Mau tempo empurra renováveis para recorde em Janeiro

Electricidade produzida por barragens e parques eólicos poderia garantir 91% do consumo nacional.

Barragens cheias produziram 44% da electricidade em Janeiro Raquel Esperança

As barragens e parques eólicos em Portugal produziram em Janeiro electricidade que seria suficiente para assegurar 91% do consumo nacional. Se parte desta energia não tivesse sido exportada, na prática nove em cada dez lâmpadas acesas numa casa poderiam ter sido alimentadas sobretudo pelos parques eólicos e barragens do país.

“São números brutais”, diz o presidente da Associação de Energias Renováveis (Apren), António Sá da Costa. “E o mês de Fevereiro vai pelo mesmo caminho”, completa.

Os números avançados pela Apren, com base na estatística mensal das Redes Energéticas Nacionais (REN), representam apenas uma imagem do potencial das fontes renováveis no país. Em números reais, 78% da produção nacional de electricidade são de origem renovável. Cerca de 14% de toda a electricidade produzida foram exportados.

A maior fatia da produção em Janeiro cabe às barragens, que estão a abarrotar com as chuvas deste Inverno. Das 57 albufeiras monitorizadas pela Agência Portuguesa do Ambiente, 35 estão acima dos 80% da sua capacidade de armazenamento. Quase todas as bacias hidrográficas do país estão com mais água do que a média dos últimos 30 anos para Janeiro.

Com isso, as grandes hidroeléctricas produziram 44% da electricidade do mês passado. As mini-hídricas completaram a produção com mais 4%.

A seguir vêm os parques eólicos, que foram responsáveis por 30% da produção eléctrica. “Foi o mês de Janeiro de maior produção eólica de sempre”, afirma António Sá da Costa.

A queima de resíduos, de biomassa e de biogás contribuiu com mais 4% para a produção de electricidade e os painéis solares fotovoltaicos com uma pequena fatia — 0,4%.

A influência da meteorologia tem sido determinante. Em 2012, ano de um Inverno mais seco, apenas 36% da electricidade produzida em Janeiro veio de fontes renováveis.

Portugal está, agora, a passar por semanas extremamente húmidas. Depois de um Novembro seco e de um Dezembro próximo da média, Janeiro foi um mês de chuvas em grande parte do país. As barragens encheram-se e têm sido feitas descargas controladas, de modo a manter alguma reserva para “encaixar” picos de cheias.

Ainda assim, alguns efeitos têm sido sentidos. Na manhã desta quarta-feira, havia 50 estradas e caminhos cortados em todo o país devido ao mau tempo. Reguengo do Alviela, como sempre ocorre mal sobem as águas do Tejo, ficou isolada na terça-feira. Na Régua, o cais fluvial foi inundado pelas águas do Douro. E na região Oeste, os agricultores começam a fazer contas aos prejuízos do alagamento dos campos de hortícolas.

A situação actual não chega a ser excepcional. “De três em três anos temos valores como os de agora”, afirma Rui Rodrigues, director do Departamento de Monitorização e Sistemas de Informação do Domínio Hídrico. “São variações próprias do clima mediterrânico”, completa.

O reverso da medalha é o empurrão que as condições do tempo estão a dar às renováveis. O presidente da Apren acredita, porém, que a meteorologia não diz tudo e afirma que o resultado do mês passado — que se soma ao de 2013, com quase 60% de electricidade com origem em fonte renovável em todo o ano — mostra que as renováveis são uma fonte fiável de abastecimento.

Sá da Costa refere-se em particular aos críticos, que argumentam que muita dependência das renováveis — em particular dos parques eólicos — pode representar um risco, dada a variabilidade da produção em função das condições naturais. “Nada disto é verdade”, afirma.
 
 

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