David Melgueiro: Na rota da lendária viagem do navegador português pelo Árctico

Uma associação de Peniche lançou o projecto de construção de um veleiro destinado a expedições científicas. Na sua viagem inaugural, tenciona-se aliar a investigação científica com a evocação de um explorador português do século XVII, cujas viagens ainda hoje estão envoltas em mistério.

O percurso da expedição prevista para 2016 e 2017, incluindo as duas rotas pelo Árctico (a Passagem do Nordeste e a Passagem do Noroeste) e um croquis que dá uma ideia do aspecto geral do veleiro que se tenciona construir para a expedição

Carregado de riquezas orientais, especiarias e passageiros, terá decidido trocar as voltas aos piratas e a outros possíveis ataques no mar vindos de vários países europeus em guerra. Em vez de navegar do Japão para sul, indo até ao cabo da Boa Esperança, na África do Sul, dirigiu-se para norte, até ao estreito de Bering, conhecido na altura por estreito de Anian. “Indo para sul, seria atacado e então resolveu arriscar tudo por tudo”, conta José Mendonça.

Através do estreito de Bering, terá então passado do Pacífico para o oceano Árctico, avistado o arquipélago de Svalbard, e daí terá descido até ao Atlântico, primeiro até à Holanda, depois já noutro navio até Portugal. Essa rota pelo Árctico junto ao Norte da Sibéria é conhecida como a Passagem Nordeste.

A ter acontecido assim, David Melgueiro foi o primeiro a fazer a travessia da Passagem Nordeste. Mas os louros desse feito ficaram com outro navegador, o sueco-finlandês Erik Nordenskiöld, que se considera ter atravessado de forma inquestionável a Passagem do Nordeste mais de 200 anos depois, em 1878.

Mas de onde surgiu a ideia de David Melgueiro foi quem se aventurou primeiro pelas águas geladas da Passagem Nordeste? Diz-se — será lenda, verdade ou uma mistura de ambas? — que Melgueiro contou a sua viagem no Porto a um marinheiro francês, que por sua vez a contou a um diplomata e espião francês em Portugal, chamado La Madelène, que a contou ainda a um ministro francês. “Isto criou uma lenda”, resume José Mesquita, acrescentando que a viagem pode ter sido envolta em secretismo pela própria Holanda.

Uma descrição dessa viagem encontrava-se na Holanda e na Biblioteca Nacional de França, em Paris, segundo o coronel de engenharia Carlos de Faria e Maia, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, que mencionou esse facto num artigo de 1941 na Gazeta dos Caminhos de Ferro.

Além dessa descrição antiga (da qual, na verdade, os relatos só dizem que existe mas não o que lá está efectivamente escrito), estudos actuais sobre as alterações climáticas e a variabilidade do clima revelaram que os anos da expedição de David Melgueiro foram bastante quentes no Árctico. Portanto, é plausível que a Passagem do Nordeste estivesse livre de gelo, permitindo a sua travessia, tal como agora as alterações climáticas estão a tornar essa rota cada vez mais possível, ao provocarem todos os anos a diminuição do gelo no Verão. “Isto cria uma possibilidade efectiva de que a lenda de David Melgueiro não tivesse sido só uma lenda.”

Agora, o objectivo é seguir o rasto dessa lendária viagem, mas em sentido inverso. Partindo de Portugal, o futuro veleiro que tomará o nome do explorador fará uma primeira etapa até Anadir, na Rússia, com escalas em várias cidades. É nesta etapa, antes de Anadir, que será então efectuada a Passagem do Nordeste, atravessando o Árctico de Oeste para Leste e navegando ao longo das costas da Sibéria até passar o estreito de Bering e entrar no Pacífico.

A segunda etapa da expedição consistirá em descer o Pacífico até ao porto de Kagoshima, no Japão. Mas daí ainda seguirá, ao contrário da viagem de David Melgueiro, para a China e a Coreia do Sul. De regresso ao Japão, a terceira e última etapa partirá em direcção novamente ao estreito de Bering, só que desta vez far-se-á a travessia do Árctico pela Passagem do Noroeste, navegando assim ao longo das costas do Alasca, do Norte do Canadá e Gronelândia. De St. John’s, terra mítica da pesca ao bacalhau na Terra Nova, o veleiro virá para Portugal, com paragem ainda pelos Açores.

Nestas andanças pela Terra Nova, o objectivo é recordar não só a epopeia da pesca ao bacalhau como a viagem de exploração de outro navegador português em 1585: João Martins, de quem também se diz que terá sido o primeiro a fazer outra rota, a Passagem do Noroeste, e passar o estreito de Bering, com a intenção de ir até às Filipinas e que alguma coisa o terá feito regressar à Terra Nova. Aliás, o artigo do coronel de engenharia Carlos de Faria e Maia intitulava-se A primeira volta ao mundo pelos mares glaciais no norte foi dada por dois pilotos portugueses — João Martins e David Melgueiro em 1585 e 1660.

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