A lição de Clinton chegou ao fim

Depois de 18 meses de trauma e cinco semanas de julgamento, Bill Clinton foi absolvido e os republicanos não conseguiram sequer uma maioria simples. Também ninguém consegue dizer quem ganhou, se é que alguém ganhou, neste processo. Os optimistas dizem que foi uma boa lição de bê-a-bá de Governo Americano.

Em Dezembro, logo a seguir à aprovação dos artigos de "impeachment" na câmara, Bill Clinton foi ao Rose Garden para uma longa sessão de discursos e abraços com 200 democratas. Ontem, duas horas depois de ter sido absolvido no Senado, o Presidente apareceu no mesmo jardim mas sozinho, triste e contrito, falou durante um minuto e desapareceu.Qual é o Clinton verdadeiro? Qual deles merece um Óscar? "Agora que o Senado executou a sua obrigação constitucional e trouxe este processo a um fim, quero dizer outra vez ao povo americano que lamento profundamente que o que fiz e o que disse tenha conduzido a estes eventos e a um grande peso para o Congresso e o povo americano."Sente-se "humilde e muito agradecido pelo apoio e orações" que recebeu de "milhões de americanos", e agora pede "a todos os americanos, aqui em Washington e em todo a nossa terra, que se redediquem a servir a nossa nação e construir o nosso futuro juntos". "Este pode ser, e este deve ser, um momento de reconciliação e renovação da América."O Presidente olhou para o chão, virou as costas e começou a subir as escadas de regresso à Sala Oval. Terá sido aconselhado a evitar um "show" em grupo porque o de Dezembro chocou muitos americanos e em particular muitos republicanos? O certo é que respondeu apenas a uma pergunta - se estava pronto a perdoar os acusadores. "Qualquer pessoa que pede perdão tem que estar pronta a perdoar", disse.Mas as perguntas que agitam a América, hoje, são outras. Se o Presidente vai conseguir governar e se vai conseguir produzir alguma legislação durante os próximos dois anos tendo o Partido Republicano a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado (e um Congresso que votou para o destituir e afastar do cargo).Com o Senado, ficou provado ontem, poderá não ser tão complicado. O Artigo I, que acusava o Presidente de perjúrio, foi chumbado de manhã com 45 votos a favor e 55 votos contra, dez dos quais republicanos. O Artigo II, de obstrução à justiça, foi chumbado por 50-50.Era necessária uma maioria de dois terços, ou seja 67 votos, e nunca ninguém acreditou que essa maioria existisse. Mas há uma semana, e menos ainda há um mês, nenhum republicano diria que - como aconteceu ontem - o partido não conseguiria sequer uma maioria simples de 51 votos.O Senado é conhecido como o "prato que arrefece as leis" vindas da câmara, olhada pelos senadores, com razoável arrogância, como um corpo radical e pouco circunspecto."Senadores, o que dizem? É o acusado William Jefferson Clinton culpado ou inocente?", leu William Rehnquist, o juíz chefe do Supremo Tribunal que presidiu ao julgamento de cinco semanas. Os nomes foram lidos e, um a um, os senadores levantaram-se e anunciaram o veredicto.Traumatizado por um ano de escândalo, sexo, mentiras e vídeos, ninguém ainda consegue dizer com clareza quem sai vencedor. "Quem ganha é a Constituição", disse o senador democrata Patrick Leahy no fim da votação, evitando atacar os republicanos.Há quem diga que o julgamento vai beneficiar os democratas nas presidenciais do ano 2000 porque os republicanos serão "o partido do impeachment" durante os próximos anos.Mas a direita religiosa por exemplo (ver texto na página 4), faz uma análise oposta. "Os democratas estão muito mais vulneráveis. Daqui a seis meses estes democratas que defenderam o Presidente sabendo o que aconteceu na Sala Oval e que ele nos mentiu durante quase um ano vão começar a sentir as consequências", disse ao PÚBLICO Gary Bauer, presidente do Family Research Council e candidato à Casa Branca. "A última página desta controvérsia ainda não foi escrita."Clinton é um óbvio vencedor - sobreviveu e reconfirmou o seu título de "comeback kid" - mas esta será uma vitória a curto prazo.Vai ficar na história como o segundo Presidente de sempre a ter sido julgado no Senado. Mas além disso, a médio prazo, será um "lame duck" (como os americanos chamam aos políticos em fim de mandatos) particularmente "coxo". Popular mas que não tem o "respeito" de mais de 70 por cento dos americanos."Vamos trabalhar com quem for Presidente. O cargo da presidência é mais importante do que qualquer homem que o ocupa", disse o republicano Orrin Hatch após a absolvição. "Não estou decepcionado com nada. Cada senador votou como achou que tinha que votar. Muito poucos votaram de um modo estritamente partidário, mas é curioso os democratas terem acusado o Presidente das coisas que o acusaram e depois terem votado como votaram".As "coisas" a que o velho senador se referia são admissões como a do "historiador" do Senado, o democrata Robert Byrd, de que ia ser "muito difícil dizer inocente", ou a declaração de outro democrata que disse que "as acções do Presidente foram imorais, vergonhosas e repreensíveis - William Jefferson Clinton desonrou-se a si próprio e ao mais elevado cargo da nossa democracia americana". Diferentes democratas usaram palavras como "imoral", "deplorável", "vergonhoso", "indefensável" e "arrogante".Nenhum disse que Clinton cometera crimes, mas a linguagem usada na moção de censura da democrata Dianne Feinstein (cuja discussão foi chumbada pelos republicanos) acusava Clinton de ter prestado depoimentos falsos e enganadores e de ter "impedido a descoberta de provas num procedimento judicial".Além de "pato ferido", Clinton deve favores a toda a América, aos senadores, aos que lhe dão popularidade nas sondagens, aos democratas da câmara que votaram contra os artigos de "impeachment", aos cinco republicanos da câmara que alinharam com os democratas.Segundo o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart disse ontem, o Presidente, que admite ter causado "danos à presidência", está sobretudo interessando em "trabalhar para reconstruir" o que foi afectado.De manhã, enquanto os senadores debatiam à porta fechada, Clinton - informou o porta-voz - passou algum tempo com a sogra, fez o seu exercício diário, encontrou-se com a Primeira Dama, falou com funcionários, voltou a pensar no que ia dizer a seguir ao voto, e John Podesta, o seu chefe de gabinete, telefonou-lhe a informá-lo dos votos. "O Presidente escolheu não assistir à votação", disse Lockhart. Sente-se vingado? "Não vou usar palavras que significam coisas diferentes para diferentes pessoas."Maçados com o tema ou esgotadas as perguntas, os correspondentes da Casa Branca colocaram questões surreais a Lockhart. "Alguma vez o Presidente jogou golfe com O.J. Simpson?", "O Presidente fez exercícios no ginásio ou na residência?", "Porque é que o 'staff' saiu pela porta Norte quando normalmente sai pela porta Sul?", "Não mencionaste o almoço? O Presidente já almoçou?". À última, Lockhart nem respondeu: "Quais são os planos do Presidente e Hillary para o Dia dos Namorados?"