Sem-abrigo guiam turistas pelo Porto que só eles conhecem

Têm ideias. E vontade. Não têm é dinheiro. Mesmo assim, oito jovens desempregados, do Porto, continuam a tentar dar corpo ao projecto WelcomeHOME, uma cooperativa vocacionada para a integração de sem-abrigo. O primeiro passo está dado e, a partir deste sábado, haverá dois ex-sem-abrigo a guiar turistas por um Porto que é só deles.

Café Piolho, no centro do Porto, pouso de artistas com propensão para a dissidência e de estudantes com queda para os copos. Jorge Manuel, blusão de ganga e barba com alguns dias, recua algumas décadas para ajudar a caracterizar o espaço. “Nos anos 80 era o café em que a malta da droga se reunia. Consumia-se lá fora e arranjavam-se aqui cenas de pancada, daquelas de levantar as mesas pelo ar”, recua.

Essas eram noites dos tempos em que “entre consumos e noitadas, se estourava duzentos ou trezentos contos por noite”, num roteiro que também incluía, por exemplo, a Torre dos Clérigos. “A gente subia para o cimo da torre e juntava-se ali para consumir com a melhor vista da cidade”, continua Jorge Manuel. Consumiu, dormiu na rua, passou fome, roubou roupa de estendais, arrumou carros, contraiu uma cirrose hepática, traficou. Esteve preso 11 anos. “Ia buscar LSD à Holanda. Colava-o na parte interior do cinto e seguia, o controlo no aeroporto era pouco”.

Agora, 58 anos de vida impressos no BI, há 13 anos sem consumir droga e há quatro sem tocar no álcool, Jorge Manuel, reinventou-se como “condutor local” do Porto. Parece personagem decalcada dos primeiros dias cantados por Sérgio Godinho. Mas não, é de carne e osso. E, a partir deste sábado, ao serviço de todos os que estejam dispostos a desembolsar uns euros por uma nova perspectiva do Porto. Não confundir o seu trabalho com o de um guia turístico. “Esses têm formação superior”, distingue Alfredo Figueiredo da Costa, um dos oito impulsionadores da WelcomeHOME, a cooperativa de responsabilidade social que quer pôr esta “Rota de Mudança” a funcionar. “Além dos conhecimentos históricos sobre os diferentes locais a visitar, estes ‘condutores’ têm uma série de histórias para contar, muito ligadas às suas vivências”.

À mesa do Piolho (que - aproveite-se a lição estudada por este ex-sem-abrigo - foi o primeiro café do Porto a ter televisão e o alegado culpado pela mania dos portuenses chamarem cimbalino ao café), Jorge Manuel confirma que os seus conhecimentos de inglês não raspam para além do thank you e please. E o que é que ele sabe então que os outros guias não saibam já de cor e salteado? “O Palácio de Cristal era para onde íamos à procura das mulheres que vinham ‘lá’ de cima e a que chamávamos sopeiras. Hoje chamam-se empregadas domésticas, mas, nesse tempo, era aquele tipo de mulher que só podia sair aos domingos, com hora certa de sair e hora certa de entrar na casa dos patrões, e nós, chavalos, íamos lá para o engate. Na altura, os jardins do Palácio não eram tão amplos, havia muitos arbustos e recantos perfeitos para roubar aqueles beijos”.

 Venda para angariar mil euros

Os pormenores da rota que arranca este sábado vão ser anunciados na sessão de apresentação oficial da WelcomeHOME, ao início da tarde, no Museu Soares dos Reis. É sabido que esta ideia de negócio foi incubada na Universidade Católica do Porto e que a meta é abrir portas a sem-abrigo, o que pressupõe, claro está, garantir-lhes desde logo tecto. E, de preferência, emprego. Em linguagem de press realese: “O grande objectivo do projecto centra-se na promoção da inclusão social de populações vulneráveis, através da criação de postos de trabalho, e na formação e empregabilidade destas comunidades, lançando desafios que visam a reconstrução do projecto de vida de cada um desses cidadãos”.

Um dos primeiros passos deste projecto já deu notícia. Em Fevereiro do ano passado, 60 fotografias do Porto captadas por cinco sem-abrigo invadiram várias salas da cidade, numa exposição que prenunciava a criação destas rotas turísticas. “Começámos por sinalizar cinco pessoas em situação de sem-abrigo e com perfil de empregabilidade, isto é, tinham que estar motivadas par ao trabalho, não terem consumos, terem hábitos de higiene… Depois, promovemos um workshop de fotografia e entregámos a cada um deles uma máquina fotográfica, desafiando-os a, durante uma semana, retratarem a cidade”, recua Alfredo Figueiredo da Costa.

Dos cinco candidatos iniciais, apenas dois foram seleccionados para prosseguir com o projecto Rota de Mudança. “Avisámos toda a gente, logo no início, que iria ser assim. Só assim teremos condições de lhes garantir remuneração e um contrato de trabalho”. Os meses seguintes foram passados a estruturar o projecto. Que encalhou agora, porém, na falta de dinheiro para legalizar a cooperativa. À volta de mil euros, segundo Alfredo. “Pode não parecer muito, mas a verdade é que as oito pessoas que estão atrás da cooperativa estão todas desempregadas”. É Alfredo, 29 anos e licenciado em Serviço Social, mas também jovens licenciados em Direito, Psicologia, História… “Alguns beneficiaram de uma bolsa no âmbito do Impulso Jovem [o programa de incentivo à criação de emprego jovem, tornado célebre pelo ex-ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares Miguel Relvas], mas só por seis meses. No meu caso, têm sido os meus pais a ajudar a financiar as despesas”.

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