O mal que vem da carraça

Tal como a febre da carraça, a doença de Lyme é transmitida pela carraça ao homem. Mas as consequências da última são piores e ainda mal conhecidas. Nos Estados Unidos, é a doença infecciosa mais estudada depois da sida. Uma nova vacina surge agora como uma arma contra a doença de Lyme, apesar de ainda não ser aplicada a menores de 15 anos.

A primeira vacina contra a doença de Lyme, transmitida pelas carraças, começará a ser a aplicada ainda esta Primavera nos Estados Unidos, embora com algumas restrições. A aplicação da vacina no homem foi autorizada pela Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana responsável pelo controlo dos medicamentos, em Dezembro passado.Serão necessárias três doses para que, em princípio, se fique imunizado contra a picadela das carraças que transmitem esta doença, que justifica a publicação de cerca de 300 artigos por ano em revistas científicas e a maior fatia de financiamento para as doenças infecciosas a seguir à sida nos Estados Unidos. De fora da aplicação da vacina ficam os menores de 15 anos, e também não se sabe ao certo por quanto tempo dura o seu efeito.A doença de Lyme, ou borreliana de Lyme, como desde 1985 a comunidade científica decidiu chamar-lhe, é transmitida pelas carraças. Estes animais são portadores de uma bactéria - a "Borrelia burghdorferi", que, por sua vez, já foi transportada por outros hospedeiros antes de ser transmitida ao homem. A infecção é tratada com antibióticos. A doença foi identificada pela primeira vez em 1975, na cidade de Lyme, no Estado de Connecticut (EUA), quando naquele ano muitas crianças de uma escola da cidade começaram a queixar-se de dores articulares. Os médicos diagnosticaram artrite reumatóide na generalidade dos casos. Mas, sabendo que seria estranho que tantas crianças da escola apresentassem a mesma doença, as mães juntaram-se e foram até à Universidade de Yale, a instituição de investigação mais perto da cidade, para apresentarem o caso. Para os reumatologistas de Yale, pareceu claro que se tratava de uma epidemia, que nada tinha a ver com a artrite reumatóide. Restava saber ao certo de que doença se tratava.Apesar do episódio de Lyme ter proporcionado a primeira identificação da doença e a sua caracterização, os sintomas já tinham sido relatados no princípio deste século, nomeadamente na Europa, apesar de na altura não se saber do que se tratava. Os sintomas traduzem-se em febre, dores articulares, sobretudo nos joelhos e na boca, paralisia facial parcial nas crianças, inflamações cutâneas, ou ainda problemas cardíacos e lesões cerebrais, em casos muito avançados. Na Europa, os sintomas relacionam-se mais com manifestações cutâneas e neurológicas.A doença de Lyme não é transmitida de pessoa para pessoa. A transmissão resulta de um ciclo, do qual fazem parte não só as carraças, mas também roedores e outros animais portadores da bactéria responsável pela doença. Apesar de a doença de Lyme ser transmitida ao homem pela carraça, tal como a febre da carraça (ou febre escaro-nodular), as características das duas infecções não coincidem em nada - explica Jorge Atouguia, director da unidade de ensino e investigação da Clínica de Doenças Tropicais em Lisboa: "Os agentes são todos diferentes, embora façam todos parte da mesma família - a Rickettsiae". No caso da doença de Lyme, é a bactéria "Borrelia burghdorferi", mas nem todas as espécies de carraças a transportam. Por isso, nem todas são perigosas.Em Portugal, a doença é de declaração obrigatória desde este ano, explicou Isabel Franca, dermatologista interessada em fazer a caracterização dermatológica da doença de Lyme no país. "Mas em Portugal ainda não foi feita a caracterização da doença. O diagnóstico é muito complicado", afirmou a médica. Como a doença está por caracterizar em Portugal, tudo o que se sabe é que já foram identificadas manifestações cutâneas muito semelhantes às que acontecem na doença de Lyme. "Nem nos Estados Unidos se percebeu muito bem como lidar com a doença."As zonas do país mais susceptíveis ao aparecimento da doença de Lyme são as regiões de floresta e húmidas. Sintra, a Tapada de Mafra e o parque de Monsanto apresentam-se como as mais favoráveis à propagação da doença na área de Lisboa. Depois, com a intensificação da mancha florestal para norte, Portugal torna-se num potencial país para acolher a doença. Segundo a dermatologista, vários grupos de investigadores nacionais estão a trabalhar para que possa ser totalmente caracterizada e seja então possível a sua identificação exacta.Numa altura em que o calor começa a apertar, é necessário estar atento aos sintomas, especialmente depois de um passeio no campo. Ou quando os contactos com campo são frequentes, como acontece com os pastores e os caçadores.