Projecto turístico e de habitação ocupa antigo Hospital da Marinha

Edifício que o Estado vendeu há dois anos por 18 milhões de euros vai ter obras promovidas por uma empresa imobiliária francesa.

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O antigo Hospital da Marinha, no Campo de Santa Clara, em Lisboa, vai ser transformado num complexo de hotelaria, habitação e comércio. O projecto prevê a reabilitação e alteração do velho edifício e a construção de novos prédios, dando origem a 100 apartamentos.

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O antigo Hospital da Marinha, no Campo de Santa Clara, em Lisboa, vai ser transformado num complexo de hotelaria, habitação e comércio. O projecto prevê a reabilitação e alteração do velho edifício e a construção de novos prédios, dando origem a 100 apartamentos.

O hospital funcionou naquele local, paredes meias com o Panteão Nacional e a Feira da Ladra, durante mais de 200 anos, até o Estado o vender, em 2016, por 17,9 milhões de euros. O imóvel pertence agora à Stone Capital, empresa dos irmãos franceses Arthur e Geoffroy Moreno, que tem inúmeros projectos imobiliários de luxo em Lisboa, Cascais e Comporta.

O projecto do arquitecto Samuel Torres de Carvalho (responsável, por exemplo, pelas obras no Palácio de Santa Helena, não muito longe do antigo hospital) foi “aprovado em 30 de Maio de 2018 e encontra-se em fase de conclusão dos projectos das especialidades”, disse fonte oficial da Stone ao PÚBLICO. No site da empresa é possível ver uma fotomontagem de como será o complexo depois das obras: vegetação luxuriante em redor dos edifícios, pelo menos três blocos construídos de raiz, mudanças na cobertura do velho prédio hospitalar.

“A ideia que orientou a elaboração do projecto foi principalmente a possibilidade de reabilitar e  refuncionalizar um edifício interessante em termos arquitectónicos e históricos, que foi objecto de forte descaracterização ao longo dos anos”, explicou a mesma fonte. A empresa garante que manterá a superfície de pavimento (cerca de 4533 metros quadrados) através da “demolição de todos os anexos e acrescentos dissonantes existentes no logradouro”. “A nova construção resulta da substituição dessas construções por outras, com libertação de uma extensa área de jardim 100% permeável”, acrescenta.

O edifício em que funcionou o hospital, aberto em 1806 e encerrado definitivamente em 2015, tem perto de 15 mil metros quadrados e sete pisos. Tem entrada pelo Campo de Santa Clara e uma extensa frente para a Rua do Paraíso, mas só se percebe a sua verdadeira dimensão descendo a Calçada do Cardeal. Nas traseiras do imóvel oitocentista, de onde se vê Santa Apolónia, o Tejo e o Terminal de Cruzeiros, foram construídos vários corpos no século XX que a Stone quer agora demolir e transformar em jardim e novas construções. Ao contrário das existentes, estas terão altura semelhante aos prédios em redor, pelo que certamente roubarão vistas aos moradores da Rua do Paraíso.

“O projecto prevê usos mistos de hotelaria, comércio e habitação, sendo esta distribuída por tipologias que podem variar entre os T1 e os T6, aptas a atrair famílias nacionais e estrangeiras que se queiram instalar com carácter permanente”, explica ainda a empresa.

O Estado vendeu o edifício em 2016 por um valor 50% superior ao da base de licitação, que era de 12 milhões de euros. No mesmo leilão, a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF) tentou vender um total de 19 imóveis estatais, mas apenas quatro foram arrematados. Nesse ano, as transacções imobiliárias realizadas só por esta direcção-geral renderam quase 47 milhões de euros aos cofres estatais.

Recentemente, a DGTF levou à praça nove prédios do Centro Hospitalar de Lisboa Central e três foram vendidos. O assunto gerou algum debate em Lisboa, pois pôs em evidência uma aparente contradição entre este leilão – realizado a preços de um mercado muito quente – e o objectivo, anunciado pelo Governo, de ter mais habitação pública, a preços acessíveis, no mercado de arrendamento.

Fernando Medina, presidente da câmara, não se coibiu de criticar publicamente o Governo por não ter sido contactado para que os prédios entrassem no lote de habitações do Programa de Renda Acessível. Ao mesmo tempo, a oposição pressionava-o a fazer licitações pelos imóveis. Falhada a venda da maioria deles, é provável que o tema volte à agenda política e mediática muito brevemente.