Pessoas de classe social mais alta pensam “exageradamente” que são melhores que as outras

Concluiu-se que o excesso de confiança nas pessoas de classe social mais alta tende a ser confundido com as suas verdadeiras capacidades.

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Investigação envolveu mais de mais de 152 mil participantes Pixabay

Cientistas dos Estados Unidos e de Singapura realizaram uma investigação dividida em quatro estudos e com mais de 152 mil participantes que não deixou grandes dúvidas: em geral, as pessoas de classe social mais alta tendem a pensar que são mais competentes do que as de outra classe social mais baixa. Por que é que isto acontece? Devido ao seu excesso de confiança. Dessa forma, aos olhos dos outros, essa confiança excessiva pode ser confundida com as suas verdadeiras capacidades e competência. A entrevista de emprego é uma das situações analisadas neste trabalho. 

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Cientistas dos Estados Unidos e de Singapura realizaram uma investigação dividida em quatro estudos e com mais de 152 mil participantes que não deixou grandes dúvidas: em geral, as pessoas de classe social mais alta tendem a pensar que são mais competentes do que as de outra classe social mais baixa. Por que é que isto acontece? Devido ao seu excesso de confiança. Dessa forma, aos olhos dos outros, essa confiança excessiva pode ser confundida com as suas verdadeiras capacidades e competência. A entrevista de emprego é uma das situações analisadas neste trabalho. 

“Compreender como as desigualdades socioeconómicas se perpetuam é uma preocupação central entre os psicólogos sociais e organizacionais”, lê-se no início do artigo científico publicado na revista Journal of Personality and Social Psychology, da Associação Americana de Psicologia. No caso desta equipa, pretendia conhecer-se melhor a ligação da classe social ao excesso de confiança e de como isso influencia a percepção das outras pessoas.

Para tal, uma equipa de cientistas liderada por Peter Belmi (da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos) fez quatro experiências com mais de 152 mil participantes do México e dos Estados Unidos, como pequenos empresários e estudantes universitários.

A maior experiência envolveu mais de 150 mil pequenos empresários no México que estavam a pedir um empréstimo. Para determinar a sua classe social, obteve-se informação sobre os seus rendimentos, nível de escolaridade e a percepção que tinham da sua posição na sociedade. Quanto à sua avaliação psicológica, fez-se um teste cognitivo em que se mostrou aos participantes um cartão com uma imagem que depois era substituída por outra. Tudo o que os pequenos empresários tinham de fazer era indicar se a segunda imagem correspondia à primeira. Ao fim de 20 tentativas, os participantes avaliaram a sua prestação numa escala de um a 100.

Resultado: quando se comparou a pontuação desse teste com a avaliação atribuída pelos participantes, verificou-se que as pessoas com um maior nível de educação, maior rendimento e que acham que estão numa classe social mais alta pensavam “exageradamente” que tinham tido um desempenho melhor do que as pessoas de uma classe social mais baixa. De forma geral, essas pessoas até tiveram um desempenho melhor do que as outras, mas não ao nível em que se tinham auto-avaliado.

Numa segunda e terceira experiência, avaliou-se a relação entre a classe social e o excesso de confiança. “A relação entre a classe social e o excesso de confiança foi robusta”, assinala-se no artigo sobre a segunda experiência.

Já na terceira, cerca de 1400 participantes online participaram num questionário. Novamente, verificou-se que as pessoas de uma classe social mais alta pensavam que tinham tido um desempenho superior ao das pessoas de uma classe social mais baixa. “Quando os investigadores analisaram os desempenhos, viram que não era assim”, lê-se no comunicado da Associação Americana de Psicologia.

Na quarta experiência, 236 estudantes da Universidade da Virgínia foram questionados sobre a sua classe social, os rendimentos da sua família e o nível de escolaridade dos seus pais. Depois, responderam a uma pergunta de um questionário e analisaram o seu desempenho.

Não terminou aqui esta última experiência: uma semana mais tarde, filmou-se no laboratório a simulação de uma entrevista de emprego que foi analisada por 900 avaliadores recrutados na Internet. Esses avaliadores tinham de classificar a impressão com que ficaram da competência dos participantes. Já sem surpresa, os participantes de uma classe social mais alta tendiam a ter excesso de confiança. Além disso, os avaliadores foram iludidos por essa confiança excessiva. Ou seja, atribuíram maior competência a essas pessoas, mesmo que não fossem necessariamente as mais competentes.

Uma tendência humana natural

“As pessoas de uma classe social relativamente alta têm mais excesso de confiança, o que, por sua vez, está associado à percepção de que são mais competentes e, em último caso, acabam por ser as escolhidas [por exemplo, numa entrevista de emprego], mesmo que, em média, não tenham um desempenho melhor nos testes do que as pessoas de uma classe social mais baixa”, resume no comunicado Peter Belmi.

“Com esta investigação, temos agora uma razão para pensar que quem vem de uma classe social mais alta tem mais uma vantagem”, considerou ao jornal The New York Times Jessica Kennedy, professora de Gestão na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, e que não participou neste estudo. Já Rebecca Carey – que também não fez parte do estudo e investiga as classes sociais na Universidade do Noroeste, nos Estados Unidos – não ficou muito convencida sobre se a simulação da entrevista traduz o que se passa na vida real. Quanto à primeira experiência, considera que foi atribuído demasiado peso à percepção que os participantes têm da sua classe social. “O que este estudo nos mostra consistentemente é que a classe social está ligada ao excesso de confiança”, destacou, acrescentando que outros estudos já tinham tido resultados semelhantes.

 “Os nossos resultados sugerem que encontrar soluções para mitigar as desigualdades sociais pode exigir que se tome atenção a tendências humanas subtis e aparentemente inócuas”, avisa Peter Belmi. “Essas desigualdades continuarão a perpetuar-se se as pessoas não corrigirem as suas tendências humanas naturais para associar a aparente confiança às verdadeiras capacidades.”

Afinal, como se conclui no artigo científico, “um olhar rápido pela sociedade actual sugere que estamos longe de alcançar uma verdadeira meritocracia”.