Da Guarda para Hiroshima

"Já os franceses diziam que as pedras que os portugueses atiravam ás cabras eram as mesmas que lhes davam riqueza...". É voz corrente na aldeia de Quarta Feira que foi dali arrancada à terra o urânio para a primeira bomba atómica. Trata-se de uma aldeia pertencente à freguesia de Sortelha, uma das mais bonitas aldeias históricas de Portugal, onde os moradores convivem diariamente com as memórias de um passado repleto de histórias ligadas ao urânio e às águas termais radiactivas e os reflexos de um presente pejado de crateras encerradas e de ruínas imponentes. Do fulgor da actividade mineira do início do século estão agora explícitos os sinais de abandono. O PÚBLICO foi encontrar um povo que se mostra orgulhoso da sua história e aponta na hospitalidade que oferecem no presente os alicerces para o desenvolvimento esperado no futuro.

No seio de uma das aldeias históricas mais bem conservadas de Portugal, na freguesia de Sortelha, é fácil encontrar quem, à boca cheia, se orgulhe do passado que pôs Quarta Feira no mapa do mundo. Ou, se não no mapa do mundo, pelo menos no mapa dos franceses, primeiro, e dos ingleses e dos alemães, depois. É que os velhos mineiros que exploraram as três minas ali existentes deixaram o testemunho de que foi daquelas terras que saíram os minérios necessários aos estudos que desenvolveram a descoberta da radioactividade. Os efeitos do rádio eram tidos como benéficos até então. Aliás, à entrada da aldeia existe mesmo um autêntico monumento àquele minério: um amontoado de granito que explode por entre a vegetação que reveste a encosta da Serra da Pena, que foi, em tempos, um imponente hotel termal: as termas de "Águas Radium". Mas a descoberta dos malefícios trazidos pela radioactividade e pela energia atómica, tristemente celebrados em Hiroshima e Nagasaki, durante a segunda Guerra Mundial, cedo fez votar tudo ao abandono. "Não se sabe se por vontade própria dos utentes ou por imposição dos donos, que instigaram a que deixasse de ser frequentada", explicou Marcos Osório, arqueólogo ao serviço da Câmara do Sabugal.E tudo isto se passou numa terra que é nada mais nada menos que uma das aldeias mais antigas de Portugal, Sortelha, no concelho do Sabugal, situada no alto de um elevado monte, a mais de 700 metros de altitude, quase tantos quanto os habitantes que a povoam- a rondar os 800. Só no lugar de Quarta Feira chegou a haver três minas (Bica, Vale d'Arca e Carrasca), tal a riqueza das jazidas de minério existentes no subsolo. Mas depois da intensa actividade que chegou a ter, agora tudo mostra sinais de abandono. Com excepção para a velha-nova aldeia de Sortelha, que parece ressuscitar de um velho quadro, que readquiriu vida anos depois, retomando a faina exactamente no ponto em que parou no tempo, há séculos atrás. Tirando alguns sinais de modernidade, em Sortelha até as nuvens que pairam no céu ou a chuva que teimosamente molha os campos de centeio parece fazer parte de um cenário roubado aos manuais de história. Por isso os seus moradores andam orgulhosos: por entre as suas solitárias actividades da pastorícia e da agricultura, encontram alento naqueles que têm paciência para ouvir as suas histórias.Conta-se que no inicio deste século um conde espanhol, de nome Francisco Henriques, veio a Portugal acompanhado de uma filha com uma grave doença de pele. Ouviu falar das miraculosas águas com rádio, na encosta da Serra da Pena, à face da estrada que dá acesso hoje à freguesia de Sortelha, e ao lugar de Quarta Feira. Como a filha se curou, mandou ali construir um castelo que rapidamente se transformou em Hotel Termal. "O meu avô morreu com noventa anos, há mais de vinte. Ele acarretou para a Serra da Pena muita pedra para construir aquele castelo e dizia que aquela água era muito boa, curava muitos males...". Manuel Gonçalves, presidente da Junta de Sortelha há 14 anos e taxista de profissão, contava assim os motivos que tornaram as Águas Radium muito famosas. Ele próprio não resistiu a experimentar. "Já bebi de lá água, é verdade... e o engraçado é que a situação imediata que eu tenho é de ficar com muita fome, mal acabo de beber". Mas nunca se preocupou em perceber porquê. "Aquelas termas funcionavam muito bem. O hotel tinha mais de 90 quartos, cada qual com a sua banheira... depois abandonaram aquilo, e roubaram tudo", conta o Ti Coelho, como é carinhosamente chamado na aldeia, um septuagenário que gosta de contar histórias, mas que detesta ver máquinas à sua frente "Eu estrago as máquinas todas", repele, quando lhe apontam uma objectiva. E continua o relato: "Depois veio um indivíduo do Casteleiro, que tomou conta daquilo, e deixou roubar tudo... Depois veio o Ramiro Lopes, dali da Panasqueira, que comprou aquilo e diz que quer fazer um hotel de 5 estrelas... bem bonito que aquilo há-de ficar", garante. A data certa em que o edifício foi abandonado é que ninguém sabe precisar. "Foi abandonado há