Medicina

Ensaio clínico com recurso a Viagra foi fatal para 11 bebés holandeses

Fármaco foi administrado a grávidas com problemas na placenta, para reduzir o risco de nascimentos prematuros.
Foto
Num segundo grupo de controlo morreram nove bebés Fernando Veludo

Um estudo clínico conduzido na Holanda sobre o efeito do Viagra na gravidez levou à morte de 11 recém-nascidos. Às mulheres grávidas foram dados comprimidos para melhorar o crescimento dos fetos, uma vez que as suas placentas tinham um baixo desempenho. Em gravidezes em que a placenta não está suficientemente desenvolvida, os bebés podem nascer prematuros, com baixo peso e com poucas hipóteses de sobrevivência. O fármaco administrado pretendia contrariar essa tendência, mas acabou por se revelar fatal para alguns bebés.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

A administração de sildenafil (vendido com o nome de Viagra) tinha como objectivo dilatar os vasos sanguíneos e melhorar a circulação, estimulando o crescimento dos fetos.

A investigação, que arrancou em 2015, foi desenvolvida pelo Centro Médico da Universidade de Amesterdão e conduzida em dez hospitais holandeses. No ensaio participaram 93 grávidas que tomaram Viagra. Agora, três anos depois, percebeu-se que 17 bebés desenvolveram problemas nos pulmões e 11 acabaram por morrer devido ao medicamento. A estas mortes soma-se ainda a morte de oito bebés por questões não relacionadas com o ensaio clínico, escreve o The Guardian.

Foram também detectados problemas nos pulmões em três bebés do grupo de 90 grávidas que formaram o grupo de controlo e tomaram comprimidos-placebo (desprovidos de qualquer substância activa). Deste grupo, morreram nove bebés.

A Holanda pretendia conduzir este ensaio clínico até 2020, data em que deveria já somar a participação de 350 pacientes. O prognóstico dos bebés sujeitos a tratamento “era negativo e não se conheciam outros tratamentos possíveis”, ressalva o Centro Médico da Universidade de Amesterdão, em comunicado. “Queríamos mostrar que esta é uma maneira eficaz de promover o crescimento do bebé. Aconteceu o oposto. Estou chocado. A última coisa que queríamos era prejudicar os pacientes”, disse o líder do grupo de investigadores, o ginecologista Wessel Ganzevoort, em declarações ao jornal holandês De Volkskrant.

“Avisámos um grupo de investigadores canadianos que estavam a conduzir o mesmo estudo. Pelo sim, pelo não, o grupo suspendeu temporariamente a sua investigação”, acrescentou. O médico disse ainda que o recurso a esta substância era uma solução discutida em conferências de medicina e que muitas das suas pacientes lhe pediam que lhes receitasse sildenafil.

Estudos semelhantes conduzidos no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia não encontraram efeitos negativos, mas também não revelaram quaisquer benefícios, acrescenta a BBC. Especialistas pedem uma investigação para determinar o que aconteceu, um cenário admitido pelo porta-voz do Centro Médico da Universidade de Amesterdão. Um dos problemas poderá ter sido um excesso de pressão nos pulmões, que poderá ter feito com que os bebés estivessem a receber pouco oxigénio.

Existem ainda entre dez e 15 mulheres à espera de saber se as suas crianças foram afectadas.