Seis prémios para as artes do espectáculos

Pela primeira vez, o Ministério da Cultura, atribuiu seis prémios na área das artes performativas: teatro, dança e música. Os contemplados com os Prémio Almada 98, no valor de cinco mil contos cada, são a cenógrafa Cristina Reis, a coreógrafa Clara Andermatt e a Juventude Musical Portuguesa, enquanto os Prémio Revelação Ribeiro da Fonte, de mil contos, foram para o pianista Miguel Borges Coelho, a bailarina Leonor Keil e os actores Ivo Canelas e Micaela Cardoso. Para que serve um prémio na área das artes do espectáculo? Para distinguir a criação nacional, independentemente dos subsídios, diz o Instituto Português das Artes do Espectáculo, que até agora tinha com os artistas das artes performativas quase exclusivamente essa relação. Mas os prémios servem também para fazer um balanço (e criar acontecimentos mediáticos), permitindo voltar a falar de obras entretanto esquecidas. O PÚBLICO aproveita para fazer seis perfis dos premiados.

A música, o teatro e a dança têm novos prémios. Os distinguidos nesta primeira edição dos Prémios Almada e Revelação Ribeiro da Fonte, atribuídos pelo Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE), foram ontem anunciados. Os prémios, no valor total de 18.000 contos, referem-se ao ano passado e destinam-se a incentivar a criação nacional nestes três domínios, consagrando projectos individuais ou colectivos. Cinco mil contos é o montante do Prémio Almada, e 1000 o de Revelação Ribeiro da Fonte. A coreógrafa Clara Andermatt, a Juventude Musical Portuguesa e a cenógrafa Cristina Reis receberam o Prémio Almada, ao passo que o Revelação foi entregue ao jovem pianista Miguel Borges Coelho, à bailarina Leonor Keil e aos actores Micaela Cardoso e Ivo Canelas.Para Manuel Maria Carrilho, ministro da Cultura, os Prémios Almada e Revelação Ribeiro da Fonte permitem proceder, anualmente, "ao reconhecimento público de alguns dos melhores trabalhos no sector das artes do espectáculo e, ao mesmo tempo, estimular o aparecimento de novos valores". Colmatando a necessidade de premiar as artes do espectáculo, criada pelo aparecimento do próprio IPAE, os galardões serão entregues, numa cerimónia pública, em data a anunciar, mas provavelmente já em Março. "Almada porque se trata de um dos nomes grandes da modernidade portuguesa e Ribeiro da Fonte porque se procurou celebrar um dos gestores culturais que melhor soube identificar a emergência de novos valores", afirmou Manuel Maria Carrilho."Foi uma surpresa indescritível", declarou ao PÚBLICO Clara Andermatt, premiada pela criação de "Uma História da Dúvida", o seu mais recente trabalho, estreado no Centro Cultural de Belém em Agosto último, no âmbito do Festival Mergulho no Futuro, uma iniciativa da Expo-98. Um "reconhecimento que compensa toda uma equipa" e que chega, "simbolicamente", no dia em que a companhia apresenta pela primeira vez a coreografia na Cidade da Praia, em Cabo Verde, país onde a peça nasceu. Falando nesta "aventura coreográfica que exigiu e exige um elevado esforço monetário" da companhia que dirige, Clara Andermatt afirma: "Sem apoios de ambas as partes esta colaboração não teria sido possível, porque são 15 bailarinos em palco e uma grande digressão prevista", que inclui apresentações no Canadá e no Brasil. Aos 35 anos, a coreógrafa mantém uma estreita ligação a Cabo Verde, iniciada em 1994 com "Dançar Cabo Verde", um projecto que criou com Paulo Ribeiro para Lisboa Capital da Cultura, que viria a receber o Prémio ACARTE/Maria Madalena de Azeredo Perdigão. Segundo o júri nomeado para a área da dança, composto pelo programador cultural Paulo Cunha e Silva, pelo artista plástico Francisco Rocha, e pelos críticos Cristina Peres, Cláudia Galhós e António Laginha, "Uma História da Dúvida" é uma produção que se destaca "pelas qualidades de movimento desenvolvidas numa linguagem enérgica, pela eficácia da dinâmica cénica, pela originalidade do jogo musical e pela articulação dos registos interpretativos".A Juventude Musical Portuguesa, por seu lado, foi premiada pelo conjunto da sua "obra". O prémio chega no ano em que esta associação comemora o seu 50º aniversário ao serviço da formação e divulgação musicais. O júri, formado por António Ferreira dos Santos, director do Coro da Sé Catedral do Porto, pelos musicólogos Manuel Morais e Mário Vieira de Carvalho, por Miguel Sobral Cid, do Serviço de Música da Gulbenkian, e por Sidónio Pais, crítico de música, considerou que a Juventude Musical Portuguesa devia receber esta distinção por ser "um exemplo do importante papel que cabe ao associativismo no desenvolvimento cultural". Confessando a sua surpresa, Emanuel Frazão, presidente da associação, disse "O prémio destina-se essencialmente à continuação das actividades, que enfrentam sempre o problema de falta de verbas. Este montante vai permitir a realização mais rápida dos nossos projectos." Os projectos de que fala Emanuel Frazão estavam já previstos no âmbito das comemorações. Um livro organizado por João Borges de Azevedo e uma palestra e um concerto de homenagem a João de Freitas Branco, que foi o seu fundador e director durante 25 anos, estão já agendados.Aos 54 anos, a cenógrafa Cristina Reis recebe o prémio relativo ao