A vida, todos os dias e um bocadinho mais

Jacinto Lucas Pires entrou na cabeça de um "verdadeiro actor" e descobriu a sua própria escrita. O seu novo livro faz de Lisboa um palco real demasiado parecido com a ficção

A vida tem destas coisas. Escreve-se um livro e, a seguir, a realidade encarrega-se de agir como se o tivesse lido. E o livro ainda por sair. E a História a ultrapassar a estória. Quando Jacinto Lucas Pires deixou pronto "O Verdadeiro Ator", o seu sétimo livro de ficção que será lançado na próxima quinta-feira pela editora Cotovia, não sabia que, semanas mais tarde, ia haver uma manifestação à porta do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, a reclamar uma outra democracia. O movimento da "geração à rasca" parecia estar a seguir o que ele próprio havia escrito mas, como em qualquer realidade paralela, "um bocadinho mais ao lado".

No seu livro, essa manifestação, que acabará à porta do Parlamento, parece, ao mesmo tempo, propor uma solução para o que não teve consequência e sugerir uma resposta a um outro livro seu, "Do Sol" (2004), em que um político fazia promessas que agora intuimos terem falhado.

Se quisermos construir um arco narrativo entre esse romance de 2004 e este de 2011, é como se o discurso de Pedro Claristo se revelasse, afinal, igual a todos. Escreveu Lucas Pires: "Minhas amigas e amigos, não estamos aqui porque sim, só porque sim, porque não temos outro sítio para estar. Não estamos na política para ter carros pretos e escritórios bonitos. Não pedimos o vosso apoio para isso. Não. Aliás, muito francamente, aqui onde ninguém nos ouve... hã... deixem que lhes diga outra coisa: não precisamos da política para isso". Agora, em "O Verdadeiro Ator", escreve: "Diz-se muita coisa, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo como é que tudo começou, como é que foi possível inventar uma multidão destas. Um corpo imenso que parece ter chegado do nada para encher São Bento, e que agora transborda destas ruas e se vai estendendo para cima, para a Estrela, e para baixo, para o Poço dos Negros". E como que para confirmar que estes são lugares reais, habitados por figuras desenhadas, Lucas Pires acrescenta: "Lugares verídicos tomados por gente inimaginável, gente mais-que-verdadeira feitas das inconsistências próprias da realidade. Gente viva que não vem nas estatísticas, que não responde às sondagens, que não cabe nos estudos de mercado."

Jacinto Lucas Pires diz-nos, hoje, que "foi uma vantagem escrever antes da manifestação": "Pude partir de sinais que já existiam e imaginar em cima deles os problemas [que poderiam acontecer]. Foi uma luta contra a política, e os políticos, sem uma ideia de alternativa política, seja ela qual for. Onde é que isso poderia ser levado? Mesmo que uma coisa dessas atravesse as portas da Assembleia, acaba ou manipulada ou por desaparecer. "

Esse dispositivo ficcional permite-lhe fazer da historieta do actor falhado metáfora de um país em processo de afirmação. "Interessa-me sempre a ideia de provocação. Escrever só em cima da literatura, como alguns fazem, e eu próprio leio, parece-me pouco. Quando faço uma pergunta, gosto que ela seja uma provocação". E essa provocação emana, sempre, de uma observação permanente. Nos livros deste escritor que se diz "viciado em informação" (e a verdade é que o olhar de Jacinto deriva quando falamos com ele, e a sua atenção se dispersa pelo que vai acontecendo à sua volta), a atenção está permanentemente a ser atraída para outro sentido, fazendo com que se construam histórias dentro da narrativa principal. E isso pode fazer com que o leitor se sinta perdido, ou que lhe estão a ser dadas informações que o seu tempo de leitor (diferente do tempo de espectador, eventualmente menos interventivo, e daí que isto seja mais evidente nos romances do que nas peças de teatro do autor) não consegue processar. "Como leitor sei que quando me é contada uma história, não é uma ilusão poder estar lá", explica.

Mais real do que a realidade

O convite que faz ao leitor é, de resto, um convite à reflexão. Para Jacinto Lucas Pires, "a história deste verdadeiro actor fala de um tempo em que tudo parece à superfície". E refere os oráculos dos telejornais, em que Deus, política, sexo e publicidade se misturam, "tudo igual, ao mesmo nível". Numa "sociedade de ecrã" - ou seja, que perdeu tridimensionalidade -, "como é que se conseguem encontrar todas as dimensões?". Esse é, para o autor, "o grande drama do teatro actual". O termo "teatro", aqui, não é apenas referente a uma prática literária, mas ao teatro enquanto ideia de representação e de intervenção pública. "Uma das hipóteses é dizer que a literatura não é deste tempo, pertence às bibliotecas, onde escritores escrevem para escritores, e se esconde. A outra hipótese é tentar, a partir de dentro, ser-se do tempo mas atacando o tempo".

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