Ainda vamos a tempo de salvar o ensino público?

O que aconteceu numa escola na Rua da Torrinha, no Porto, foi um ataque brutal não apenas à Lígia, mas, também ao ensino público, a todos os professores, auxiliares e demais colaboradores. Um ataque ao respeito, às hierarquias, ao mérito moral.

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Daniel Rocha

Há muito que tinha deixado de brincar com as palavras. Mas a vida é quem mais ordena e há situações que nos mecanizam e devoram os dedos no teclado, à velocidade da raiva e da necessidade de justiça, numa noite de insónias.

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Há muito que tinha deixado de brincar com as palavras. Mas a vida é quem mais ordena e há situações que nos mecanizam e devoram os dedos no teclado, à velocidade da raiva e da necessidade de justiça, numa noite de insónias.

“Professora barbaramente agredida por mãe de aluno.” Repugnou-me quando li estas gordas. Foi visceral e intuitivo. Repugna-me a displicência com que, nos nossos dias, pais e encarregados de educação opinam, sem conhecimento de causa, sobre a vida escolar dos filhos, na maioria das vezes, atacando os professores.

Quando eu pisava o palco escolar, temíamos os docentes, num medo educado e corroborado pelos nossos pais, em caso de termos um dia menos bom e com percalços pedagógicos. Hoje, a realidade educativa inverteu-se. O fato do malfeitor serve agora ao professor, sob o lema da criança “coitadinha”, vítima da ignorante sapiência, sob o mote “O meu filho é melhor do que o teu”. São várias as esperas e as ofensas de que os professores são alvo. Os pais são agora os encarregados da “deseducação”. Felizmente, muitos desses ataques não passam da teoria à prática. Não foi este o caso.

Atacaram, violentamente, alguém que ama ensinar. Ama partilhar, não apenas o conhecimento memorizado e mecanizado dos manuais escolares, mas, sobretudo, partilhar a vida, os valores, a qualidade do ser humano; partilhar e descobrir o melhor de cada aluno, sem rankings ou notas altas como pano de fundo e meta final.

A Lígia Pinto — que conheço há anos — é professora do primeiro ciclo por escolha e por vocação. É dedicada e preocupada com os alunos, como todos os professores deveriam ser. A Lígia foi barbaramente agredida à porta da escola onde trabalha pela mãe de um aluno. Nenhum professor merece ser tratado assim. Sei que isto não fará esmorecer o empenho da Lígia, porque lhe conheço a força, mas hoje não podia deixar de lhe dedicar estas palavras de lamento e de alento.

O que aconteceu esta quarta-feira, 27 de Fevereiro, numa escola na Rua da Torrinha, no Porto, foi um ataque brutal não apenas à Lígia, mas, também ao ensino público, a todos os professores, auxiliares e demais colaboradores. Um ataque ao respeito, às hierarquias, ao mérito moral.

Numa época em que as disparidades sociais crescem, dia após dia, também nas salas de aula, públicas e privadas, cada vez mais desiguais e agrilhoadas, devemos proteger sempre a Educação. Não pela meritocracia das pautas nem dos números. Não pelas galas, onde os alegados bons alunos são premiados (sem recalcamentos, sempre fiz parte deste lote, mas, felizmente, numa altura em que as galas e os quadros de honra eram inexistentes), mas pela mentalidade e pela salvaguarda das futuras gerações. Do nosso futuro.

As nossas crianças não podem ser as melhores em tudo. Devem sim dar o seu melhor em tudo o que fazem. Sempre. Este é também o lema da professora Lígia. Senhores responsáveis, actuem, por favor. A impunidade não pode sair à rua. Não vale tudo nesta arena da vida.