Furos 3, gás 0

Já lá vão três furos e três milhões de contos e de gás natural há apenas alguns arejos. À euforia que lançou Aljubarrota para a ribalta, sucedeu-se um rol de desilusões. A Mohave decidiu ontem prosseguir com os testes, pelo menos durante a próxima semana. Só depois decidirá entre o abandono do projecto, ou a prospecção num quarto furo.

Depois de terem sido gastos cerca de três milhões de contos na prospecção de gás natural na concessão de Aljubarrota, os resultados estão "a léguas" da euforia e das expectativas iniciais que apontavam para a existência de reservas suficientes para sustentar as necessidades do país durante vinte anos. "Não temos tido o sucesso que esperávamos. Posso dizer que se trata de um 'balde água fria'", disse ao PÚBLICO Carlos Bobone, representante em Portugal dos norte-americanos da Mohave Oil & Gas, responsáveis pela exploração. No entanto, garantiu este responsável, os trabalhos de pesquisa ainda vão continuar: "Temos a certeza que a reserva existe, mas ainda não conseguimos encontrar os pontos exactos", sublinhou. Depois de Aljubarrota-1, em Fanhais, concelho da Nazaré, Aljubarrota-2 em São Vicente de Aljubarrota, concelho de Alcobaça, os testes vão continuar, pelo menos durante a próxima semana, no terceiro furo, o Aljubarrota-3, em Comeira, no concelho de Porto de Mós. "No final da semana estaremos, muito provavelmente, em condições de dizer se desistimos ou se avançamos para um quarto furo", adiantou o responsável da Mohave. Ontem à tarde, as seis empresas envolvidas nesta concessão - a Mohave, a Desire Petroleum, a El Paso, um dos maiores distribuidores de gás do mundo, a sua participada argentina, uma outra empresa inglesa e a Galp, que há pouco tempo assumiu uma posição de 10 por cento no consórcio - reuniram-se para avaliar os resultados dos três furos feitos em Aljubarrota e decidiram continuar os trabalhos, pelo menos até ao final da próxima semana. "Neste momento, estamos a trabalhar a 2400 metros de profundidade no furo 3 e decidimos perfurar mais 150 metros", disse Carlos Bobone. Só depois dos testes, e em função dos resultados, a Mohave estará em condições de dizer se abandona ou não a concessão. Esta decisão caberá, obviamente, aos sócios, já que, em média, cada furo implica um investimento de aproximadamente um milhão de contos.Até agora, os testes têm sido contraditórios. Por exemplo, no furo 2, um primeiro teste resultou na saída de uma quantidade considerável de gás, mas outro, efectuado minutos depois, "deu água e o gás não teve força para subir".A continuação dos trabalhos "por mais três ou quatro dias" foi reafirmada ao PÚBLICO por Rui Vieira, o técnico responsável pelos trabalhos de prospecção de gás natural. Na opinião deste engenheiro, será possível chegar a uma conclusão no final da próxima semana: "Apesar de os resultados não apontarem, por enquanto, para uma comercialização rentável, cada sondagem encoraja para uma outra". Rui Vieira frisou que, em termos técnicos, "existe matéria para uma quarta sondagem". Isto porque, segundo defende, o "sucesso pode gerar uma onda de entusiasmo, mas o 'não sucesso' não causa necessariamente uma onda de frustração". No entanto, também Rui Vieira frisou que se trata de uma matéria reservada aos donos da obra.Embora trabalhe sobre o "modelo que aponta para a existência de reservas importantes" - "o gás existe, já o vimos, mas a pressão é baixa", disse Rui Vieira -, o técnico não tem, nem nunca teve condições para garantir que elas seriam suficientes para sustentar as necessidades de Portugal nas próximas duas décadas. Qualquer modelo não passa disso mesmo, enquanto não for testado e não se conseguirem resultados. "Ainda para mais, neste tipo de projectos, em que existe um grau de risco considerável", sublinhou. Rodeado de tubos e de máquinas sofisticadas, Rui Abreu está a postos para arrancar com os próximos testes e esperar que a "tocha" acenda assim que sair - se sair - gás natural. A Desire Petroleum, que tanto alarido tem feito à volta da prospecção de gás natural, é uma das empresas que mais tem perdido com as sucessivas desilusões sofridas ao longo do último mês na concessão de Aljubarrota. Isto porque, como se encontra cotada na Bolsa de Londres, as suas acções não têm parado de corrigir à medida que vão sendo conhecidos os maus resultados dos testes. Ontem, os títulos da Desire Petroleum caíram na City quase 12 por cento.