Crítica

Neo-socialismo em que dá para acreditar

Inicialmente intitulado “new konstruktivist socialism’, o novo trabalho dos Mouse On Mars reúne dezenas de músicos e músicas num novo tipo de orquestra.
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Feito com alma comunitarista e rigor, esta é uma concretização de um sonho globalista

Os alemães Andi Toma e Jan St. Werner trabalham juntos há mais de duas décadas, tendo construído uma obra invulgar, criativa, de mente limpa e livre. Nela vive toda a música que lhes interessa, o que tendo em conta que eles parecem genuinamente curiosos em expressão pessoal e progresso social, se trata de um reservatório sem fim.

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Desde Vulvaland (1994) que trabalham com enorme engenho e imaginação plástica a partir de bases essencialmente electrónicas, fusionando todo o tipo de formas de composição e improvisação, sonoplastia, vocabulários, síncopes rítmicas e texturas, pelo que a riqueza humana e estrutural de Dimensional People, por mais surpreendente que seja (e é), bate certo.

Tentando resumir esta ideia linda tornada realidade, o duo reuniu uma série de elementos vagamente delirantes.

Utilizam uma série de robots, essencialmente para trabalho percussivo. Quiseram fazer um álbum maioritariamente à velocidade de 145 batidas por minuto, inspirado e em honra das tercinas de alta octana do footwork, estilo de música de dança nascido em Chicago pelas mãos de RP Boo ou DJ Rashad. Trabalharam com uma companhia de tecnologia áudio germânica que já vai muito avançada num sistema de multi-canais que permite novas opções  de distribuição do som pelo espaço físico, e que possibilita tratar cada pista com enorme maleabilidade (‘Dimensional People’ também nasceu como uma instalação viva para o norte-americano M.I.T., onde este aspecto foi inicialmente desenvolvido). Gravado maioritariamente entre Berlim e o estado do Wisconsin, onde estiveram uns tempos num estúdio perto de um festival onde tocaram, aproveitaram os músicos presentes nesse evento para que viessem contribuir como bem entendessem para este caldinho altamente eclético. Está cá meio mundo. Swamp Dogg, pirata pioneiro do soul e do r’n’b mais transviado. VIPs do indie FM de há dez anos, casos de Beirut ou The National. Spank Rock, uma das caras mais conhecidas da modernização do designado Baltimore Beat do início de século. E dezenas de outros e outras, entre ensembles de câmara, solistas de cordas e sopros, percussão, bateria, guitarra, voz.

Imersos em tudo isto, os Mouse On Mars passaram então uma série de meses em edição, mistura e recomposição em estúdio com esta variedade de fontes. O resultado é positivamente pluralista.

A maior parte do trabalho vocal, e por consequência as letras (todas em inglês), acaba por virar um tipo de esperanto, em que não há qualquer semelhança a uma traça narrativa, antes sim um par de suites e vinhetas que se sucedem numa lógica aparente e exclusivamente intuitiva, onde rappers, cantores cajun, liristas babilónicos e veteranos contadores de histórias participam. Desde o footwork versus ‘Music For 18 Musicians’ de Steve Reich que abre o disco, há polirritmias afro-descendentes, baladões ascéticos, versões pop light de kraut-rock, mas acima de tudo uma data de coisas sem nome; não só novas vistas, nascidas não só da sobreposição de formas e emoções, mas também de novas mesclagens humanas.

Fica evidente do princípio ao fim deste álbum experimental (no melhor sentido do termo), que acima de tudo há aqui a vontade de fazer o melhor possível com todas as pessoas de boa fé e espírito aberto, que queriam participar numa coisa que não se sabia de todo o que ia ser. Feito com alma comunitarista e rigor, esta é uma concretização de um sonho globalista que no fundo, agora que finalmente temos a hipótese de estar todos juntos e realmente em contacto neste planeta, pode passar a ganhar uma outra forma. Bonita e cheia de luz, se quisermos, como nos mostra ‘Dimensional People’.