O "milagre" das rosas

Os promotores do Parque Aventura fartaram-se de tanta polémica. Reuniram a imprensa e apresentaram o projecto dos vários pavilhões temáticos que pretendem construir. Refutaram as acusações dos moradores e prometeram que não haverá ruído, abate de árvores ou expansão da área.

Um sobreiro que cheira a rosas está a transformar a localidade de São Marcos da Serra, no Algarve, num lugar de culto. Os fiéis, embalados pela crença - uma vez que não podem agarrar o perfume "divino" e levá-lo para casa -, transportam pedaços de cortiça e folhas secas, como se fossem símbolos milagrosos. O pároco da terra, Augusto Brito, afirma que a história nada tem de sobrenatural: "O perfume que sai da árvore é conhecido comercialmente". No mesmo sentido, o comandante do posto da GNR diz estar atento ao desenrolar da crença, que não pára de crescer desde há três meses. No passado fim-de-semana, os milhares de automobilistas que se dirigiam do Algarve para Lisboa foram surpreendidos com enormes filas de trânsito, em São Marcos da Serra. A razão de ser do engarrafamento não se devia apenas ao facto de a prometida auto-estrada ainda não estar concluída, mas às pessoas que paravam para "cheirar" o sobreiro dito milagroso, ou por simples curiosidade. O comandante da GNR, entretanto, também se pôs em campo para investigar este fenómeno que, no passado domingo, reuniu cerca de duas centenas de fieis. Ao princípio, segundo explica o presidente da Junta de Freguesia, José António Folgado, as pessoas levam apenas pedaços de cortiça, "mas agora já começaram a arrancar bocados do tronco da árvore". O proprietário do terreno, preocupado com a devastação das árvores, foi solicitar apoio à GNR sobre a possibilidade de protecção da propriedade, manifestando o desejo de mandar vedar a zona a arame farpado, mas falta-lhe autorização da Junta Autónoma de Estradas para o fazer. O padre Augusto Brito, descrente, afirma que as pessoas de São Marcos da Serra "até se riem da história", mas reconhece cada vez vai mais gente de fora em busca da árvore que dizem ser milagrosa. No seu entender, o cheiro "nada tem de sobrenatural, trata-se apenas de um perfume conhecido comercialmente". No mesmo sentido, o comandante da GNR diz estar atento ao fenómeno para "identificar" quem será o presumível autor do estranho caso que está a fazer despertar a fé em tanta gente. As peregrinações ao local começaram na mesma altura em que se iniciaram os trabalhos de alargamento do Itinerário Principal nº 1, no início de Abril. O pároco Augusto disse que, no princípio, pensou tratar-se de "uma brincadeira do 1º de Abril", mas não era. Maria Justina é uma das crentes nos poderes divinos da árvore. Anteontem, o PÚBLICO encontrou-a no local, toda vestida de preto carregado, chapéu de palha na cabeça, a meditar. Para esta mulher de fé, "o cheiro a rosas é Nossa Senhora". Por isso, desde há algum tempo que, regularmente, se desloca de Tavira até São Marcos da Serra, para fazer as suas orações. Sobre o sobreiro, disse não ter arrancado nenhum bocado, mas levou para casa um saco com folhas secas. Depois de algum tempo encerrado, disse, "libertou-se como que uma nuvem de um cheiro deslumbrante". Para ela, isso é prova dos poderes divinos daquela árvore. A sua filha, que a acompanhava na peregrinação, sofre de atrofia muscular. Depois de ter "corrido vários médicos, sem grande resultado", diz, encontrou naquele sobreiro "novas forças para a vida". Enquanto a mãe falava da sua fé, a filha, de 55 anos, rastejava-se pelo chão, caminhando de encontro ao sobreiro. Quando cheirou a árvore, subitamente, pareceu ficar liberta. O padre da freguesia diz que costuma passar lá por perto, na estrada, mas ainda não tomou contacto directo com o sobreiro. Sobre o perfume, afirma, "umas vezes cheira mais do que outras", mas rejeita qualquer significado religioso ao mesmo. A verdade, porém, é que a história do sobreiro que cheira a rosas está cada vez mais a espalhar-se por todo o Algarve e Alentejo. Na lógica de "quem conta um conto aumenta um ponto", o presidente da junta de freguesia diz que já se começou a dizer que, naquele lugar, em tempos recuados, matou-se uma rapariga e houve outros acontecimentos dramáticos. Outros, porém, atribuem-lhe um significado sagrado pelo facto de, no antigo registo de cadastros, o lugar estar registado como sendo Barranco da Igreja, uma designação pelo qual não é actualmente conhecido. Por enquanto, ainda não é relacionado com as aparições de Fátima, mas o número de crentes continua a aumentar. O presidente da junta de freguesia defende que se devia fazer uma "análise química do perfume para saber a verdade".