ENTREVISTA

Carlos Carreiras: "Até hoje, nunca falei com o líder do partido"

O presidente da Câmara de Cascais não deixou passar em branco a “ausência” do líder do PSD durante as férias e fez um alerta público. A Rui Rio pede agora mais combatividade para fora do partido porque, frisa, para ganhar, o PSD não pode agir, excluindo”.
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Daniel Rocha

Segunda parte da entrevista a Carlos Carreiras: o problema da descentralização é “o Governo do PS estar refém do PCP e do BE”

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A política, como a conhecemos até aqui, mudou. As maiorias absolutas são coisa do passado e os partidos contam menos do que os blocos. Por isso, o PSD tem de trabalhar para liderar o bloco da direita. É a tese de Carlos Carreiras, o presidente da Câmara de Cascais que foi vice-presidente de Pedro Passos Coelho e seu coordenador autárquico.

Há umas semanas, já Agosto ia a mais de meio e Rui Rio continuava de férias, escreveu no jornal i: “Onde anda o PSD, o seu líder e os seus vice-presidentes? Emigraram, já deitaram definitivamente a toalha ao tapete e apenas criticam e fazem oposição aos anteriores dirigentes do PSD?”. Na sexta-feira, depois de Rio ter desafiado os críticos a deixarem o partido voltou à carga, denunciando “mais um pontapé em muitos companheiros de partido”.

Ao PÚBLICO, o autarca, com 57 anos, diz que o PSD, se quer ser “o factor mobilizador e de liderança” de um “bloco de centro e de centro-direita não pode agir excluindo”.

O PSD fez bem em recentrar-se, colocando-se mais perto do PS?
A meu ver não precisa de se recentrar, nem de se esquerdizar, nem de se endireitar. O PSD tem o seu espaço que não se alterou. Nós tivemos a crise provocada pelo PS e o empobrecimento do país a um ponto de estarmos a abrir bancarrota e de termos de ir pedir dinheiro emprestado. Os socialistas foram pedir dinheiro emprestado, negociaram as imposições com a famosa troika e depois foi o PSD que teve de aplicar a carta negociada. E essa carta era dura. 

O PSD nunca se mostrou desagradado com essa função...
Era uma questão de responsabilidade. Hoje parece que foi há muito tempo e que foi tudo fácil, mas os nossos financiadores não disseram “tomem lá o dinheiro e gastem à vontade”. Disseram: “têm de aplicar estas medidas para receberem a próxima tranche”. Não era uma questão de estarmos a gostar muito. Não há nenhum político de esquerda, de direita, de centro, que goste de aplicar medidas que são duras para o povo que representa. Todos nos lembramos de um grande líder socialista que também teve de ser governo num momento de ajuda externa, Mário Soares, e que disse: “meus amigos, temos de pôr o socialismo na gaveta”. 

Durante o período da troika Passos Coelho pôs a social-democracia na gaveta?
Se a base principal da social-democracia é criarmos os mecanismos de geração de riqueza para a podermos distribuir pelos mais fragilizados e menos favorecidos, é verdade que, na altura, Portugal não gerava riqueza, antes pelo contrário, gerava pobreza. A preocupação do PSD teve, e que Pedro Passos Coelho teve, foi de que o impacto dessas medidas fosse menor nas classes mais frágeis e obviamente teve de ser maior - usando agora uma terminologia comunista - nas classes dominantes. Não sei se é pôr na gaveta ou não pôr na gaveta… Não acredito que alguma vez Mário Soares tenha posto o socialismo na gaveta. O que ele quis transmitir com essa frase foi que não estava em condições de poder aplicar aquilo em que acreditava.

Como define o estilo de liderança de Rui Rio?
Há traços muito comuns entre Rui Rio e Pedro Passos Coelho. São ambos homens de uma honorabilidade a toda a prova, têm valores éticos e morais muito fortes e isso é bom num líder, sobretudo em momentos como o que estamos a atravessar. Mas tem um estilo que eu pessoalmente não acompanho.

A que é que se está a referir?
Há uma questão que todos devemos ter em conta. Esta solução de Governo veio provocar o seguinte: não é a candidatura que ganha as eleições que necessariamente governa. Acabou com o voto útil. Cada bloco tem de valer no seu conjunto. Nem o PS lidera sozinho, precisa do PCP e do BE, ou pelo menos de um deles, para poder aspirar a ser governo, como o PSD também não voltará a liderar sozinho. Precisará de outros partidos dentro da sua área de intervenção para formar governo. O que esta solução de governo veio mostrar é que a escolha, mais do que entre partidos, vai ser entre blocos. O que cria a necessidade de, dentro de cada bloco, haver partidos que se afirmem para o liderar.

Um bloco à esquerda e outro à direita?
Prefiro dizer ao centro, centro-direita. O PSD é o partido que está em melhores condições para liderar esse bloco. Mas vai precisar do esforço de outros partidos para que o bloco tenha a maior votação e o maior número de deputados. Isso acontece se o PSD for capaz de apresentar um projecto mobilizador, em que as pessoas entendam quais os confrontos ideológicos que estão em cima da mesa e as consequências que têm na sua vida. Mas para ser esse factor mobilizador e de liderança, o PSD não pode agir, excluindo.

