CDU foi mais forte onde há menos desemprego e mais crime – e o Chega roubou-lhe eleitores

O aumento da abstenção, a pulverização partidária e o envelhecimento da população estão a levar à erosão do eleitorado comunista e ecologista. O que nos dizem as estatísticas?

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Passou de 17 para 12 deputados, mas para onde foram os 115 mil votos que a CDU perdeu entre as legislativas de 2015 e as da passada semana? Para o PAN, o PS e para o Chega. Se há quem diga que os (quase) extremos se tocam, este é o exemplo. E se esse pode parecer um dado surpreendente, então há mais alguns interessantes sobre os concelhos onde a CDU obteve os seus melhores resultados: têm menos desempregados do que a média do país, o poder de compra é superior à média nacional, a taxa de criminalidade é maior e há mais imigrantes. E ainda uma confirmação sobre idosos: sim, onde a CDU tem mais votos a percentagem de maiores de 65 anos é mais alta que a média nacional - mas o CDS e o PSD conseguem ultrapassá-la.

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Passou de 17 para 12 deputados, mas para onde foram os 115 mil votos que a CDU perdeu entre as legislativas de 2015 e as da passada semana? Para o PAN, o PS e para o Chega. Se há quem diga que os (quase) extremos se tocam, este é o exemplo. E se esse pode parecer um dado surpreendente, então há mais alguns interessantes sobre os concelhos onde a CDU obteve os seus melhores resultados: têm menos desempregados do que a média do país, o poder de compra é superior à média nacional, a taxa de criminalidade é maior e há mais imigrantes. E ainda uma confirmação sobre idosos: sim, onde a CDU tem mais votos a percentagem de maiores de 65 anos é mais alta que a média nacional - mas o CDS e o PSD conseguem ultrapassá-la.

Ao relacionar os dados da votação de dia 6 dos vários partidos e os de há quatro anos, percebe-se que nos concelhos onde a CDU teve melhor votação em 2015 foi onde o partido liderado por André Ventura agora também recolheu mais votos. Além disso, a coligação entre o PCP, o PEV e a ID foi mais forte em concelhos onde a taxa de desemprego é menor do que a média nacional mas onde a criminalidade é mais elevada. Estes são alguns traços de um retrato possível de fazer com a ajuda do portal EyeData, uma parceria da Social DataLab com a agência Lusa que cruza informação de várias bases estatísticas.

A maior implantação da CDU, ou seja, o terço dos concelhos onde teve melhor votação, situa-se essencialmente no Alentejo, na zona do barlavento algarvio, e nos distritos de Lisboa e Santarém. Os únicos concelhos onde venceu foram Mora (Évora) e Avis (Portalegre), mas a olhar por cima do ombro para o PS que subiu a votação em ambos. Entre as duas eleições a CDU não alterou a sua influência geográfica – apenas a reduziu.

O apelo das políticas laborais

De acordo com o EyeData, os concelhos onde o Chega teve melhor votação foram, na sua larga maioria, os mesmos onde em 2015 a CDU tinha tido melhores resultados e onde assim continua. Esta é uma tendência internacional: em França, Marine Le Pen conquistou eleitorado à esquerda, em terreno tradicionalmente comunista, nas periferias e cinturas industriais afectadas pela crise, ao usar o mesmo discurso de reivindicação de políticas e direitos sociais como as 35 horas semanais, a reforma aos 60 anos e o aumento dos salários mais baixos, como apontou Pascal Perrineau, académico da Sciences Po (Paris), no livro Esta França de esquerda que vota Frente Nacional.

Embora admita que esta explicação tem feito escola em vários países, sobre Portugal o politólogo António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais, é mais cauteloso e vai avisando que a escala de votos do Chega “ainda é muito pequena para uma análise profunda”, até porque foi uma estreia em legislativas. Mas é normal que sejam dois partidos que “convivam” em zonas do Alentejo ou da cintura industrial, com o Chega a capitalizar junto do eleitorado que votava PNR ou no resto da direita. Sobre a CDU, Costa Pinto realça que a “erosão progressiva do eleitorado” não é de agora e que ela tenderá a agudizar-se com a perda dos “bastiões do poder local, que são fundamentais para manter eleitorado”, que têm ido para o PS, ou com o aumento da abstenção.

Olhando para outros indicadores, a coligação de esquerda, que assenta o discurso na defesa dos trabalhadores e aumento de salários, acaba por ter mais votos em concelhos onde o poder de compra per capita é 14,2% superior à média nacional, o ganho médio dos trabalhadores por conta de outrem é também mais alto (1269,7 euros em comparação com a média nacional de 1108,56), e a disparidade salarial entre homens e mulheres assim como entre profissões (ou seja, com maiores desigualdades) é também mais elevada que no total do país. E é também nos concelhos em que tem melhor votação que há mais trabalhadores imigrantes e o volume de negócios das empresas de todos os sectores (agrícola, industrial e comércio e serviços) é mais alto do que a média nacional. Assim como há mais reformados e beneficiários de apoios como o rendimento mínimo garantido e rendimento social de inserção.

A bandeira das creches para todas as crianças faz sentido no discurso comunista quando se percebe que onde a CDU é mais votada, há 8% menos oferta de pré-escolar, de escolas básicas e secundárias que a média nacional e a taxa de retenção no ensino básico é um quinto mais elevada.

Discurso ecologista não pegou nas zonas dos incêndios

Para além de a aposta na ecologista Heloísa Apolónia para o distrito de Leiria se ter revelado gorada – a CDU teve ali menos 2500 votos do que em 2015 (12.181) -, a verdade é que a coligação também não esteve bem nos concelhos afectados por incêndios nos últimos anos. Os melhores resultados da CDU foram conseguidos em zonas com baixo grau de área ardida (de 1,3%, quando comparada com a média nacional de 6,6%), o que deixa perceber que a mensagem ecologista contra o eucalipto não surtiu efeito nas zonas atingidas pelos incêndios. Apesar disso,

No Algarve, a troca de protagonista a pedido de Paulo Sá (que reconquistara um deputado para a CDU em 2011, mas agora queria voltar à vida académica) por Tiago Raposo, revelou-se infrutífera. A coligação acabou por perder o lugar de deputado, mas a culpa terá sido de um aumento enorme da abstenção: houve mais 25 mil pessoas que não foram votar do que em 2015.

Já em Braga, a CDU perdeu seis mil votos, os brancos e nulos aumentaram outro tanto, e o CDS, ao concorrer sozinho, roubou-lhe o quarto lugar de partido mais votado e o deputado – Carla Cruz não regressa, por isso, ao Parlamento. No Porto, a pulverização de partidos (foram mais seis que em 2015) e o aumento da abstenção representou uma machadada de 20.700 votos na CDU, que perdeu um dos três deputados que ali tinha. A explicação para perda de um deputado por Lisboa é igual, com um cenário ainda pior para a coligação de comunistas e ecologistas em termos de votos. E em Setúbal, a CDU tornou-se a segunda força mais votada ultrapassando o PSD, mas perdeu 17 mil votos e um deputado.