Destruição total em 45 segundos

Não se sabe ainda quantas pessoas morreram. Sabe-se apenas que são mais de 1200, número que irá decerto aumentar, uma vez se estimam em mais de dez mil os feridos. A Turquia está de luto devido a um dos mais devastadores terramotos deste século. Izmit e Istambul foram sacudidas por um abalo de magnitude 6,8 na escala de Richter - segundo os sismólogos do país - e que demorou 45 segundos.

O número de vítimas do terramoto que no início da madrugada de ontem abalou a região oeste da Turquia ultrapassou ao princípio da noite, na contagem oficial, os dois mil mortos e dez mil feridos. Há a certeza de que durante o dia de hoje esses números subirão, o seu valor final é uma incógnita.O epicentro do sinistro, que durou 45 segundos e atingiu 6,8 na escala de Richter, segundo sismólogos turcos, localizou-se próximo da cidade de Izmit, a 150 quilómetros de Istambul, provocando uma destruição quase total. Estima-se que mais de cem mil pessoas estejam desalojadas e que sejam necessários, para já, qualquer coisa como 1,33 milhões de contos para as primeiras ajudas.Ninguém poderá adiantar, nos próximos dias, o número exacto de vítimas mortais. O que se sabe é que este terramoto é um dos 15 mais violentos ocorridos neste século, não tanto pela intensidade, mas sobretudo devido à duração. Em Izmit, cidade industrial nas margens do mar de Mármara, quase não ficou de pé nenhuma das casas de construção pobre ali existentes. O mesmo cenário repete-se um pouco pelas quatro províncias afectadas: Bolu, Bursa, Eskisehir e Zonguldak.As dimensões da tragédia assumem maiores proporções por o abalo se ter feito sentir pelas 3h locais, quando a maioria da população se encontrava em casa. Ontem à tarde, à medida que se iam removendo os escombros, surgiam cadáveres e também elevado número de feridos, quase todos em estado considerado muito grave.Se Izmit e muitos outros povoados nas imediações ficaram praticamente reduzidos a destroços, Istambul, cidade com dez milhões de habitantes - a mais populosa do país - e localizada apenas a 150 quilómetros, também não foi poupada. As vítimas mortais ascendiam ali a mais de 200, sendo incalculável o número de pessoas ainda soterradas.Ainda na zona costeira do mar de Mármara, registou-se elevado número de mortes em Golcuk, onde está instalada uma importante base naval.Relatos das agências internacionais dão conta de que, nos instantes que se seguiram ao abalo principal e às mais de 200 réplicas (algumas de magnitude cinco na escala de Richter), se instalou o caos, com gente a correr e a gritar pelas ruas, onde, entretanto, continuavam a desabar edifícios. Vários fogos eclodiram pelas áreas afectadas e a destruição ou obstrução das estradas dificultou ainda mais os trabalhos das equipas de socorro. As comunicações telefónicas, por sua vez, quase deixaram de funcionar devido à sobrecarga das linhas, e o abastecimento de energia eléctrica foi suspenso em quase toda a área.O Governo turco começou, entretanto, a montar acampamentos para acolher os muitos milhares de desalojados. Um primeiro apelo, difundido pela televisão, alertava a população para a necessidade de doar sangue nos diversos hospitais. Mais tarde, os esforços concentraram-se na recolha de tendas de campanha, cobertores e água potável.A comunidade internacional reagiu em peso à catástrofe e, enquanto muitos países já afirmaram estar dispostos a doar avultadas quantias, outros propõem-se enviar para a região sinistrada alimentos, agasalhos, tendas e equipas de salvamento em que se incluem cães e pessoal médico. Em Sakarya, a 50 quilómetros de Izmit, foi montado um hospital de campanha e já foram instaladas mais de mil tendas e algumas cozinhas de campanha.Uma das primeiras reacções internacionais partiu do secretário de Estado da Energia dos Estados Unidos, Bill Richardson, que se encontrava em Istambul quando do sismo. O governante, que não sofreu qualquer ferimento, declarou à estação televisiva CNN que o seu país está pronto a satisfazer as principais necessidades reclamadas pelas autoridades turcas.Também a Grécia, país que ao longo dos séculos tem mantido relações conflituosas com a Turquia, surgiu de imediato a fornecer apoio. Algumas horas após o terramoto, partiu do aeroporto de Eleusis, com destino a Istambul, um avião militar C-130. No voo seguiu o director do serviço de protecção civil grego, Dimitris Katrivanos, bem como duas unidades especializadas na luta contra catástrofes, compostas por 25 homens e por cães treinados na busca de pessoas soterradas. Os gregos enviaram ainda 11 médicos e grande quantidade de medicamentos. Para ontem à noite estava prevista a descolagem de mais dois aviões de apoio. "Todos os ministérios de Atenas já declararam o estado de alerta e estão prontos a enviar toda a ajuda de que Ancara [a capital turca] necessitar", afirmou Katrivanos.Uma das mais céleres reacções à tragédia foi a do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que procurou saber qual o estado de saúde do seu líder, Abdullah Öcalan, preso numa cadeia na ilha de Imrali, no mar de Mármara, não muito distante do epicentro do sismo.Num comunicado emitido a partir da agência pró-curda DEM, instalada na Alemanha, os líderes do PKK exigiram ao Governo turco a divulgação do estado de saúde de Öcalan. Além disso, manifestaram solidariedade com todo o povo turco e curdo, ao mesmo tempo que apelaram aos seus simpatizantes residentes na Turquia para que prestem todo o auxílio às vítimas. Desconhecem-se as reacções de Ancara ao comunicado do PKK.O Vaticano, apesar de a Turquia ser composta por uma população de mais de 67 milhões de habitantes dos quais 99 por cento são muçulmanos, também reagiu à catástrofe. Em nome do Papa João Paulo II, o cardeal Angelo Sodano enviou ao arcebispo de Izmir, Giuseppe Germano Bernardini, um telegrama em que lamenta o elevado número de mortos e feridos.A preservação dos inúmeros monumentos bizantinos e otomanos de Istambul foi outra das preocupações imediatas. De acordo com as autoridades, não há, para já, notícia de danos graves.A Igreja Ortodoxa, na pessoa do patriarca Bartolomeu I, anunciou que todos os seus templos de Istambul terão as portas abertas para acolher os inúmeros desalojados.A Turquia é um país cuja economia se baseia na indústria têxtil e, sobretudo, no turismo, registando um afluxo anual de quase dez milhões de estrangeiros. As receitas provenientes da actividade turística rondam os dez mil milhões de dólares (cerca de 1,9 mil milhões de contos) por ano.

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