Crítica

Praia da Luz, uma cozinha de conforto que privilegia os sabores

Ambiente moderno, requintado e com vistas impagáveis para o mar. A carta aponta ao campeonato dos melhores mas nem tudo ajuda neste restaurante da Foz, no Porto.
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Ao bar e esplanada de sempre, o Praia da Luz junta desde há quase dois anos um restaurante que é um dos spots mais apetecíveis do Porto. O mar e os rochedos da praia homónima como cenário exclusivo, sala moderna e elegante de fachada envidraçada e um amplo deck exterior onde apetece ficar sem tempo.

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Num cenário destes podia até pensar-se que o que se come acabe por ser secundário, mas também na cozinha este é um conceito privilegiado. Graças ao engenho e arte de Luís Américo, o cozinheiro que vai multiplicando a sua saborosa criatividade pelos mais diversos espaços e conceitos, mas que tarda em ter um espaço à altura do seu talento.

Bem que podia ser este novo Praia da Luz, onde a modernidade, conforto e atractividade do lugar casam com uma cozinha técnica e evoluída ao serviço dos sabores e produtos da nossa melhor tradição. Uma cozinha de conforto que privilegia os sabores, que é moderna e actual na técnica e apresentação e ao mesmo tempo tradicional no gosto e paladar.

Ou seja, o melhor dos dois mundos num contexto — e preços — com pretensões ao campeonato dos melhores, mas que acaba por deslizar em meros pormenores associados ao serviço. E em ambiente depurado, contexto de vocação gastronómica e com sugestões que facilmente ultrapassam os 30€ por cada prato, é suposto que tudo role sobre esferas.

O restaurante resulta da conversão do terraço que outrora cobria o bar e esplanada, que mantêm o mesmo figurino. Decoração moderna e elegante a dar evidência às madeiras e a criar um ambiente marinheiro, reforçado por generosos espelhos que puxam o brilho e a luz do mar para o interior. Paredes de vidro voltadas ao Atlântico e amplo deck exterior a convidar ao prazer da preguiça!

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Paulo Pimenta

Guardanapos de linho a destacar as mesas nuas e baixela elegante, pessoal jovem, colaborante e jovial, ataviado com longos aventais negros e a convocar à informalidade.

O rápido olhar pela carta, com assinatura do chef Luís Américo, logo destaca a vocação de cozinha de conforto, com propostas que remetem para produtos e receitas da tradição culinária, num conceito moderno e técnicas actuais. Coisas como ovas de sardinha marinadas em azeite ou um tártaro de bacalhau, para entradas; salada de bacalhau com azeitonas, cebola roxa e ovos de codorniz; cataplana de peixes e mariscos, polvo na brasa à lagareiro, posta de novilho ou paleta de cordeiro no forno.

Luís Américo tem, como poucos, o sentido do gosto e paladares da tradição e um saber moderno e criativo para os recriar e apresentar. A carta desafia à partilha e degustação e as doses propostas para uma-duas ou três-quatro pessoas. Nas entradas e saladas, os preços vão dos 10 aos 27,50€, os peixes de 28 a 45€, e as carnes de 24 a 45€. Estamos, claramente, no campeonato dos melhores.

Com o pão, em tostinhas e outro com cereais, chega à mesa também um duo de manteigas (comum e de chá verde) e um creme fresco de tomate.

Efectuados os pedidos e escolhido o vinho, chegam as boas-vindas do chef, numa agradável e saborosa empada de camarão e tinta de choco. Teve, no entanto, que esperar que fosse servido o vinho para ser degustada.

Entrou-se com o bacalhau em tártaro (12€), num cone de proporção generosa com lascas saborosas, tomate, pimentos, coentro e pimenta branca. Conjunto fresco e apelativo ao qual é acrescentado um creme de tomate, uma espécie de gaspacho aveludado que dá cremosidade e sabor. Muito bom!

Seguiu-se o carpaccio de rosbife (13€), com cogumelos shitake e lascas de queijo Grana Padano (os nossos Ilha ou Serra curado não estariam mal), igualmente convincente, saboroso e generoso na quantidade. A par de três saladas, a carta propõe também ceviche de garoupa, ovas de sardinha, tataki de salmão ligeiramente fumado e curado, húmus com legumes na brasa e azeite fumado, ostras ao natural, vieiras grelhadas com favas e barriga fumada, camarão tigre na brasa e tábua de queijos.

Nos peixes, por entre robalo ao sal, lavagante na brasa, polvo na brasa à lagareiro e a cataplana rica de peixes e mariscos, optou-se pelos “filetes do cachaço de bacalhau com arroz de tomate e hortelã” (28€) e a “feijocada de polvo com arroz basmati” (30€). Duas variações sobre receitas da mais pura cozinha tradicional mas preparadas e servidas de forma a deixar plenamente convencidas as almas mais renitentes. Sejam elas supostamente avessas à cozinha tradicional ou renitentes à modernidade.

Primorosos os filetes de bacalhau, sem reminiscências de gorduras, fofos, macios e a saber ao peixe de boa cura. Acompanharam com uma gulosa maionese de alho negro e o arroz caldoso com creme espesso e ácido do tomate, daqueles que apetece sorver com pão até ao fundo do prato.

Da mesma forma irresistíveis as feijocas com polvo, a velha receita que chega à mesa em pose elegante numa taça transparente, e tachinhos de cobre para os complementos. Uma feijoada de sabores rústicos e marcantes, com chouriço e coentros, a equilibrar com os aromas perfumados e absorventes do arroz basmati. Nas carnes, a opção foi para o “lombo de novilho na brasa laminado” (30€). Carne suculenta e viçosa, de sabor intenso e perfumado, que chega à mesa em assadeira de barro negro que, a par do belo efeito visual, ajuda a manter a temperatura. Para os acompanhamentos, os tachinhos de cobre em tamanhos diversos: arroz de açafrão com passas e amendoins (belo contraste de aromas e texturas com a carne macia e perfumada), esparregado ou puré com cebola caramelizada. Ainda uma salada de alfaces e rabanetes.

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Paulo PImenta

A carta de vinhos, igualmente com preços para o campeonato dos melhores, é abrangente, diversificada e a proporcionar conjugações adequadas, estando apresentada segundo o tipo de vinhos. Muito bem! Pena que os copos não acompanhem este critério, apenas com duas opções (em tamanho, para brancos e tintos, presume-se), mas longe de poder valorizar o potencial dos vinhos da carta e correspondente prazer gastronómico.

E é nesta vertente que está o principal deslize, que compromete de forma quase irremediável a experiência gastronómica e o potencial de prazer que a carta pode proporcionar. Por um lado, o serviço sincopado, com longas esperas entre cada prato; por outro, uma quase permanente sensação de abandono do cliente, que não só cansam como retiram prazer à degustação. Mais de três horas à mesa para um serviço de cinco pratos está longe dos campeonato dos melhores e não é nada convidativo. Pior ainda quando, pelo meio, desatam a aspergir produtos de limpeza sobre as mesas vizinhas. Aromas químicos de amoníaco serão certamente bons desinfectantes, mas não combinam nem ajudam à experiência gastronómica.

Deslizes à parte, o esforço e simpatia convidam a voltar. E uma carta que conjuga de forma genial a cozinha tradicional com a modernidade culinária é garantia absoluta de satisfação. O resto são requisitos para o campeonato dos melhores. A escolha cabe à gerência, mas valerá a pena apostar.