Reviravolta no julgamento do Aurora Dourada na Grécia

Procuradora diz que não há provas de premeditação no assassínio do rapper Pavlos Fyssas nem de que os elementos do partido formassem uma organização criminosa, pedindo absolvição para ambas as acusações.

Fotogaleria

Para surpresa – e revolta – dos observadores do processo contra responsáveis do partido neonazi grego Aurora Dourada pelo assassínio do rapper anti-fascista Pavlos Fyssas, em 2013, a procuradora declarou que não havia provas de que este crime tivesse sido ordenado pela liderança do partido e recomendou condenar apenas o autor do crime, Giorgos Roupakias, recusando a tese de autodefesa deste. E, mais, recomendou que os membros do partido fossem ilibados da acusação de organização criminosa.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Para surpresa – e revolta – dos observadores do processo contra responsáveis do partido neonazi grego Aurora Dourada pelo assassínio do rapper anti-fascista Pavlos Fyssas, em 2013, a procuradora declarou que não havia provas de que este crime tivesse sido ordenado pela liderança do partido e recomendou condenar apenas o autor do crime, Giorgos Roupakias, recusando a tese de autodefesa deste. E, mais, recomendou que os membros do partido fossem ilibados da acusação de organização criminosa.

O processo marcou a primeira vez na Europa em que membros de um partido estão a ser julgados por pertença a organização criminosa ligada a esse partido. 

“Que farsa”, reagiu no Twitter o académico especialista em direita radical Cas Mudde. Caso seja seguida a recomendação da procuradora, “isto significa a total implosão de uma investigação de anos à Aurora Dourada, e põe em causa todo o processo”, comentou, acrescentando que “os argumentos parecem duvidosos”.

A procuradora argumentou que se o assassínio – ocorrido há seis anos – tivesse sido ordenado pela liderança, não fazia sentido ter ocorrido num local público. Roupakias, acompanhado de um grupo de 15 a 25 homens, esperou que Fyssas saísse de um café em Atenas, e esfaqueou-o.

A morte levou a uma investigação enorme ao partido e às suas acções violentas, que culminou neste processo, que se arrasta há mais de cinco anos.

“Quanto mais teremos de aguentar?” reagiu a mãe do rapper assassinado, Magda Fyssas, depois de ouvir a procuradora. “Estão a ilibar os criminosos.”

"Atacar todos os paquistaneses que encontrasse"

O líder do partido, Nikos Michaloliakos, chegou a dizer que aceitava a “responsabilidade política” do assassínio, “mas não há responsabilidade criminal” para a Aurora Dourada, argumentou na altura.

A acusação apresentou como provas uma série de telefonemas em sequência do assassino confesso para um líder local da Aurora Dourada, deste para uma espécie de comandante, e por fim deste para o próprio Michaloliakos.

O investigador grego de extrema-direita Ioannis Kolovos antecipou potenciais efeitos na política grega da declaração da procuradora: caindo a acusação de organização criminosa, o Aurora Dourada poderá reaver os fundos estatais suspensos desde 2013.

O partido foi derrotado nas últimas legislativas, não conseguindo ultrapassar a barreira dos 3% necessária para representação parlamentar. Mas, se o caso judicial desabar, poderá aproveitar os fundos e o vazio dos votos nacionalistas que este ano escolheram a Nova Democracia, de direita, por esta expressar oposição ao acordo entre a Grécia e a Macedónia (uma traição para muitos nacionalistas gregos, para quem Macedónia é uma região da Grécia e por isso não pode incluir o nome do pais vizinho), e poderão abandonar os conservadores e passar para a extrema-direita.

A Aurora Dourada entrou pela primeira vez no Parlamento grego nas legislativas de 2012, impulsionada pela crise económica – na altura da abertura da investigação, sob o Governo de Antonis Samaras (Nova Democracia), era o terceiro maior partido do Parlamento grego a seguir à Nova Democracia e ao Syriza. A morte de Fyssas marcou um período de ataques graves contra gregos – antes, os alvos eram sobretudo refugiados e migrantes.

Testemunhos de dois antigos membros falam de uma estrutura muito organizada e coordenada, com lideranças fortes, treino paramilitar e ataques programados. “Participei em várias acções com 40 ou 60 motorizadas, com duas pessoas cada. O que ia atrás levava um bastão com a bandeira grega e atacava todos os paquistaneses que encontrasse”, contou um dos dois ex-membros em 2013.