Estudo conclui que entrega de fármacos para VIH/sida nas farmácias é um sucesso

Doentes poupam muito tempo e metade passa a ir a pé levantar os medicamentos anti-retrovirais às farmácias, em vez de ter de se deslocar ao hospital.

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patricia martins

Os doentes com VIH/sida demoram menos meia hora quando vão levantar os medicamentos às farmácias em vez de irem ao hospital e avaliam de forma muito positiva esta medida. Além da poupança de tempo que a entrega de fármacos anti-retrovirais nas farmácias representa, metade dos doentes integrados num projecto-piloto que serviu para testar esta medida experimental passou a conseguir ir a pé buscar os medicamentos às farmácias, quando no hospital isso acontecia em menos de um quinto dos casos.

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Os doentes com VIH/sida demoram menos meia hora quando vão levantar os medicamentos às farmácias em vez de irem ao hospital e avaliam de forma muito positiva esta medida. Além da poupança de tempo que a entrega de fármacos anti-retrovirais nas farmácias representa, metade dos doentes integrados num projecto-piloto que serviu para testar esta medida experimental passou a conseguir ir a pé buscar os medicamentos às farmácias, quando no hospital isso acontecia em menos de um quinto dos casos.

São conclusões de um estudo que avaliou 43 pacientes habitualmente seguidos no hospital Curry Cabral, em Lisboa, e que passaram a ir levantar a terapêutica para o VIH em 29 farmácias perto dos locais onde residem.

Ao contrário do que acontece noutros países, a terapêutica anti-retroviral é dispensada exclusivamente nos hospitais em Portugal. Com este projecto-piloto, o Ministério da Saúde quis avaliar os ganhos em saúde que a transferência para as farmácias comunitárias da dispensa da terapêutica pode representar. 

Os resultados preliminares são muito encorajadores, a crer nesta primeira avaliação a que o PÚBLICO teve acesso. O tempo médio de deslocação dos doentes passou de 46 minutos (quando iam ao hospital levantar os fármacos) para apenas 12 minutos nas farmácias. O tempo de espera também diminuiu muito  – de 16 minutos nos hospitais para apenas 5 minutos nas farmácias -, e os níveis de satisfação aumentaram substancialmente no atendimento em geral.

Conduzido por peritos de três centros de estudos – o de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa, o de Estudos Aplicados da Universidade Católica e o de Avaliação em Saúde da Associação Nacional de Farmácias (ANF) -, o trabalho permitiu ainda concluir que quase todos os pacientes (97,5%) ficaram satisfeitos com a privacidade garantida nas farmácias e, além disso, nenhum abandonou a terapêutica ao longo deste período.

Impacto "gigante"

O director-executivo do GAT (Grupo de Activistas em Tratamento), Ricardo Fernandes, citado na revista Farmácia Portuguesa, considerou que o impacto deste projecto-piloto nos doentes foi "gigante" e defendeu que é "importante alargá-lo a outras zonas do país".

Os autores do estudo sublinham, porém, que estes resultados devem ser interpretados com prudência, uma vez que se trata de uma amostra num contexto urbano de pessoas que vivem com VIH seguidas apenas num hospital. Será de admitir, enfatizam, que, "em zonas rurais ou em regiões em que a distância média dos hospitais seja superior, os impactos na comodidade e conveniência das pessoas sejam diferentes”.

Em Portugal, em 2016 havia cerca de 34 mil portadores de VIH, e, destes, 31 mil estavam a ser tratados com anti-retrovirais. A delegação parcial nas farmácias da terapêutica para o VIH/sida é uma medida que estava prevista no programa do Governo, à semelhança da terapêutica oral em oncologia.

Os medicamentos anti-retrovirais já são dispensados nas farmácias comunitárias em diversos países, nomeadamente Itália, França, Bélgica, Reino Unido, Suécia, Canadá e Austrália.

 

Notícia corrigida às 20h21 deste sábado. O PÚBLICO tinha escrito que o estudo tinha sido encomendado pelo Ministério da Saúde ao Imperial College, de Londres, mas este foi entretando cancelado.