“Mamãe vai levar você para casa”

Maurício Leite transporta uma mala de leitura até lugares onde os livros nunca chegaram antes. Há muito que encanta crianças e jovens na Amazónia ou em Angola. Na sua mais recente passagem por Portugal, emprestou-nos a voz e leu A Caminho de Casa (texto: Sílvia Corrêa, ilustração: Cárcamo, edição: Edições de Janeiro)

“Nasci em uma rua de terra, minha mãe teve uns seis ou sete filhos, mas, aos poucos, alguns irmãos foram embora. Um dia foi minha mãe que sumiu.” Assim começa a história que o promotor de leitura brasileiro escolheu ler no estúdio do PÚBLICO e assim alargar a nossa galeria de Livros para Escutar. A Caminho de Casa fala de adopção.

O trabalho e empenho de Maurício Leite junto de crianças e jovens em territórios longínquos e de muito difícil acessibilidade já lhe valeram o Prémio UNESCO de Leitura, concedido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Veio a Portugal para os Encontros de Leitura, em Pombal, mas também participou em actividades em Almodôvar, Lousada, Tábua, Oeiras, Cascais e Setúbal. Com “palestras, oficinas e apresentação da Mala de Leitura em sala de aula, com leituras de textos escritos em português e também livros de imagem”. Durante as suas sessões, Maurício diverte, comove e até põe a audiência a cantar. Não apenas as crianças. Vai voltar a Portugal para o ano, para colaborar com as bibliotecas de Tábua, Chelas e Marvila. E integrar as iniciativas de Lisboa – Capital Ibero-americana da Cultura 2017. Este educador já foi indicado para o prestigiado prémio ALMA – Astrid Lindgren Memorial Award e participou em 2014 no 34.º Congresso Internacional do IBBY – International Board on Books for Young Children, na cidade do México. Tema: Que Todos Signifique Todos.

Maurício Leite encara “a leitura como factor de inclusão social” e por isso envolve-se em projectos continuados na sua promoção. “Não se trata de só contar historinhas… uma vez ou outra, como agora todo o mundo faz”, diz ao PÚBLICO, dando-nos conta de que desde 2011 já conseguiu que fossem implantadas na Luziânia (a hora e meia de Brasília) “32 Malas de Leitura nas escolas de educação infantil”. O trabalho consiste na preparação de professores, coordenadores e directoras das escolas onde as “malas” são implantadas. “Ao longo do ano lectivo são feitos encontros para oficinas e avaliação dos efeitos do trabalho em salas de aula e em contexto familiar”, descreve. Esta actividade iniciou-se através da Secretaria Municipal de Luziânia (estado de Goiás), que levou a que fosse “aprovada e implementada a Lei Municipal do Livro e da Leitura, que garante verbas para aquisição de livros para a Biblioteca Municipal”. Actualmente, estão a elaborar o Plano Municipal do Livro e da Leitura.

Um congresso que é lei
Em 2013, criaram o Conluz – Congresso de Literatura Infanto-Juvenil de Luziânia. “Este ano realizou-se a IV edição consecutiva. Um congresso oferecido aos educadores, alunos e familiares com oficinas, palestras e debates sobre a promoção de leitura em sala de aula. Contámos com a participação de 1400 professores.” O Conluz foi “tornado em Lei Municipal”. A partir de 2014, Maurício retomou a divulgação da leitura e do livro “na Ilha do Bananal, com aldeias indígenas e escolas da zona rural”. No ano passado, realizou o I Congresso de Literatura Infanto-juvenil do Araguaia, “com a participação de professores indígenas, comunidades ribeirinhas e professores das pequenas cidades da região”.

Recentemente, iniciou um trabalho de fabrico “de brinquedos populares de buriti em um assento dos sem-terra no estado de Goiás, no sertão brasileiro”, conta. Será uma forma de gerar rendimentos para as famílias.
Diz que aprendeu a viver com pouco. Raras vezes o veremos “a caminho de casa”.

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