De Manaus para o mundo: a variante do negacionismo

A variante brasileira pode ameaçar a eficácia de vacinas, enquanto o mundo todo corre contra o tempo para atingir a imunidade colectiva. A política negacionista de Jair Bolsonaro foi e é o principal catalisador do surgimento de novos surtos no país.

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LUSA/RAPHAEL ALVES

A região norte do Brasil é um país à parte. Paradoxalmente, abriga uma riqueza natural única que poderia selar o futuro de um exemplar desenvolvimento sustentável. No entanto, o descaso dos governos federais com a região é histórico e talvez tão endémico quanto, de resto, se tornou o coronavírus, o mais novo parente na família de doenças persistentes, como a dengue, a malária, a febre-amarela e a chicungunha. O descaso reflecte-se nos índices regionais vexaminosos de tratamento de água e esgoto, desenvolvimento humano, educação básica e mortalidade infantil.

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A região norte do Brasil é um país à parte. Paradoxalmente, abriga uma riqueza natural única que poderia selar o futuro de um exemplar desenvolvimento sustentável. No entanto, o descaso dos governos federais com a região é histórico e talvez tão endémico quanto, de resto, se tornou o coronavírus, o mais novo parente na família de doenças persistentes, como a dengue, a malária, a febre-amarela e a chicungunha. O descaso reflecte-se nos índices regionais vexaminosos de tratamento de água e esgoto, desenvolvimento humano, educação básica e mortalidade infantil.

Edmar Lisboa Bacha, reconhecido economista brasileiro, cunhou em 1974 aquele que seria o retrato fiel do Brasil, enquanto país contraditório, ambíguo e desigual, a que chamou de “Belíndia”. A Belíndia é uma nação fictícia, onde o abismo entre as realidades socioeconómicas é dantesco, a ponto de acomodarem níveis de vida similares à Bélgica por um lado e níveis de vida equivalentes aos da Índia, por outro. O Brasil Belíndia tem na região norte as suas mais fortes similitudes com o nível de desenvolvimento humano da Índia. A conta por todo esse descaso histórico chegou mais uma vez, no meio do caos sanitário previsto, mas dolosamente não prevenido pelas entidades governamentais federais e locais em Manaus, hoje um dos epicentros de uma nova variante do coronavírus SARS-CoV-2, avassaladora em termos de contágio.

Longe de coincidências, há cerca de cem anos  Manaus também registava um dos piores índices de mortes e infecções pela gripe espanhola e o cenário de terra arrasada com a lotação dos cemitérios no coração da Amazónia poderia facilmente ser confundido com as imagens recentes que circularam o mundo. Facto é que, depois de detectadas variantes mais contagiosas do novo coronavírus no Reino Unido e na África do Sul, chegou a vez de o Brasil exportar não a sua vacina, mas a sua própria variante e, pasmem, identificada primeiro em Manaus.

Não se sabe ainda ao certo se esta variante também é mais letal, porém o que se observa hoje é um colapso total do sistema de saúde público da cidade, com taxas de ocupação das vagas nos cuidados intensivos à beira do limite máximo. Com o caos instalado e o parco controle da doença com a liberação desregrada do comércio pelo governo local, o conjunto da obra não poderia ser mais desastroso:
a) a nova variante aparece quando Manaus enfrenta uma crise na distribuição de oxigénio nos hospitais, acumulando cada vez mais mortes, agora também por asfixia;
b) o governo federal, na figura do Presidente da República e do seu ministro da Saúde, tinham conhecimento da iminência da escassez previamente e nada fizeram para impedi-lo;
c) a política negacionista promovida por Bolsonaro atingiu em cheio o seu objectivo, com o apoio declarado à liberação do comércio e dos serviços na capital do Amazonas e o incentivo à minimização dos efeitos da doença, como não usar máscaras;
d) enquanto a cidade já caminhava para o precipício, ao invés do reajuste na distribuição de vacinas - absolutamente escassas no país[13] - para parar os efeitos destrutivos da nova variante, o Ministério da Saúde recomendava um tratamento precoce avesso à ciência, ao mesmo tempo em que há suspeitas de que enviou milhares de doses de cloroquina para Manaus, a droga “milagrosa” em que o governo federal apostou todas as fichas e esforço de produção.

O negacionismo à doença chegou ao quotidiano de muitos e os seus efeitos imediatos foram o desrespeito às normas sanitárias. O resultado? Mais mortes, casos e sobrelotação dos hospitais, que tiveram que transferir pacientes para outros estados onde a situação estava menos pior. A política negacionista de Jair Bolsonaro foi e é o principal catalisador do surgimento de novos surtos no país, governo que não se mostrou apto nem mesmo a estruturar um calendário de vacinação que assegure à população brasileira o pórtico de salvação. A bem da verdade, a morte interessa ao Presidente. Foi ela uma das suas principais plataformas eleitorais. O extermínio de indígenas, quilombolas, pobres, mulheres, LGBTQI e negros sempre foi um projecto e, agora, entrou no modo turbo aniquilador, com a aliança do vírus.

Acontece que os efeitos de um governo anti-epistémico não se fazem mais sentir apenas dentro de suas pouco vigiadas fronteiras. A variante brasileira pode ameaçar a eficácia de vacinas, enquanto o mundo todo corre contra o tempo para atingir a imunidade colectiva. O negacionismo bolsonarista segue como selo de exportação da variante de Manaus e já é possível sentir sua presença em países como Japão, Portugal, Alemanha e Itália. Se na China se deu o suposto start para a (por ora) pior pandemia do século XXI, que fique catalogado nos anais da história da humanidade que foi no Brasil de Bolsonaro que o vírus encontrou o ambiente confortável ideal para realizar mutações. Para evitar que a nova variante domine os canais de transmissão e coloque mais uma vez em cheque o sistema de saúde nacional, governadores e prefeitos acabam por pedir ajuda ao Ministro da Saúde. A Saúde na era Bolsonaro é Ministério que nunca existiu, afinal num governo de extermínio, todos as pastas não passam de Ministérios da Morte.