O líder do PSD está a excluir?
Senti necessidade de fazer um alerta no mês de Agosto porque achei que o PSD tinha de deixar de se preocupar com o interior do partido, deixar de pôr em causa os militantes e antigos dirigentes do PSD, e afirmar-se como oposição mais aguerrida. Não acho que o líder seja favorável ao Bloco Central, mas que deu sinais errados, isso deu... O PSD tem de recuperar.

Quando falava do estilo com que não se identificava era esse "amolecimento" em relação ao PS?
Hoje não podemos ser amorfos. Se há coisa que é conhecida em Rui Rio é a sua capacidade combativa e afirmativa. Se essa capacidade diverge para dentro do partido e para fora, está a perder forças para o que é verdadeiramente essencial.

O que espera da intervenção do líder no encerramento da Universidade de Verão do PSD?
Espero que se comece a construir a demonstração de que o PSD tem um projecto mobilizador, distintivo deste bloco das esquerdas, e que é capaz de ser um partido liderante dentro do bloco em que se integra.

Sem se deixar ofuscar pelo CDS e Assunção Cristas?
Não, não. Não vejo isso. Esse é o erro que o PSD não pode cometer. É óbvio que quer o CDS quer outras forças político-partidárias devem fazer tudo para afirmarem as suas ideias e o seu projecto. O nosso concorrente não é o CDS. Temos de fazer pela vidinha. O CDS fará o caminho dele. Todos farão pelo seu. E no fim, o bloco em que nós nos integramos tem de ter um maior número de deputados que o bloco das esquerdas. E o PSD, nesse bloco, tem de ser o partido liderante.

A que é que atribui a descida do PSD nas sondagens?
Nunca há uma resposta com segurança e simples. Sempre entendi as sondagens como uma indicação de tendência. Há ali uma tendência que é preocupante. Continuo a acreditar que nada está perdido. Vi com bons olhos as afirmações, não só do líder do partido, mas de outros vice-presidentes, a dizer: “nós queremos ganhar as eleições”. Mas não basta. Porque ou ganha com maioria absoluta, o que é irrealista...

Que cruel!
Seria de uma injustiça atroz estar a pedir isso ao líder do PSD. 

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Está a dizer que Rui Rio não consegue?
Não acredito que o próprio líder tenha essa expectativa. É preciso perceber que muita coisa mudou. O próprio espectro partidário português mudou.

Mas o PS está à beira da maioria absoluta em algumas sondagens...
Vamos ver. Não acredito que nos próximos largos anos haja um partido em condições de por si só ter maioria absoluta. Mas tem de lutar para que o bloco em que se integra tenh o maior número de votos.

Apareceu recentemente ao lado de Santana Lopes, que acabou de sair do PSD...
O almoço foi por uma razão pessoal minha, por ocasião do falecimento do meu pai. Ele quis que estivéssemos juntos, o que, obviamente, aprecio. Mas não sou inocente ao ponto de querer enganar alguém, dizendo que nesse almoço não se falou de política. O que tenho a dizer sobre a iniciativa de Santana Lopes é que sou PSD, continuarei PSD, não o acompanharei nessa aventura. Consigo compreender algumas razões. 

Acha que ele pode ter um papel no futuro da política? 
Ainda não sabemos. Ainda não foi a votos. Algum terá. Em muitos distritos seria uma grande ilusão pensar que podia eleger deputados, mas nos grandes círculos pode vir a ter deputados que serão absolutamente necessários para engrossar os deputados do CDS e do PSD e para construir uma alternativa de centro.

Havia razão para Pedro Duarte ter avançado?
Aqui tenho de fazer uma declaração de interesses: eu não sou candidato a nada a não ser a presidente da Câmara de Cascais nas próximas eleições.

Não é dos que querem um lugarzinho?
Não quero um lugarzinho. Tenho um lugarzão. A política, para mim, resume-se a Cascais, que me dá um enorme gozo, um enorme prazer e é nessa perspectiva que eu estou. Mas há toda uma nova geração que se quer afirmar e isso é legítimo.

É o autarca mais importante do PSD...
Espero ser o mais importante para os cascalenses. Mas, sim, Cascais é o maior município no país liderado pelo PSD e pelo CDS.

Exactamente, e sendo o autarca mais importante do PSD, quantas vezes Rui Rio já lhe ligou?
Até hoje, nunca falei com o líder do partido. Não foi só agora desde que ele é líder. Não nos conhecemos. Não valorizo isso.

O antigo líder não lhe ligava?
Mas estamos a falar de coisas completamente diferentes. Eu fazia parte da direcção nacional do partido. 

Não lhe ligava por questões autárquicas?
Sim, tinha uma participação mais efectiva.

Rui Rio convence o eleitorado do PSD? 
Espero bem que sim. Tenho uma forte convicção de que o PSD é um partido absolutamente necessário ao actual regime democrático. Se o PSD se fragilizar, põe em causa o próprio regime tal como o conhecemos.

Convence-o a si? Ou seja, em 2019 vai votar em Rui Rio ou espera que até lá muita coisa mude?
Não tenho a mínima dúvida de que em 2019 voto PSD. A questão aqui é que o PSD não pode arriscar ter um resultado tão fraco que lhe impossibilite duas coisas: que os deputados eleitos pelo partido, agregados aos eleitos por outras forças do nosso espaço político não sejam maioritários, e não pode arriscar não ser o partido liderante dentro do seu bloco.