ano em que o Teatro da Cornucópia, a que está ligada desde 1976, fez 25 anos. Apesar de a identificar como uma das pessoas que mais contribuíram para o trabalho de um grupo de teatro "a vários títulos exemplar", o júri, constituído por António Caldeira Pires, assessor para o teatro do Serviço de Belas Artes da Fundação Gulbenkian, e pelos investigadores e críticos João Carneiro, Ana Salgueiro Baptista, Carlos Alberto Machado e Paulo Eduardo Carvalho, distingue Cristina Reis "pela sua invulgar qualidade, que ultrapassa o âmbito do trabalho da companhia a que está ligada, apelando a uma menção e a uma reflexão particulares". O júri salientou ainda, a participação em dois trabalhos realizados em 1998: a cenografia e figurinos de "Quando Passarem Cinco Anos", de Federico García Lorca, e "Um Sonho", de Strindberg, que por si só "bastariam" para lhe atribuir o Prémio Almada.Depois de consagrar os consagrados, o IPAE volta-se para as jovens revelações, seleccionadas pelos mesmos júris em cada uma das áreas, através do Prémio Ribeiro da Fonte. Leonor Keil, a escolhida na área da dança, tem apenas 26 anos e integra actualmente a Companhia Paulo Ribeiro, a companhia de dança residente do Teatro Viriato. A notícia do prémio surpreedeu-a de tal forma que chegou a pensar que se tratava de "uma brincadeira de Carnaval muito fora de época". Fala de 1998 como "um ano de mudanças que trouxeram coisas boas como a vinda para Viseu, o saber que ia ser mãe e, agora, este prémio". Foi grávida que dançou o solo de uma das últimas coreografias de Paulo Ribeiro, colocando num "trabalho duro alguma suavidade e muita poesia". Destacada pela sua "singularidade e versatilidade interpretativas", Leonor Keil tem no seu percurso participações em trabalhos de coreógrafos tão diferentes como Madalena Vitorino, Marta Lapa, João Fiadeiro ou Francisco Camacho.Ivo Canelas e Micaela Cardoso são as apostas teatrais, divididas entre Lisboa e Porto. Embora as suas carreiras tenham já alguns anos, foi em 1998 que, segundo os membros do júri, "deixaram bem evidentes os resultados da combinação do talento com um esforço profissional de contínua pesquisa nas diversas linguagens que caracterizam o trabalho de um intérprete teatral".Saltando de grupo em grupo, Ivo Canelas participou no ano passado em três projectos de natureza distinta. "A Noite é Mãe do Dia", de Lars Norén, "A Queda do Egoísta Johann Fatzer", de Brecht/Heiner Muller, e "Uma Boca Cheia de Pássaros", de Caryl Churchil, são exemplo de uma versatilidade que o júri quis ver premiada. Micaela Cardoso, por seu turno, dedicou os três últimos anos ao Teatro Nacional S. João, alimentando uma ligação que se iniciou com a "Tragicomédia de Dom Duardos", do mestre Gil Vicente. "As Lições", a partir de "A Lição" de Eugène Ionesco, e "A Noite de Reis", de Shakespeare, foram os trabalhos em que participou no ano passado, ambos sob a direcção de Ricardo Pais.Foi "um prémio inesperado" aquele de que o jovem pianista Miguel Borges Coelho teve ontem notícia. O júri justificou-o pela "versatilidade" e "pela sua actuação de concertista, em que revelou um notável perfil de intérprete". O galardoado manifestou a sua "satisfação" pelo prémio, que considerou "um estímulo" para a sua carreira. Depois de algumas distinções enquanto jovem estudante, o Prémio Ribeiro da Fonte é o segundo galardão que Miguel Borges Coelho, nascido em 1971, recebe em Portugal. O primeiro tinha sido o segundo lugar no XIV Concurso Internacional de Música Cidade do Porto (a primeira vez que um português chegou à final), em 1997, ano em que o pianista tinha completado a sua formação escolar, depois de ter passado pelo Conservatório de Música daquela cidade e por escolas em Freiburgo (Alemanha) e Madrid. As suas próximas actuações ao vivo serão, a 3 de Março, no Centro Cultural de Belém, num programa com peças de Chopin, Debussy, Scriabine e Beethoven. A 12 e 13 do mesmo mês tocará o 4º Concerto para Piano de Beethoven com a Orquestra Nacional do Porto.Os prémios Almada e Revelação Ribeiro da Fonte foram criados no ano passado, por dois despachos do ministro da Cultura, assinados em Maio. Têm como objectivo, lê-se no seu regulamento, "destacar em cada ano artistas, criadores ou intérpretes, espectáculos ou quaisquer outros acontecimentos que integrem o domínio das artes do espectáculo ou ainda estruturas de produção, difusão ou formação que se tenham distinguido no panorama artístico nacional pelo seu carácter inovador". Segundo Ana Marin, directora do IPAE, a intenção é que "o prémio seja completamente aberto, podendo o júri decidir distinguir uma personalidade, um criador, um produtor ou uma instituição". A intenção de criar estes prémios na área das artes performativas é, também, "uma forma diferente do financiamento de distinguir aquilo que se vai realizando no âmbito da criação nacional". E, à excepção do atribuído à Juventude Musical Portuguesa, não pretendem ser "um prémio de carreira", acrescenta Ana Marin.Os prémios, anuais, são atribuídos "exclusivamente", diz o regulamento, a artistas, espectáculos ou acontecimentos apresentados em Portugal. O júri exerce as suas funções durante dois anos consecutivos, "não devendo ser reconduzido na sua globalidade". *com I.S/S.C.A