tanto tempo que já andam há nove anos a recuperá-lo", ilustrou um homem que passava de bicicleta e que parou, bem no centro de Quarta Feira, para se juntar às conversas. Outros dizem que aquilo nunca vai ser recuperado, e que a ideia de construir um hotel de cinco estrelas é "dar um passo maior que as pernas".O mais convicto a defender a ideia é Fernando Cardoso, o homem que ficou responsável pela guarda do local, enquanto o patrão anda por esses países fora a fazer empreitadas - de momento está incontactável em Cabo Verde."Aquilo vai ficar muito bonito, uma coisa cinco estrelas", refere-se Cardoso ao projecto do patrão de construir ali um equipamento hoteleiro, dotado das mais variadas estruturas, sem esquecer a componente termal. "Mesmo agora aquilo recebe muitas visitas, e ao mais está fechado. Por alturas da Páscoa, durante as festas daqui da aldeia, foram lá mais de 200 mil pessoas, visitar e engarrafar água...", relata.O que se sabe ao certo é que a maior vitalidade das Águas Radium registaram-se nos anos 20. "Numas escavações que fiz em Sortelha encontrei uma garrafa de água intacta que dizia 'Águas Radium-Curia-Portugal'. Deve ser a única garrafa que perdura desse espólio. Curia era a povoação maior, e mais próxima; e se calhar a exportação das águas escoava por lá. O facto de estar inscrito a palavra Portugal indicia que houve exportação", explica o arqueólogo Marcos Osório. Mas foram-se os tempos em que o rádio era encarado como um mineral benéfico e que as águas "radioactivas" eram exportadas..."O rádio era, nessa altura, pior do que agora a droga. Antes da fama da Urgeiriça já as minas de Quarta feira eram conhecidas dos franceses". A Urgeiriça, no concelho de Nelas, é actualmente a sede da Empresa Nacional de Urânio, responsável pela exploração das minas ainda em actividade. Mas como dizem os sábios do povo, antes da Urgeiriça, a fama estava em Quarta Feira. Marcos Osório encontrou nas suas escavações diversos artefactos que indiciavam uma antiquíssima actividade mineira, nomeadamente lamparinas e um balde com que os mineiros acartavam o material para a superfície. Para além das minas de urânio e de rádio, há longas tradições na terra ligadas à exploração do cobre, do estanho e mesmo de ouro. Nas minas da Bica, por exemplo, foi encontrado um machado em pedra, sinal das antigas explorações de cobre e estanho, que dão origem ao bronze, que está agora patente num museu, nada mais nada menos que em Paris... sempre os franceses!Mas vamos aos factos. Em 1910 uma companhia francesa, a Societé D'Uraine e Radium, sediou-se no Barracão, um lugar situado a cinco quilómetros da Guarda. Daí controlou as explorações das minas existentes em Quarta Feira, nomeadamente a mina de vale d' Arca e a mina da Bica. A mina de Vale d'Arca iniciou a sua actividade, pela mão dos franceses com a finalidade de recuperar o Rádio. Em 1956 a posse destas minas mudou de dono e de país. A Companhia Portuguesa de Radium (CPR), inglesa, iniciou a exploração para o aproveitamento dos minérios de urânio natural, terminando esta actividade em 1961. Durante este período foram exploradas mais de 32 mil toneladas daquele minério em exploração subterrânea de três pisos em cortes ascendentes, tendo atingindo a profundidade de 70 m. No final da sua actividade foram selados, com betão, todos os acessos à mina. As minas da Carrasca foram também exploradas pela CPR, a partir do ano de 1952. O aproveitamento de minérios de urânio natural era a principal finalidade, mas o esgotamento de reservas fez parar a actividade apenas oito anos depois. A mina da Bica, aquela que está mais próxima do coração de Quarta Feira, é a que apresentou maior longevidade. Surgiu também pela mão da Societe d' Uraine e Radium, para exploração do rádio. Os ingleses tomam-lhe a mão a partir de 1951, voltando a fechar dez anos depois, com o final da concessão daquela companhia. A mina esteve fechada, inundada e selada, até 1974, altura em que a Junta de Energia Nuclear iniciou a preparação para retoma dos trabalhos. Actualmente, com as reservas esgotadas ,e após uma década de processos de lixiviação (entre 1988 e 1998), as minas da Bica estão a receber uma fase de recuperação ambiental, a sofrer processos de neutralização e descontaminação.Já vão longe os tempos em que os franceses andavam pela aldeia a fazer buracos. Agora os movimentos de migração realizam-se no exacto sentido oposto. As gentes, homens e mulheres de Sortelha têm uma outra preocupação: mostrar aos visitantes que vida naquela aldeia tem muitas actividades de interesse Por exemplo, no lugar de Quarta Feira, podem ser poucos os habitantes mas a vida cultural mostra-se efervescente. Um grupo de cerca de duas dezenas de jovens criou o grupo de teatro "Os guardiões da Lua". Porque naquela terra se tem grandes horizontes. Porque o símbolo da aldeia, recriado pelo grupo, são as fases da lua. E porque a lua e todas as histórias merecem ser bem guardadas.