Morreu Hans Küng, o “teólogo rebelde”

Teólogo suíço foi o mais jovem participante no Concílio Vaticano II. Morreu terça-feira, com 93 anos de idade, aquele que foi um dos maiores críticos da tese da infalibilidade papal.

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Ullstein Bild/Getty Images

Era “um teólogo rebelde”, nas palavras de frei Bento Domingues. E foi ao suíço Hans Küng, que morreu terça-feira, aos 93 anos, que o Papa Francisco foi beber muitas das ideias que estão a marcar o seu pontificado, nomeadamente a de que a Igreja deve abdicar do seu centralismo, ser mais colegial e manter-se fiel à mensagem do Evangelho. “Depois de muitos anos em que foi uma voz dissonante da Igreja, morreu reconciliado, porque viu finalmente a Igreja encarnar algumas das suas ideias”, arrisca o dominicano.

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Era “um teólogo rebelde”, nas palavras de frei Bento Domingues. E foi ao suíço Hans Küng, que morreu terça-feira, aos 93 anos, que o Papa Francisco foi beber muitas das ideias que estão a marcar o seu pontificado, nomeadamente a de que a Igreja deve abdicar do seu centralismo, ser mais colegial e manter-se fiel à mensagem do Evangelho. “Depois de muitos anos em que foi uma voz dissonante da Igreja, morreu reconciliado, porque viu finalmente a Igreja encarnar algumas das suas ideias”, arrisca o dominicano.

Nascido no dia 19 de Março de 1928, em Sursee, na Suíça, filho de um comerciante de calçado, e ordenado padre em 1954, Hans Küng era professor titular da reputada Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tubinga, na Alemanha, juntamente com Joseph Ratzinger, que viria a tornar-se no Papa Bento XVI. Na altura, ambos pugnavam por uma Igreja mais sintonizada com a cultura ocidental moderna. E foram ambos, aliás, chamados pelo Papa João XXIII a participar no Concílio Vaticano II (1962-65), que abalaria fortemente as bases em que se alicerçava a Igreja Católica.

Mas enquanto Ratzinger acabaria por recuar em toda a linha, porque se “assustou com a rebeldia dos estudantes”, como recorda frei Bento Domingues, Hans Küng mantém-se virado à esquerda e nunca abdicou da sua postura crítica em relação a determinados aspectos da doutrina católica, onde se incluem a obrigatoriedade do celibato sacerdotal, a interdição das mulheres no sacerdócio, a contracepção e mesmo a eutanásia.

As suas ideias tiveram um preço. Em 1979, Hans Küng viu revogada a sua licença para ensinar teologia católica, numa interdição que terá tido o apoio do então cardeal Joseph Ratzinger. Apesar de este o ter negado, a verdade é que, mesmo depois de ter sido chamado por João Paulo II a ocupar o cargo todo-poderoso de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger nunca revogou tal decisão.

Esta cisão decorreu em grande parte do livro que Hans Küng escrevera questionando a doutrina da infalibilidade papal. “Ele defendia que o Papa, individualmente, não é infalível. E substituiu esse conceito da infalibilidade pelo conceito de indefectibilidade da Igreja, defendendo que esta nunca abandonará a essência da fé cristã”, explica o padre e professor de filosofia Anselmo Borges. “Quando lhe foi retirada a missão canónica, naquela altura do regresso ao conservadorismo protagonizado por João Paulo II, Küng continuou como professor universitário, agora com uma cátedra de diálogo inter-religioso que o levou a aprofundar o seu projecto de uma ética global, restaurando o chamado ‘parlamento das religiões mundiais’, muito baseado no princípio segundo o qual não haverá paz entre as nações sem que haja também paz entre as religiões e que esta não é possível sem diálogo”, recorda ainda Anselmo Borges, a propósito de alguém que qualifica como “um trabalhador incansável”. “Deixou uma obra imensa, um legado gigantesco, e foi uma figura decisiva para o diálogo inter-religioso”, enfatiza, ressaltando, entre as inúmeras obras do suíço, a trilogia sobre o cristianismo, o judaísmo e o islão, que está, de resto, traduzida para português.

“Tendo sido uma voz sempre dissonante em relação àquilo a que no pós-Vaticano II se chamou o ‘inverno da Igreja”, recorda frei Bento Domingues, Hans Küng manteve-se sempre “um teólogo completamente católico”. Em 2005, aliás, Bento XVI chamou-o para jantar na sua residência, mas do gesto “não resultou nada de positivo”, porventura porque as diferenças entre os dois se tinham tornado irreconciliáveis. Küng tinha, de resto, declarado que falar com Ratzinger tinha-se tornado semelhante a falar com um agente do KGB e nunca renunciara a considerar que os tradicionalistas responsáveis pela recusa das reformas firmadas no Concílio Vaticano II eram pura e simplesmente “ultra-conservadores e anti-democráticos”.

Mais recentemente, a sua proposta de uma Igreja mais colegial e de encontrar “os denominadores comuns a todas as culturas e religiões” encontraram eco nos esforços do Papa Francisco. Este chegou, aliás, a escrever-lhe duas vezes, segundo recorda Anselmo Borges, e numa das cartas “disse-lhe que sim, que era preciso rever essa coisa da infalibilidade papal”.

Apesar do seu papel destacado enquanto teólogo com influência à escala mundial, Hans Küng escolheu um único título para o seu epitáfio, conta ainda Anselmo: “Esse título foi professor, por causa do étimo latino da palavra, que significa ter uma mensagem para entregar. E foi isso que ele fez a sua vida toda.”