Como é que uma criança se desenha a si própria? Depende de quem esteja a vê-la

Estudo com 175 crianças confirma que a forma como elas se desenham depende da autoridade e da familiaridade de quem as observa nesse momento.

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O grande desafio da equipa da psicóloga Esther Burkitt era perceber mais aprofundadamente como as crianças se desenham a si próprias conforme a pessoa que esteja observá-las. Depois de experiências com crianças dos oito aos nove anos, a cientista da Universidade de Chichester (no Reino Unido) percebeu que a expressividade nos desenhos depende da familiaridade e da autoridade da sua audiência. Publicados na revista científica British Journal of Developmental Psychology, estes resultados podem ser importantes para interpretar os desenhos infantis a nível clínico ou forense.

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O grande desafio da equipa da psicóloga Esther Burkitt era perceber mais aprofundadamente como as crianças se desenham a si próprias conforme a pessoa que esteja observá-las. Depois de experiências com crianças dos oito aos nove anos, a cientista da Universidade de Chichester (no Reino Unido) percebeu que a expressividade nos desenhos depende da familiaridade e da autoridade da sua audiência. Publicados na revista científica British Journal of Developmental Psychology, estes resultados podem ser importantes para interpretar os desenhos infantis a nível clínico ou forense.

Antes de iniciar este trabalho, Esther Burkitt já sabia que a expressividade (estratégias utilizadas pela pessoa para transmitir a sua disposição) reflectida nos desenhos das crianças varia conforme a sua audiência. “Elas mostram uma expressividade mais positiva para audiências familiares e adultas”, explica ao PÚBLICO a investigadora. Além disso, percepcionam a autoridade das pessoas conforme as suas funções profissionais.

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Desenho de uma rapariga que se representou feliz enquanto um polícia que conhecia a estava a observar DR

Tendo isso em conta, Esther Burkitt queria compreender melhor como a familiaridade e a autoridade afectavam o resultado dos desenhos das crianças. Para tal, pediu a 175 crianças (85 rapazes e 90 raparigas) entre os oito e os nove anos que fizessem desenhos de si próprios – um desenho neutro que servia de referência, outro onde se representavam felizes e por fim um outro em que estavam tristes. Estes participantes foram divididos em sete grupos: um que não teve audiência e nos restantes grupos as crianças foram observadas a desenhar sempre por pessoas do sexo masculino – por homens sem especificar a profissão, polícias e professores (uns que lhes eram familiares e outros não).

No geral, as crianças fizeram mais desenhos onde se mostravam felizes do que tristes e as raparigas foram mais expressivas do que os rapazes. E confirmou-se que a expressividade dos desenhos das crianças difere da familiaridade e das funções profissionais da audiência.

“Os resultados do estudo mostram que os desenhos das crianças sobre si próprias são mais expressivos se a audiência lhes é familiar enquanto estão a desenhar”, lê-se no comunicado da Universidade de Chichester. Além da familiaridade, viu-se que uma maior expressividade nos desenhos também dependia da profissão (e da autoridade que essa profissão representa para elas) de quem estava a vê-las. 

Isto é, as crianças fizeram desenhos mais expressivos para um homem e para um polícia que lhes eram familiares do que para um professor que não conheciam. Os desenhos também foram mais expressivos para um homem que lhes era familiar do que para um professor que conheciam. “Estes resultados podem estar relacionados com a diferente percepção das funções e da esfera de autoridade dos grupos profissionais”, lê-se no artigo científico.

Ajuda a comunicação verbal

Esther Burkitt destaca ainda os resultados nos grupos onde as crianças foram observadas por polícias. A expressividade negativa ou positiva tornou-se mais evidente tanto nos rapazes como nas raparigas perante a figura de autoridade de um polícia que não conheciam (caso dos rapazes) ou que conheciam (caso das raparigas): “Os rapazes desenharam uma expressão mais triste quando estavam a ser observados por polícias que não lhes eram familiares, enquanto as raparigas desenharam expressões mais felizes quando os polícias lhes eram familiares”, refere a cientista.

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Desenho de uma rapariga que se representou triste enquanto um polícia que não conhecia a estava a observar DR

A equipa, que inclui ainda cientistas da Universidade de Londres, já avançou algumas justificações para isto ter acontecido: por exemplo, referem que os rapazes poderão ter consciência de que lidar com informação negativa é uma função crucial na função de um polícia. Contudo, os cientistas querem estudar melhor as razões deste resultado num futuro estudo. A equipa quer ainda reproduzir este estudo noutras interacções, como entre um médico e a criança.

Afinal, em situações terapêuticas, educacionais, forenses e clínicas estes estudos poderão ser importantes para ajudar os profissionais a entender como as crianças estão a sentir-se. “Estes resultados têm implicações para o uso dos desenhos das crianças por profissionais e podem ajudar a melhorar a comunicação verbal”, assinalada Esther Burkitt. “Estar consciente de que as crianças podem desenhar emoções diferentes para diferentes grupos profissionais poderá ajudar os profissionais a compreender melhor o que as crianças estão a sentir sobre os temas que estão a desenhar. Essa consciência pode servir de base para uma conversa com a criança sobre a razão de ter desenhado certa informação para certas pessoas.”