casos de Polícia" e um magazine de economia sejam recuperadas no novo canal. Os períodos do dia em que a aposta será maior vão ser os horários entre as 7h00 e as 10h00, entre as 12h00 e as 14h00 e entre as 21h00 e as 24h00. Nestas horas, o canal prevê pôr no ar, além das notícias mais importantes, um conjunto de informações úteis e lançar debates, foruns onde se abrirá à participação do espectador, muito no estilo das rádios. Uma tentativa clara de debater as questões mais polémicas do dia e de marcar a agenda, sobretudo no período matinal. Do ponto de vista tecnológico, o SIC-Notícias funcionará com um sistema digital avançado que, à semelhança do que acontece na Tele Madrid, por exemplo, permite que todas as imagens que chegam do exterior vão directamente para o mesmo "server" central, a partir do qual equipas de jornalistas e operadores de montagem farão peças com grande facilidade e rapidez. Além do director, Nuno Santos, já conhecido, transitam a tempo inteiro para o canal os jornalistas Daniel Cruzeiro, Vítor Moura Pinto, Paula Santos, Pedro Sousa Pereira, João Almeida, Alexandra Abreu Loureiro, Miriam Alves, Filipa Guimarães, Rui Pedro Reis e Nuno Graça Dias. Com aqueles que entretanto foram contratados no exterior e com os que virão do próprio CNL (ver texto ao lado) a equipa total será formada por cerca de 60 pessoas. A reunião de quarta-feira à noite foi, porém, dominada pelas preocupações exprimidas pelos jornalistas quanto à articulação entre as duas redacções e sobretudo à necessidade de terem de trabalhar para ambos os canais sem receber qualquer remuneração acessória por isso. Rangel deixou claro que, em teoria, todos os jornalistas da SIC deverão trabalhar também para o novo canal, mas nada adiantou sobre contrapartidas. Definiu o SIC-Notícias como um canal de difícil rentabilização, - o investimento ultrapassa os 800 mil contos - com previsões de receitas publicitárias muito baixas, mas como uma aposta estratégica da SIC para estar presente no cabo e nos canais temáticos. Neste contexto, apelou ao "amor à camisola" e à necessidade de "arregaçar as mangas", provando primeiro capacidade para fazer um bom produto e só depois exigindo as contrapartidas. Falou mesmo da necessidade de "trabalhar para o progresso da SIC que nos dá trabalho e nos permite sustentar as nossas famílias". Este discurso de Rangel não colheu, porém, junto de boa parte da redacção, que prevê um acréscimo de trabalho, dificuldades de articulação e de definição de prioridades no dia-a-dia, que está apreensiva com o aproveitamento que o novo canal faça das suas reportagens e que levantou questões que se prendem com direitos de autor e responsabilidades judiciais. A preocupação parece ser especialmente patente no sector técnico. Perante a insistência na questão das contrapartidas, levantada por várias vozes, Rangel acabou por admitir que quem tiver uma "colaboração regular" com o SIC-Notícias "será compensado por isso, segundo critérios de justiça e bom senso". Por último, Rangel oficializou uma nomeação de certo modo já esperada: a de José Fragoso, actual editor do desporto, para o cargo de subdirector de Informação, que integra assim a equipa formada por Luís Marques e Alcides Vieira, também subdirectores. Sobre Fragoso deverá justamente recair a tarefa de articulação entre as duas redacções que a partir de 3 de Julho habitarão Carnaxide.