Ano de vacas magras

Depois de um 1998 de euforia, a música portuguesa, pelo menos em termos de vendas, teve em 1999 um ano de vacas magras. Rui Miguel Abreu (A&R da Norte Sul), Eduardo Simões (director-geral da Associação Fonográfica Portuguesa) e João Pedro Jadauji (administrador da Vidisco) falaram com o PÚBLICO sobre o estado actual da indústria musical portuguesa e sobre as suas perspectivas para o futuro.

RUI MIGUEL ABREU - Acho que foi um ano bom, podia ter sido melhor. Os números indicam uma queda no mercado, mas, se virmos por outro lado, por uma imposição de uma forma portuguesa de estar na música, de a fazer e a apresentar, foi um ano positivo, tal como aliás o foi toda a década de 90. Foi uma década de solidificação, temos vindo a descobrir uma linguagem especificamente portuguesa. Alheando-nos da tal quebra de mercado, apareceram várias novas propostas, provou-se que mesmo de costas voltadas para uma série de "media", é possível criar sucessos em Portugal. JOÃO PEDRO JADAUJI - Para a Vidisco, foi um ano excelente, que ultrapassou as expectativas. Conseguimos um grande passo, motivar as camadas jovens direccionadas sobretudo para música americana e inglesa para a música portuguesa.EDUARDO SIMÕES - Gostava de ser tão optimista, mas não consigo. Ambos têm razão no que disseram, mas numa visão global de mercado é preciso ir um pouco mais atrás. A década de 90 foi positiva para esta indústria, criou-se um sentir português na música. É pena que em 1999 tenha havido um acentuado crescimento negativo na música portuguesa. Não há números definitivos, mas no primeiro semestre de 99 há um decréscimo de 28 por cento nas vendas de música portuguesa - mas também é preciso ver que há aqui um fenómeno de calendarização, o grande êxito do ano [Anjos, que venderam já 120 mil discos] foi no segundo semestre, e ainda não temos números para ele. Há um conjunto de factores que perturbam tudo isto, sobretudo a proliferação da pirataria em CD-R [CD virgens para gravação]f-b e na Internet.RMA - Habituámo-nos a encarar o mercado como um ciclista que se isola e um pelotão que vinha a reboque. E este ano houve só três ou quatro fugas. Houve em outros anos Excesso, Abrunhosa, Silence 4 ou Paulo Gonzo que de repente se isolavam e vendiam a sério, este ano não.ES - Foi uma chegada ao "sprint", com velocidade mais lenta.RMA - Há ainda outra questão: houve um crescimento na oferta, na qualidade. Já não há uma distância abismal entre o que se faz lá fora e o que se faz aqui. Não há é um acompanhamento dos "media" para este crescimento. Em 99, fizeram-se em Portugal muitos e fantásticos videoclips, mas não há programas específicos na televisão para os divulgar.JPJ - O crescimento no início desta década teve a ver com programas [de TV] onde os artistas aparecem. Mas continua a haver uma lacuna na passagem de clips. O eterno Top+ não preenche tudo. Um clip custa uma pipa de dinheiro e não se pode rentabilizar só com uma ou duas passagens. RMA - Se fôssemos discutir isto com estações de televisão, era possível eles argumentarem que há mais música na TV que nunca. Mas são programas não formatados. Ver um clip dos Silence 4 e a seguir a um da Micaela não vai agradar ao público nem de um nem de outro.ES - As estações de rádio com "playlists" impõem formatos rígidos. Interrogo-me se não há alternativa a esse modelos. Imagino que seja mais difícil fidelizar ouvintes a curto prazo com novos artistas que com consagrados, mas a longo prazo é isso que desenvolve uma cultura musical. ES - Ou então é só com anglo-saxónicos ou brasileiros.JMA - A rádio passa pouquíssima música portuguesa. Um dos indicadores de uma indústria saudável é a percentagem de produto local. A guerra das audiências é tal que os programadores preferem dar às pessoas o que elas já conhecem, e assustam-se com o produto nacional. Não quero falar em quotas, acho que não é por aí que as coisas funcionam, mas as rádios andam bastante desatentas.JPJ - Há algumas rádios que têm dado alguma atenção especial à música portuguesa, mas não é suficiente. As rádios locais, na sua maioria, são mais militantes da música portuguesa.JPJ - Se se limitassem a isso, era bom. Fomos confrontados com CD-R em que mal se distinguia a cópia do original. Há grandes empresas por trás deste mercado. ES - A grande novidade é que nos tempos áureos da cassete pirata o fabrico de material ilegal estava confinado a meia dúzia de industriais. Com alguma investigação, sabia-se quem era, apanhava-se os criminosos e apreendia-se uma grande quantidade de cassetes ilegais. Agora, dando uma volta pelas feiras do país, encontra-se piratas em todas elas. As quantidades são é mais pequenas. Trata-se de indivíduos jovens sem grande organização por trás, se bem que haja outros em maior escala.JPJ - Essencialmente, tudo o que estiver nos tops.ES - Já não há divisão temática. O pirata que grava heavy metal também grava música popular portuguesa.RMA - Vamos fazer isso com um disco nosso que vai sair muito em breve, o "Homem Invisível". É um projecto pensado como uma coisa integrada, com programas de computador e um "site" na Internet, onde vai haver músicas exclusivas. Mas os portugueses têm aversão a coisas grátis, basta ver as publicações distribuição gratuita, não funcionaram por causa disso. E, em Portugal, estarão na casa das centenas os leitores mp3 vendidos ou nem isso. Os CD-R são um problema bem mais grave. JPJ - O nosso mercado de singles quase não existe, é quase só direccionado para a rádio. Podíamos substituir esse mercado por mp3, mas as rádios não são receptivas. Já é difícil convencê-los com suportes físicos, quanto mais com mp3. ES -O fundamental é que quem faça isso tenha segurança. Não posso é chegar a um portal da Net onde possa ir buscar de graça repertório não autorizado. E não se pode banalizar um produto que é para ser vendido tornando-o grátis, há uma diferença entre divulgar e vulgarizar.JPJ - A Vidisco tem uma série de propostas para formar o tal "ciclista", mas é complicado fazer previsões mesmo a curto prazo. Mas acho que nos está a fazer falta uma cantora de sucesso como foi a Dulce Pontes, cujo último disco - embora ainda vá a tempo disso - não foi um grande sucesso. Um regresso ao culto do cantor enquanto fenómeno.ES - Há abertura de espírito dos consumidores para qualquer género musical. O que sabemos é que eles querem música feita cá e cantada por portugueses.RMA - Acho que não vai haver uma única "escola", os gostos continuarão pulverizados. Cada vez há mais talento em Portugal. Acredito que está para breve, se calhar não pelos canais que seria de esperar, uma exportação a sério de produtos portugueses. Por exemplo, na música de dança, que vive de um certo anonimato, onde o factor língua não é muito importante e até há o culto de descobrir sonoridades em países inesperados.