Opinião

Uma facada não pode condenar um Estado

O capitão diz ao que vem: instaurar um Estado-polícia, fomentar a divisão entre os seus compatriotas, acabar por aumentar ainda mais o fosso num dos países mais desequilibrados do mundo em termos de rendimento, repor a tortura, incentivar o racismo, a xenofobia, a misoginia e a homofobia.

Declaração de princípios: já aqui no PÚBLICO escrevi um artigo de opinião intitulado “Quando um Bolsonaro bolça”, em que procurei demonstrar que a eleição deste militar na reserva é o pior que poderia acontecer ao Brasil e que as posições que ao longo de décadas vem defendendo perigam os alicerces mais básicos de um Estado de Direito democrático.

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Volto ao tema em virtude ao ataque de que foi alvo. Qualquer agressão contra a integridade física de um ser humano merece o mais vivo repúdio, que deixo sublinhado a traço grosso. A democracia é um regime político que deve lidar com a diferença de opinião por meios pacíficos, por mais abjectas que sejam as propostas de um candidato. E as de Bolsonaro são-no em todo o seu esplendor.

É ainda cedo para perceber o total alcance deste crime no resultado do acto eleitoral. Mais grave ainda, porque cometido contra alguém supostamente em virtude das suas ideias, por mais que discordemos delas. E eu não poderia estar mais nos antípodas daquilo que Bolsonaro representa. Basta pensar, entre nós, na agressão de que Soares foi vítima na Marinha Grande, ou, menos graves, as que tiveram por ofendido Francisco Assis, em Felgueiras, para percebermos que, em regra, existe uma natural e saudável onda de indignação contra tais actos. É sinal que as estruturas societais ainda estão providas de alguns valores. Logo foram veiculadas teorias da conspiração, no sentido em que Bolsonaro ou alguém dele próximo teria orquestrado este vil ataque e que os ferimentos não seriam tão graves como se pretende fazer crer. Os filhos do candidato clamaram vitória, no que me parece ser uma grave falha de leitura política. O candidato de extrema-direita não está eleito, mas, em regra, eventos deste tipo beneficiam o agredido. Poderá haver eleitores mais desatentos que pensem que se algo deste jaez aconteceu, então é porque Bolsonaro pretende afrontar interesses instalados e, por isso, merece o apoio popular. Lei e ordem, ordem e progresso: eis o que o candidato propõe.

Pensaram alguns: se o Estado não foi capaz de garantir sequer a sua integridade, então terá razão o capitão ao defender a tortura, a elevação das penas, enfim, um verdadeiro punitive turn num país-continente em deriva há décadas. Aqui reside o perigo da vitimização, que já aconteceu com a força dos mass media, cobrindo – como é natural – a declaração de Bolsonaro, debilitado, na cama de um hospital. Só uma investigação rigorosa permitirá compreender com que motivações actuou o criminoso; se ele é efectivamente uma pessoa com distúrbios mentais, como é aventado, ou se também o é, mas ao serviço de um mandante, politicamente engajado.

Todo o cuidado é pouco do lado da oposição a Bolsonaro. Bem estiveram todas as candidaturas ao condenar sem tergiversações o ataque e ao suspenderem as acções de campanha. Seja como for, o resultado que nos surge mais imediato e intuitivo é que a facada poderá ser um trampolim para uma vitória, quiçá logo à primeira volta. Quando escrevi o artigo que já citei, logo vários amigos me disseram que o extremista não tinha hipóteses de ganhar. Lembrei que se dizia o mesmo de Trump e, na verdade, entre os dois, “venha o diabo e escolha”, sendo certo que me parece que, apesar de se tratarem de dois regimes presidencialistas, o brasileiro não está dotado de tantos checks and balances quanto o norte-americano, o que torna um eventual Bolsonaro Presidente ainda mais perigoso. A reedição da Ditadura Militar, mesmo com mais diáfanas vestes, pode estar ao virar da esquina.

Daí que apele a todas e a todos os eleitores brasileiros para votarem com a razão e não com o coração. O capitão diz ao que vem: instaurar um Estado-polícia, fomentar a divisão entre os seus compatriotas, acabar por aumentar ainda mais o fosso num dos países mais desequilibrados do mundo em termos de rendimento, repor a tortura, incentivar o racismo, a xenofobia, a misoginia e a homofobia. Uma sociedade à semelhança de uma doutrina católica medieval, onde nem mesmo a Igreja já se revê. Um apelo a Deus e a indicação de que Bolsonaro é o D. Sebastião brasileiro, que não reaparece a cavalo por entre o nevoeiro, mas preparado a um plano de acção que venda uma aparência de ordem e segurança a custo das mais elementares liberdades cívicas e direitos fundamentais.

Esta facada não pode alterar o rumo daqueles que pretendem um Brasil democrático, sem retrocesso civilizacional profundo no concerto das nações. É isso que, como português e estimando um país amigo, desejo para as enormes Terras de Vera-Cruz que, se bem geridas, podiam e deviam ser um dos maiores colossos económicos, sociais e culturais do globo. A facada foi dada no coração da democracia, no natural jogo de opiniões divergentes. Mas não se tome a árvore pela floresta. Bolsonaro não passou a ser uma vítima, mas prepara-se, se eleito, por fazer muitas vítimas e, não tenho dúvidas, todas ou quase todas provirão das classes mais desfavorecidas.

Há momentos críticos na história de um Estado. Este é um deles. Apelo a todos os democratas brasileiros para que não deixem que este crime desvie a atenção do essencial: as concepções político-ideológicas de Bolsonaro que, em meu parecer, não podiam ser mais desfasadas do tempo e menos convenientes para o povo brasileiro.

À brutalidade da agressão contraponha-se a lucidez de cidadãos informados que não desejam uma versão Trump em Brasília, talvez bem pior e num sistema em que, fruto de sucessivos ataques, as estruturas democráticas se acham débeis.

Recordemos as palavras sempre avisadas de Einstein: “a paz não pode ser conservada pela força, mas somente pode ser atingida por via do entendimento e da compreensão”.