Um século a pedalar

O ciclismo em Portugal já tem um século. Para comemorar a data, a FPC editou um livro e vai inaugurar um museu nas Caldas da Rainha. Para que as gerações futuras saibam quem brilhou a pedalar nas estradas portuguesas. Como o inesquecível Joaquim Agostinho.

A Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), a mais antiga federação desportiva nacional, comemora hoje o seu primeiro centenário com uma sessão oficial nas Caldas da Rainha, onde será apresentado o espaço do futuro Museu do Ciclismo Português e um livro do jornalista Rodrigo Pinto. A festa termina à noite, com uma gala no Casino de Estoril.Este primeiro centenário federativo é também ocasião para o encontro de velhos rivais do ciclismo, alguns já retirados há mais de meio século, como é o caso de Aristides Martins, hoje com 82 anos. Rodrigo Pinto, ex-jornalista de "O Século", "Diário de Notícias", "Record" e "O Jogo" e ex-presidente do Clube Nacional da Imprensa Desportiva (CNID), vai apresentar na ocasião o livro que pretende retratar a modalidade nos últimos 100 anos, desde a origem da bicicleta em Portugal e no mundo, passando pela fundação da União Velocipédica Portuguesa, pelas grandes provas (Lisboa-Porto e Volta a Portugal) e pelos mais importantes nomes da história velocipédica. A obra é editada pela Federação Portuguesa de Ciclismo e também contou com a colaboração do já falecido jornalista Neves de Sousa, que dedicou ao ciclismo boa parte da sua carreira. Rodrigo Pinto considera que, em Portugal, as pessoas e muitos jornalistas ainda "ligam pouco ao passado", mas que "é importante conhecer a história, para que se possa ajuizar sobre aquilo que se escreve". Para a elaboração deste trabalho, o jornalista recorreu aos arquivos da federação e ao apoio de algumas pessoas interessadas na modalidade, mas encontrou muitas lacunas na recolha de informação, sobretudo devido à destruição de documentação num incêndio ocorrido nas antigas instalações da FPC.Na sua parte final, o autor tece algumas considerações sobre o envolvimento de marcas comerciais nas equipas de ciclismo, por oposição à mais tradicional ligação a clubes desportivos, defendendo que "a modalidade já esteve mais em crise", mas que é preciso "reforçar o papel dos clubes para melhorar a competitividade". E dá o exemplo do regresso do Benfica à competição, o "que aumentou a popularidade" da modalidade. Por outro lado, Rodrigo Pinto explica algum desinteresse do público pelo ciclismo devido ao facto de não existirem novos ídolos: "Já não há Agostinhos, [Marco] Chagas ou Barbosas."Igualmente preocupado com o futuro da modalidade encontra-se Vasco Calixto, jornalista do "Correio da Manhã" e neto de um dos três fundadores da União Velocipédica Nacional. "Agora, as Voltas [a Portugal] são ganhas por estrangeiros" e "pouco se tem feito para formar ciclistas portugueses", comenta Vasco Calixto, de 74 anos. E sugere que a federação faça uma homenagem aos fundadores da União Velocipédica: Anselmo de Sousa, conde de Caria e Carlos Calixto.Em Portugal, o inglês Herbert Dagge é tido como "pai do ciclismo". Há mais de 100 anos, por volta de 1890, veio para o nosso país e iniciou a prática da modalidade. José Bento Pessoa foi o primeiro português a destacar-se, tendo mesmo sido considerado o "melhor ciclista do mundo" em 1897, por ser imbatível em diversas especialidades, apesar de correr pela federação espanhola, por falta de uma congénere em Portugal. A 14 de Dezembro de 1899, com o crescente interesse pelas duas rodas, nasceu a União Velocipédica Portuguesa, presidindo à direcção o conde de Caria. A primeira grande prova nacional foi o Porto-Lisboa, realizada em 1911 e que ainda hoje se efectua. Em 1927 foi organizada pelo "Diário de Notícias" e "Os Sports" [jornal desportivo entretanto desaparecido] a primeira edição da Volta a Portugal em bicicleta, tendo vencido António Augusto Carvalho.Em termos históricos, os especialistas na modalidade destacam o período áureo dos anos 30, quando se assistiu a grandes despiques entre José Maria Nicolau, do Benfica, e Alfredo Trindade, do Sporting, até hoje considerados dois atletas de eleição.Comparáveis a estes duelos só os de Ribeiro da Silva com Alves Barbosa, já na década de 50. A marcar a história do ciclismo mais recente está ainda na memória de todos a figura carismática de Joaquim Agostinho, não só pelos seus triunfos em Portugal, como a nível internacional, com destaque para as excelentes classificações obtidas no Tour de França. Agostinho faleceu tragicamente, na sequência de uma queda, no final de uma etapa da Volta ao Algarve. Nos anos 90 operaram-se grandes mudanças em todos os clubes, com o aumento do profissionalismo no ciclismo, que fez crescer a exigência das equipas e os respectivos orçamentos. É também a década em que os estrangeiros começam a pontificar nas equipas nacionais.Paralelamente à competição, há em Portugal cada vez mais actividades de recreio e lazer ligadas às bicicletas, destacando-se a clássica internacional Caldas-Badajoz, organizada nos últimos 18 anos pelo Sporting Clube das Caldas. Mas os utilizadores e adeptos das bicicletas continuam a reclamar mais infra-estruturas, pois em Portugal existem apenas 12 vias cicláveis (ou seja, com todas as condições de segurança para os ciclistas), totalizando pouco mais de 100 quilómetros.