Geologia

Sismos dois dias seguidos em Vila Verde: é normal?

Não há registo de que a actividade sísmica tenha provocado danos pessoais ou materiais.
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Há dois dias consecutivos, na segunda-feira e hoje, que a população na zona de Vila Verde, distrito de Braga, sentiu pelo menos dois sismos logo de manhã cedo. O primeiro ocorreu pelas 7h13 locais, teve uma magnitude de 3,2 graus (na escala de Richter) e o epicentro foi próximo de Vila Verde, de acordo com o registo das estações da rede sísmica do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O segundo sismo sentido, já esta terça-feira, como noticiou a agência Lusa, registou-se às 7h34, com uma magnitude de 3,1 graus e o epicentro foi a cerca de quatro quilómetros a norte-nordeste de Vila Verde. É isto normal? Fernando Carrilho, chefe da divisão de geofísica do IPMA, responde que sim, que até agora é normal.

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“São sismos de muito pequena dimensão. Mas como são em terra, próximos das populações, as pessoas apercebem-se deles. À partida, não têm nada de excepcional. Não vimos, para já, nada de anómalo nesta situação. Fazem parte do historial de 10 a 20 sismos sentidos por ano no Continente”, explica o geofísico. “A zona Norte do território não é de facto onde a actividade sísmica é mais frequente. É a zona Sul, com origem no golfo de Cádis e no banco de Gorringe, a Sudoeste do cabo de São Vicente. Tipicamente, são gerados aí sismos de maior magnitude. E também na zona de Lisboa e Vale do Tejo, que não tem tido actividade sísmica relevante nos últimos anos.”

Basta aliás consultar o site do IPMA sobre a actividade sísmica registada até aos últimos 30 dias para ver que se concentra mais no Sul de Portugal continental e, no mar, precisamente no golfo de Cádis e banco de Gorringe. E, claro, nos Açores, zona sísmica e com fenómenos de vulcanismo por excelência, pelo facto de estar situada numa zona de fronteira de três placas tectónicas – a euroasiática, a norte-americana e a africana. Perto está também a Dorsal Médio-Atlântica, a cordilheira que corta o Atlântico de alto a baixo e onde estas placas se vão afastando e vai nascendo crosta terrestre nova, o que origina sismos e vulcanismo.

Voltando aos sismos de pequena dimensão, eles podem existir por todo o território português porque a Terra é, geologicamente, um corpo vivo. “Há uma estrutura de falhas [geológicas] activas por todo o território do Continente. É a actividade de várias falhas que dá origem a estes pequenos sismos”, explica Fernando Carrilho.

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Registos do sismo de 7 de Agosto pelas 7h34 locais, com 3,2 graus de magnitude, efectuados nas três estações sísmicas mais próximas do epicentro (localizadas em Cabril, Gavieira e Lamas de Olo) IPMA

Na realidade, houve ainda um outro sismo na segunda-feira perto de Vila Verde, apenas 27 minutos depois do primeiro – às 7h40, mais exactamente. Com epicentro a seis quilómetros a norte-nordeste de Vila Verde, atingiu, no entanto, uma magnitude inferior aos outros dois sismos, ficando-se pelos 2,7 graus. Não havia informação, segundo o IPMA, que confirmasse que este sismo tenha sido sentido.

Estes sismos de Vila Verde não tiveram impactos. A escala que nos diz isso é a escala de Mercalli modificada. Ora, nesta escala chegaram a atingir uma intensidade máxima de IV nos concelhos de Vila Verde, Amares e Ponte de Lima. O que se podem traduzir, segundo explica o IPMA no seu site, em os objectos suspensos a baloiçar. A vibração é semelhante à provocada pela passagem de veículos pesados ou à sensação de pancada duma bola pesada nas paredes. Carros estacionados balançam. Janelas, portas e loiças tremem. Os vidros e loiças chocam ou tilintam. E as paredes e as estruturas de madeira podem ranger.

“Este tipo de sismos de pequena dimensão podem dar origem a uma intensidade de IV na escala de Mercalli modificada, o que significa que é sentido mas não provoca impactos nenhuns em termos de danos pessoais ou materiais.”

Podemos já relacionar os sismos de Vila Verde com alguma falha, ou falhas, na zona? “Estes sismos têm origem a alguma profundidade – estamos a falar entre os cerca de seis e 15 quilómetros abaixo da superfície da terra. E os sismos são de pequena dimensão. Por isso, a correlação com a malha de falhas à superfície é difícil”, responde o geofísico. “Nesta altura, é difícil reconstituir com segurança os mecanismos para fazer uma associação às falhas à superfície e apontar esta ou aquela estrutura que estão a dar origem aos sismos.”