Cláudio Bento França, um alívio no olhar

Os standards eurocêntricos de beleza fizeram com que muitos de nós não nos sentíssemos enquadrados e que perfis como este não fizessem parte da norma. Por esse motivo, ver um Cláudio França realmente trouxe algum alívio no olhar e uma esperança de um dia podermos “ser” na totalidade: com os nossos cabelos, com os nossos traços, com a nossa cor e a nossa cultura.

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Quem sempre esteve habituado a ver-se representado em todas as esferas da sociedade, provavelmente achará que isto não é nada de mais e nem perceberá o alarido que se criou, depois de Cláudio Bento França se estrear como pivô no canal SIC Notícias. A surpresa veio porque numa televisão portuguesa, que consegue ser a maior parte das vezes monocromática, ver uma figura diferente do habitual impressionou. Negro, pivô e com            dreadlocks

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Quem sempre esteve habituado a ver-se representado em todas as esferas da sociedade, provavelmente achará que isto não é nada de mais e nem perceberá o alarido que se criou, depois de Cláudio Bento França se estrear como pivô no canal SIC Notícias. A surpresa veio porque numa televisão portuguesa, que consegue ser a maior parte das vezes monocromática, ver uma figura diferente do habitual impressionou. Negro, pivô e com            dreadlocks

Os standards eurocêntricos de beleza fizeram com que muitos de nós não nos sentíssemos enquadrados e que perfis como este não fizessem parte da norma. Por esse motivo, ver um Cláudio França realmente trouxe algum alívio no olhar e uma esperança de um dia podermos “ser” na totalidade: com os nossos cabelos, com os nossos traços, com a nossa cor e a nossa cultura, independentemente do espaço que ocupemos.  

Li várias opiniões nas redes sociais sobre este “acontecimento”, e ficou mais do que evidente no espaço digital a quantidade de crenças, ideias e pontos de vista totalmente díspares. Há quem se questione o “porquê disto ser notícia”, seguido de um “somos todos iguais” ou “o racismo está nos olhos de quem o vê”. Desculpem, somos todos iguais, biologicamente falando, mas não somos realmente todos iguais socialmente. Estamos em pleno ano 2020 e, infelizmente, as nossas características físicas ainda são muito determinantes de como seremos recebidos neste mundo. Percebo que muitos não irão nunca entender o poder da representatividade e a força que nos dá ao podermos espelhar os nossos sonhos e imaginários, através do exemplo de alguém igual nós.  

Escreveu, a esse propósito, Rupi Kaur: “a representatividade / é vital / sem ela a borboleta / rodeada por um grupo de mariposas / incapaz de ver a si mesma / vai continuar tentando ser mariposa”.

Para entender o significado deste momento de verdade, várias pessoas teriam de começar por retirar os seus confortáveis privilégios para iniciar um sério exercício de empatia. Empatia por aqueles que são fora do padrão. 

A celebração do Cláudio não veio de modo algum retirar o mérito de outros pivôs negros que vieram anteriormente, alguns só de passagem, outros de um modo mais frequente, mas ainda assim muito poucos. A representatividade só por si só não é suficiente! Terá de se traduzir também em proporcionalidade para que se criem imagens mais diversas nas nossas mentes e consigamos cada vez mais incluir nas nossas realidades o que é considerado “fora do normal”. Por esse motivo, não penso que o canal em questão e outros concorrentes tenham um real mérito nestas proezas, tendo em conta que estas situações são apenas pequenas gotas num oceano, que caem pontualmente, para não dizer raramente.

Há por isso ainda um longo caminho a percorrer, mas para já foquemo-nos nos aspectos positivos: a onda de felicitações, sorrisos e motivos de orgulho que o Cláudio deixou. Eu não conheço o Cláudio, mas tenho a certeza que garantiu o seu espaço por puro mérito e esforço. Oportunidades destas não são dadas, são conquistadas! A sua vitória individual tornou-se numa vitória colectiva de muitos. Para mim, pelo menos, fez-me acreditarum bocadinho mais que as mudanças são possíveis, ainda que tenham de ser dados pequenos passos, na jornada até uma sociedade mais igual.