“O Vale Era Verde” (“How Green Was My Valley”), de John Ford (1941)

Como é doce aquela narração da criança de mais de 50 anos que volta à sua infância, compondo nesse regresso - que a memória torna mais benigna, mais mágica, mais digna – um universo em que as incongruências passam incólumes por se tratar de um sonho

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Assim de repente, acho que não é difícil ver a diferença que existe entre “O Vale Era Verde” e “How Green Was My Valley”. O que se perde na passagem de um título ao outro é uma parte do sonho que o filme é, um sonho precioso de uma recordação reconstruída da infância de alguém. Para sentir plenamente um filme assim, penso que não basta observar como espectador. É preciso mais: é preciso participar, traduzindo a história daquela criança daquela aldeia para o que aconteceu na nossa história, na nossa aldeia – ainda que seja um barro de cidade – de suficientemente semelhante para podermos entender tudo do modo que consegue entender quem passou por aquelas alegrias e tristezas, conquistas e humilhações, privações e liberdades, dificuldades e prémios.

Como é doce aquela narração da criança de mais de 50 anos que volta à sua infância, compondo nesse regresso - que a memória torna mais benigna, mais mágica, mais digna – um universo em que as incongruências passam incólumes por se tratar de um sonho. E nos sonhos, já se sabe, as coisas não são o que são, mas o que podem significar na interpretação dos bem-intencionados. Se formos, como espectadores participantes, suficientemente bem-intencionados, sentiremos como era verde aquele vale, como era verde o nosso vale, mas com o pequeno custo de nos apercebermos, depois, que nunca mais voltámos a ver aquele verde e que talvez não o voltemos a ver.

John Ford, o realizador que se apresentou uma vez como um homem que fazia “westerns”, mostra aqui, mais uma vez, que fazia outras coisas, como este poema simbólico do que nos fez ser o que acabámos por ser ou do que nos impediu de ser o que gostaríamos de ter sido, o passado marcante da inspiração para altos voos ou da mó pendurada ao pescoço, conforme os casos, conforme a sorte ou a sorte de a saber moldar.

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Assim, como levar a mal a artificialidade da saudação entre o pequeno Huw Morgan (Roddy McDowall), que se passeia na serra com o seu rigoroso pai (Donald Crisp), e a irmã, Angharad (Maureen O’Hara), que os vê à distância, como se fossem cantores de hinos e salmos e não como irmãos e filhos de mineiros? Ou a impossibilidade prática de uma família numerosa que vive da extracção do carvão, ao fim de 22 semanas de greve, poder convidar a quase totalidade da aldeia a comer e a beber na sua casa? É tudo um sonho, um regresso idealizado a um tempo e a um lugar que não há, mas que já houve, no coração de Richard Llewellyn, o autor do romance inspirado na sua infância em Gilfach-goch, no País de Gales, acrescentado do que de comum tinha John Ford, para dar a Cwm Rhonda do filme, com o pastor Mr. Gruffydd (Walter Pidgeon), a mãe Morgan (Sara Allgood), o beberrão Cyfartha (Barry Fitzgerald) e os cinco irmãos adultos de Huw. Uma aldeia em que o verde vai desaparecendo à medida que as escórias do carvão resultantes da exploração vão escorrendo serra abaixo, cobrindo tudo com um manto negro.

Aos saudosos daquele verde com urgência de o reencontrar, sugiro que o procurem no vestido de Cyd Charisse em “Singing in The Rain” ou na túnica do faraó reinante (Séti I) no início de “Os Dez Mandamentos”, ou nos juncos entre os quais flutua o cesto em que vai Moisés, pois não há verde como o do Technicolor.

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