O vinho do Porto na margem certa

A partir deste fim-de-semana, as comemorações dos dois mil anos de Braga vão tornar-se mais, visíveis, depois de quatro meses com iniciativas destinadas a um público mais reduzido. Dois festivais de música e a inauguração de um monumento alusivo aos aquedutos romanos são os pontos fortes da programação de Junho.

Encontra-se patente ao público até ao próximo dia 17 de Junho, na Galeria de Exposições da Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, uma interessante Mostra documental sugestivamente intitulada "O vinho do Porto na margem certa" - título que, com a devida vénia, aqui reproduzimos e utilizamos -, a qual apresenta um variado conjunto de documentos relativos à actividade das empresas do sector do vinho do Porto, entre 1888 e 1989, com base no acervo existente no Arquivo Geral da respectiva Câmara Municipal.No primoroso catálogo que acompanha esta Mostra - ela própria, igualmente bem concebida -, a sua coordenadora, Alda Padrão Temudo, elucida-nos sobre os critérios que presidiram à selecção da documentação apresentada: "A escolha recaiu sobre os documentos que ilustravam a maior amostra possível do universo que interessa aqui observar: diversidade de empresas, espaços edificados, dinâmica de modernização, evolução das técnicas e formas de organização da cadeia produtiva, suas implicações na arquitectura, aproveitamento dos recursos naturais específicos de Vila Nova de Gaia, artes e profissões associadas, uso de publicidade (que carimba a paisagem urbana de forma significativa) e, não menos importante, evolução da formalização dos pedidos apresentados".De facto, após percorrer esta Exposição, o visitante fica com a perfeita noção da variada e complexa actividade desenvolvida pelas empresas do vinho do Porto ao longo de um século, através das intervenções por estas solicitadas junto da autarquia, o que de imediato nos remete para uma reflexão sobre a importância económica e social deste sector, e das vicissitudes que teve de enfrentar para acompanhar necessária a evolução - nomeadamente do ponto de vista tecnológico - que a sua actividade comercial exigia.A Mostra para a qual chamamos aqui a atenção do leitor remete-nos também para uma velha questão, relativa às razões da localização dos armazéns do vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, a qual, aliás, transparece igualmente no insinuante título com que a mesma é apresentada: "a margem certa". De facto, por que razão os armazéns do famoso néctar não se encontram na cidade do Porto ? Trata-se de uma questão já há muito respondida, mas que, provavelmente, valerá a pena aqui evocar de novo, tanto mais que não estamos certos de que hoje em dia seja perfeitamente conhecida.Com efeito, o principal motivo que conduziu à instalação dos armazéns do vinho do Porto em Vila Nova de Gaia prende-se com o facto da cidade do Porto constituir um senhorio episcopal, doado em 1120 a D. Hugo, Bispo do Porto, por D. Teresa, doação posteriormente confirmada e ampliada por D. Afonso Henriques, em 1138. Deste modo, os bispos do Porto detinham inúmeros privilégios - consignados no respectivo Foral, que veio a ser promulgado por D. Hugo em 1123 -, entre os quais o de cobrarem vários impostos, como o da "Portagem de Terra". Esta prerrogativa impunha que todas as mercadorias que entrassem e saíssem da cidade tivessem obrigatoriamente de pagar um tributo à já referida elite eclesiástica portuense.A fim de evitar que o Bispo e o Cabido da Cidade do Porto arrecadassem os impostos decorrentes do comércio que se fazia pela barra do Douro, D. Afonso III decidiu desviá-lo para fora do Porto, fundando em 1255 a povoação de Vila Nova - para a diferenciar da Vila Velha ou Gaia a Velha. Simultaneamente, concedeu-lhe carta de Foral e enriqueceu-a com inúmeros privilégios e isenções, assim como a seus habitantes, ao mesmo tempo que nomeava oficiais dependentes da sua administração, com o objectivo de serem estes a cobrar os impostos do comércio que se processava pela barra do Douro. Os impostos cobrados pelo Bispo e Cabido da Cidade só foram extintos em 11 de Junho de 1822, após a implantação do Liberalismo, por D. João VI, no âmbito do espírito da época que pretendia abolir tributos e imposições que remontavam ao período senhorial, e no seguimento das reclamações apresentadas pelos comerciantes da praça do Porto, que protestaram contra os "pesados vexames" que desde há muito os submergiam. Na realidade, de acordo com as disposições até então vigentes, era obrigatório o pagamento, a favor do Bispo e do Cabido, de um por cento do valor de todas as mercadorias que saíssem da cidade, mesmo que já tivessem sido oneradas com um imposto do mesmo tipo e valor aquando da sua entrada.A manutenção desta imposição tinha criado um ambiente de descontentamento, nomeadamente a partir do terceiro quartel do século XVII, quando se iniciou em grande escala o comércio de exportação do vinho do Porto para Inglaterra. Compreende-se que no caso de um vinho, que apenas entraria temporariamente na cidade - ainda que na maior parte dos casos aí viesse a permanecer por longas temporadas -, dado que se destinava à exportação, os comerciantes não vissem com bons olhos esta dupla tributação. Deste modo, ao lado dos primeiros armazéns de vinhos instalados em Vila Nova de Gaia, surgem a partir de então os novos armazéns para conservação e envelhecimento dos vinhos generosos do Douro, construídos pelas empresas de vinho do Porto.Há, contudo, uma outra razão que explica a manutenção dos armazéns do vinho do Porto na margem esquerda do rio Douro, e que lhe conferem a assisada designação de "margem certa". Esta, prende-se com a configuração topográfica da encosta norte-nordeste onde se vieram a implantar os referidos armazéns, abrigada dos fortes ventos que sopram do mar, dispondo de inúmeras e abundantes minas de água, desfrutando de um clima ameno, sem grandes oscilações de temperatura e de humidade, e por conseguinte, particularmente favorável à conservação e envelhecimento dos vinhos neles armazenados.Não deixa de ser bastante elucidativo constatar que os vinhos envelhecidos no Douro, nomeadamente nas quintas daquela região, em armazéns expostos às elevadas temperaturas que ali se fazem sentir durante o verão, são classificados pelos enólogos com um epíteto suplementar, em virtude de possuírem um sabor diferente, conhecido por "queimado do Douro". Pelo contrário, nos armazéns de Vila Nova de Gaia, situados na "margem certa", o envelhecimento confere-lhes um travo mais macio, que é simultaneamente uma garantia da qualidade e do sucesso que ao longo dos tempos têm conquistado além-fronteiras.