Opinião

A Suécia não é o paraíso

Depois da cultura de consenso a que se habituou, a Suécia vai ter de lidar com um partido populista e xenófobo, que contraria a imagem que tinha de si própria, mesmo que por vezes demasiado embelezada.

1. A Suécia seria, para um observador pouco atento, o último bastião a resistir à vaga de populismo e nacionalismo que varre a Europa. Foi lá que nasceu o famoso “modelo nórdico”, que ainda hoje faz inveja a muita gente, assente num elevado grau de instrução, num elevado grau de igualdade e numa grande abertura ao mundo. A economia sueca resistiu bem à crise de 2008, melhor do que a maioria dos países europeus, registando hoje um crescimento assinalável (quase 3%) e um desemprego baixo, embora se preveja um progressivo arrefecimento da economia nos próximos anos.

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Esteve nas bocas do mundo durante a crise dos refugiados pelas melhores razões: em 2014 e 2015, abriu-lhes as suas portas numa proporção superior, em termos relativos, ao milhão que os alemães receberam. Stefan Lofven, o actual primeiro-ministro social-democrata, teve de travar a fundo a política de portas abertas logo em 2015. Mesmo assim, não conseguiu travar as suas consequências políticas. Os Democratas Suecos, cujas raízes remontam ao movimento neonazi das décadas de 1980-90 e cuja bandeira é justamente contra a imigração e contra a União Europeia, vão provavelmente registar um resultado próximo dos 20% nas eleições que se realizam este domingo. O fenómeno tornou-se quase banal na Europa, incluindo nos países nórdicos. Na Dinamarca ou na Finlândia, partidos-irmãos dos Democratas Suecos têm hoje uma significativa presença nos parlamentos, condicionando a política dos respectivos governos. São todos países ricos, onde a razão mais evidente para o crescimento destes partidos parece estar, precisamente, nos grandes fluxos migratórios dos últimos anos e, sobretudo, na sua origem islâmica.

2. A Suécia teve a “sorte” de ter vivido a crise de 2008 antes de tempo, quando, em 1991, o seu sistema bancário soçobrou, com o crash de uma bolha imobiliária em tudo idêntica à bolha do sub-prime nos EUA, que conduziu à implosão do sistema financeiro. O governo de Estocolmo foi obrigado a salvar a banca. Desde então, o equilíbrio das contas públicas passou a ser sagrado.

Mas o bom comportamento da economia também pôde contar com um sistema de educação pública dos mais antigos da Europa (na passagem do século XIX para o XX a esmagadora maioria da população era alfabetizada), para construir a acumulação de conhecimento fundamental na adaptação das economias desenvolvidas à revolução tecnológica, encontrando aí a alavanca que lhe permitiu fazer face à concorrência crescente das economias emergentes. Nomes como Skyp ou Spotify nasceram lá.

A igualdade, que foi pedra de toque da sociedade sueca, assente num sistema de impostos muito elevado que garantiu um Estado Social generoso e universal, teve de se adaptar a uma mais forte concorrência internacional. Os excessos do Estado Social, que chegaram a limitar algumas escolhas dos cidadãos, tiveram de ser corrigidos. O sistema partidário começou a mudar, podo cobro à longa hegemonia dos sociais-democratas. O Partido Moderado teve a sua oportunidade de fazer (algumas) reformas e os sociais-democratas fizeram o seu caminho em direcção à “terceira via”. Mas o partido que construiu o modelo nórdico há muito que caiu dos mais de 40% a que estava habituado desde antes da II Guerra até 2006, para valores que hoje pouco ultrapassam os 25%, não fugindo ao destino da maioria dos seus congéneres europeus.

3. Mas nem tudo na sociedade sueca é harmonioso e pacífico. As imagens de actos de vandalismo praticados por imigrantes e refugiados que surgiram durante a campanha eleitoral (por exemplo, um parque de estacionamento onde 80 carros foram destruídos) não são sequer comparáveis com as que ocorreram num Conselho Europeu em Gotemburgo (Junho de 2001), rodeado pela violência muito mais ameaçadora dos movimentos alter-mundialização da altura, formados por jovens radicais suecos e de outros países europeus, vestidos de negro e de rosto tapado, que destruíam tudo à sua passagem e que cercaram durante dois dias o local da cimeira. A explosão de novos escritores de livros policiais suecos, na esteira do genial Henning Menkell, descreve uma sociedade que encobre as suas angústias, a sua violência, as suas perversões sob um manto de silêncio.

4. Durante quase dois séculos um país neutral (dispensando-a de participar nas guerras europeias), a Suécia mantém ainda hoje esse estatuto. O facto não apaga a sombra do seu comportamento durante a II Guerra, mais próxima da Alemanha de Hitler do que dos Aliados, que só a partir do final do século passado foi publicamente admitido pelos governos e pela sociedade. A percepção da nova ameaça da Rússia, muito forte no Norte da Europa, está a mudar as opções políticas e as mentalidades. Pela primeira vez, as sondagens revelam que são mais os suecos que querem aderir do que os que querem manter a neutralidade. Os sociais-democratas ainda resistem, mas os quatro partidos do centro-direita (Moderados, Liberais, Democratas-Cristãos e Centristas) incluem já nos seus programas eleitorais uma rápida adesão à Aliança ocidental. A sensação de maior vulnerabilidade já levou ao regresso do serviço militar obrigatório (de forma gradual) e ao aumento do orçamento da defesa.

5. Mas a grande diferença está em que, depois da cultura de consenso a que se habituou, a Suécia vai ter de lidar com um partido populista e xenófobo, que contraria a imagem que tinha de si própria, mesmo que por vezes demasiado embelezada. Mais uma vez, como se vê na Alemanha ou na Dinamarca, o crescimento da extrema-direita parece ter pouco a ver com a economia (que corre bem em qualquer dos três países, com níveis de desemprego historicamente baixos) mas, provavelmente, com uma questão cultural que surge como uma ameaça ao seu modo de vida e à sua segurança. E que leva as pessoas a sonhar com um passado que dificilmente voltará, a não ser através das suas páginas mais negras, que a Suécia também as tem.