Opinião

A Quadratura do Círculo

Apesar da taxa de desemprego e do número de desempregados se situar em linha com os níveis pré-troika, a verdade é que a população ativa e a população empregada permanece em níveis historicamente baixos.

Um dos enigmas matemáticos mais interessantes que durante séculos mereceu a atenção de ilustres matemáticos é a denominada “quadratura do círculo”.

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Trata-se de um problema proposto pelos antigos geómetras gregos e que consiste na construção de um quadrado com a mesma área de um dado círculo tendo por base o uso de uma régua e de um compasso e considerando um número finito de etapas.

O problema era considerado pelos gregos como muito difícil, mas não impossível de resolver.

Vem isto a propósito da recente divulgação dos dados do emprego e de receitas da segurança social (i.e. quotizações dos trabalhadores e contribuições das empresas - TSU) os quais parecem apontar para uma relação linearmente evidente: menor taxa de desemprego; mais população empregada; mais receitas da segurança social.    

Será, no entanto, que essa relação é tão linear e evidente?

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego em Portugal ter-se-á situado em junho de 2018 nos 6,7%, ou seja o valor mais baixo dos últimos 16 anos.

Apesar desta evolução muito favorável, o certo é que, quando analisamos a taxa de desemprego nas suas diversas componentes, os resultados são claramente distintos. Com efeito, apesar da taxa de desemprego e do número de desempregados se situar em linha com os níveis pré-troika, a verdade é que a população ativa e a população empregada permanece em níveis historicamente baixos.

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Assim, no primeiro trimestre de 2018, resultado do envelhecimento da população e dos fluxos migratórios, a população ativa situava-se nos 5,2 milhões, face aos 5,6 milhões registados em igual período de 2010 (- 374,8 mil, ou seja, -6,7%). Por outro lado, a população empregada no primeiro trimestre de 2018 era de 4,87 milhões, valor que compara com os 5 milhões observados no primeiro trimestre de 2010 (- 134,6 mil, ou seja, -2,7%).  

No que respeita às remunerações dos trabalhadores, constata-se que a média da remuneração mensal base (média do ganho mensal) dos trabalhadores por conta de outrem subiu apenas 2,8% (2,9%) entre 2010 e 2016, passando de 900€ por mês (1076€) para os 925€ (1108€).

Em face do anterior, e uma vez que as receitas da segurança social são função da população empregada, da respetiva remuneração e da TSU, seria de esperar que uma evolução negativa da população empregada e um aumento do ganho médio mensal de dimensão semelhante em valor absoluto, ceteris paribus, tivesse um efeito aproximadamente nulo sobre evolução das receitas da segurança social.

Surpreendentemente tal não aconteceu, tendo as receitas da segurança social com contribuições e quotizações crescido cerca de 16,5% entre 2010 e 2017.

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Ao contrário do enigma da quadratura do círculo proposto pelos gregos, cuja impossibilidade de resolução foi apenas demonstrada no século XIX, esperemos que este “enigma” possa ser esclarecido mais rapidamente e, de preferência, que tenha uma solução.