Hospitais privados sem disponibilidade para receber doentes covid-19 em Lisboa, diz a ARS. CUF e Luz Saúde desmentem

Em causa estariam entre 20 a 30 camas de enfermaria que poderiam vir a ser objecto de contrato em caso de necessidade. Grupos CUF e Luz Saúde afirmam que estão disponíveis para receber doentes com covid.

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Paulo Pimenta

O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) afirmou, após uma reunião que decorreu ao início da tarde de quarta-feira com o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP) e representantes dos principais grupos privados da zona de Lisboa, que os hospitais privados comunicaram que não têm disponibilidade para receber doentes covid nesta região. Grupos CUF e Luz Saúde desmentem e afirmam que estão disponíveis para receber estes doentes.

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O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) afirmou, após uma reunião que decorreu ao início da tarde de quarta-feira com o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP) e representantes dos principais grupos privados da zona de Lisboa, que os hospitais privados comunicaram que não têm disponibilidade para receber doentes covid nesta região. Grupos CUF e Luz Saúde desmentem e afirmam que estão disponíveis para receber estes doentes.

O encontro tinha como objectivo perceber qual a disponibilidade destas unidades para apoiar os hospitais do Serviço Nacional de Saúde na resposta a doentes covid. Em causa estariam entre 20 a 30 camas de enfermaria que poderiam vir a ser objecto de contrato em caso de necessidade.

O objectivo da reunião, explicou ao PÚBLICO o presidente da ARSLVT, Luís Pisco, “era saber que capacidade instalada é que existia que pudessem ceder, se fosse necessário”. “Foi uma sondagem, uma conversa com o dr. Óscar Gaspar [presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada] e representantes dos principais grupos privados de Lisboa, porque é nossa obrigação ter as coisas preparadas”, sublinhou.

De acordo com Luís Pisco, todos os representantes dos grupos privados afirmaram “que não têm disponibilidade para [doentes] covid”. “Têm uma actividade programada, fizeram os seus planos e não contaram com isso. Têm o mesmo problema que nós – se colocarem um doente covid numa enfermaria, essa enfermaria tem de ficar dedicada à covid”, disse. Referiu ainda que os privados disseram “que colaborariam com o SNS e estariam disponíveis para ajudar, se fosse necessário”. “Mas não me pareceu que situação vá mudar a curto médio prazo”, acrescentou.

O PÚBLICO tinha questionado ao início da tarde a APHP sobre se o levantamento de camas disponíveis pedidas pela ARSLVT e pela ARS Norte já estava feito e quais os números disponíveis para cada região. Em resposta, o presidente Óscar Gaspar confirmou a realização de “uma primeira reunião formal com a ARS Lisboa e Vale do Tejo” e que “ficou definido que a ARS realizaria um plano que incluiria as necessidades e solicitações do SNS, bem como os termos em que os hospitais privados poderiam colaborar com as unidades públicas de saúde”.

Num esclarecimento enviado ao PÚBLICO, o grupo CUF afirma que tem estado desde o primeiro momento ao serviço do país, apoiando o SNS no combate à pandemia” e que actualmente “tem 13 doentes internados com covid-19, tendo internado, desde o início da pandemia, 173 doentes”.

“À luz dos contactos entretanto estabelecidos com as autoridades regionais de Saúde, a CUF reafirma a sua disponibilidade para continuar a apoiar o SNS nas duas dimensões, doentes covid e não-covid, de forma complementar e supletiva, de acordo com a sua capacidade, a qual está a ser avaliada, mantendo-se a preocupação de continuar a garantir, com total segurança, a resposta aos doentes não-covid, o que é absolutamente fundamental para a população”, assegurou. Fonte da CUF adiantou que “neste momento têm 20 camas disponíveis para doentes covid, sejam do SNS ou outros”.

“A informação de que os grupos privados, nomeadamente a Luz Saúde, não demonstraram interesse em receber doentes covid do SNS não corresponde à verdade”, afirmou o grupo privado ao PÚBLICO, salientando que têm “capacidade para receber doentes covid-19 e não covid” e que a conferência telefónica com a ARSLVT foi com a direcção da APHP.

“Sobre a nossa capacidade de camas e recursos a resposta depende das necessidades concretas que o Estado identificar e que variam naturalmente de região para região. Na audiência que solicitámos ainda em Setembro ao senhor secretário de Estado da Saúde, dr. Diogo Serras Lopes, e que se realizará nos próximos dias, esperamos vir a ter uma clarificação relativamente às necessidades concretas do SNS no actual contexto de evolução da pandemia e como poderá o grupo Luz Saúde integrar o plano de contingência do Ministério da Saúde em cada momento”, acrescentou.

LVT já entrou no nível 2

Apesar “de a situação estar relativamente estável”, a região de LVT já entrou no nível 2 de resposta à pandemia, quer em camas de cuidados intensivos, quer de enfermaria. Neste nível, o número de camas de cuidados intensivos disponíveis para doentes covid pode chegar às 148. “Estão abertas actualmente 105 e existem 90 doentes internados, o que significa uma taxa de ocupação de 86%.” Já em enfermaria, neste nível as camas covid podem chegar às 738, embora ainda só estejam afectas 681. “Estão internados 547 doentes, o que representa uma taxa de ocupação de 80%”, referiu Luís Pisco, que disse não ter chegado à ARS informação de actividade cancelada.

O plano da ARSLVT tem ainda mais um nível, mas, como explica o presidente, à medida que mais camas ficam afectas à covid, menor será a capacidade de dar resposta a outros doentes. E “o objectivo é manter actividade assistencial e manter este equilíbrio”. Há cerca de duas semanas que a ARSLVT está a trabalhar num novo modelo de gestão de camas. Conta com o apoio de um grupo de militares “que tratam informação de dados e fazem planeamento estratégico e uma previsão, partilhada com todos os hospitais, do que se pode esperar em termos de utilização na semana seguinte”.

A par deste, há ainda o “núcleo de apoio à decisão, constituído por um médico internista, um intensivista e um gastroenterologista que estão em contacto com um elemento de ligação de cada hospital”. “É muito importante que haja transparência. Cada hospital tem de ter a certeza que não lhe está a ser pedida uma carga superior ao do hospital mais próximo. Todos têm informação sobre todos, de camas abertas, ocupadas”, explicou Luís Pisco, referindo que o objectivo é que a unidade que precise de apoio “ligue para a ARS, que dará a indicação para onde o doente deverá ser transferido”. O projecto está a entrar na fase de aplicação. Questionado sobre se este modelo não deveria ter sido criado mais cedo, Luís Pisco reconheceu que “nem sempre é possível fazer tudo no timing que se deseja”.

A região tem protocolos com o hospital militar de Belém e Alfeite para onde tem encaminhado doentes que não precisam de cuidados clínicos diferenciados, mas que não podem voltar a casa, por exemplo, para terminar o restante período de isolamento. “Também nos casos sociais tem havido um esforço grande da Rede Nacional de Cuidados Continuados para apoiar os hospitais”, disse o responsável.

* título actualizado após as respostas de dois grupos de saúde privados que não estiveram na reunião entre a ARS LVT e a APHP