Montepio

Oposição a Tomás Correia prepara lista alternativa

Os contactos entre as listas derrotadas nas últimas eleições e membros dissidentes da equipa liderada por Tomás Correia intensificaram-se nas últimas semanas. O objectivo é apresentar uma lista de consenso às próximas eleições em Dezembro.
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JOSÉ SENA GOULÃO

As listas derrotadas pela equipa de Tomás Correia nas últimas eleições para a liderança da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) estão em conversações para encontrar uma alternativa única ao actual presidente e que inclua também dissidentes da equipa de gestão em funções.

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O PÚBLICO apurou que nas últimas semanas os contactos entre dirigentes das listas adversárias do actual presidente do grupo intensificaram-se com o objectivo de criar uma frente comum credível e capaz de derrotar Tomás Correia nas próximas eleições que se deverão realizar estatutariamente em Dezembro deste ano.

Em 2015, Tomás Correia obteve o apoio de 61% dos 57.800 associados (de um universo na altura de 630 mil) que votaram nas eleições para os órgãos sociais da associação para o triénio 2016/2018.

Entre os que hoje se movimentam para afastar o actual presidente estão os principais “rostos” das listas que há três anos foram derrotadas e onde se destacam personalidades com sensibilidades políticas distintas: António Godinho (ex-trabalhador do Montepio que se dedicou aos negócios) e António Bagão Félix (ex-ministro do CDS/PP), que em 2015 avançaram para “Renovar o Montepio”; Eugénio Rosa (economista da esfera do PCP), que se propôs “Defender o mutualismo”; Manuel Rogério (reformado do Montepio que representa um grupo de trabalhadores), que concorreu apenas ao Conselho Geral com o lema "banca ética”.

O objectivo é fecharem uma lista alternativa abrangente. E daí os sinais de que pretendem abrir pontes para atraírem quadros do Montepio até agora na esfera de Tomás Correia.

Um processo que se desenrola nos bastidores e é seguido a par e passo pelo Governo, e que reflecte divisões latentes dentro da administração executiva da Associação, onde “convivem” duas sensibilidades. De um lado estão Carlos Beato (ex-presidente socialista da Câmara Municipal de Grândola), Virgílio Lima (quadro do Montepio) e Tomás Correia, que acumula a presidência da Associação com a da Assembleia Municipal de Pedrógão Grande, para onde foi eleito, em 2017, pelo Partido Socialista. Do outro, estão Miguel Coelho (economista e quadro do Montepio e vice-presidente do Instituto da Segurança Social nomeado pelo Governo de Passos Coelho) e Fernando Ribeiro Mendes (economista e ex-secretário de Estado da Segurança Social e da Indústria, Comércio e Serviços de governos do PS) que, recentemente, em artigo publicado no PÚBLICO defendeu um “virar de página” para a AMMG que permita “dar espaço a novos protagonistas libertos do passado”.

As diferentes tendências em confronto dentro do Montepio partilham da mesma preocupação: suster a degradação da situação económica e financeira do grupo, para garantir as poupanças dos associados. O que passa por limpar o balanço dos activos deficitários. E é neste contexto que se coloca a venda da maioria do Montepio Seguros, que inclui a Lusitânia Vida, a Lusitânia Não Vida e a N Seguros, e deixa de fora da equação a Futuro, sociedade gestora de fundo de pensões do grupo.

Negócio da China

O futuro da área seguradora foi, aliás, um dos temas abordados a 19 de Setembro de 2017, quando, em Conselho Geral (CG), Manuela Silva, um dos 23 presentes na reunião, requereu explicações sobre “o fundamento da notícia vinda a público” a mencionar “a eventual” venda da Lusitânia.

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Na sequência, e conforme leitura da acta da reunião, folhas 13 e 14, Tomás Correia pediu a palavra para dar a conhecer a China Energy Company Limited, “mediante proposta, encaminhada via Gabinete do Senhor Primeiro-Ministro, para encetar conversações sobre a possibilidade de a Associação Mutualista desenvolver uma parceria na área dos Seguros e na área da Banca”. Esclarecimentos que estão explanados na acta do CG, como se pode constatar em anexo.

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Sexta-feira, após a publicação da notícia do PÚBLICO com o título “Tomás Correia diz que proposta chinesa chegou via São Bento”, o assessor de comunicação de António Costa veio clarificar que em nenhum momento o primeiro-ministro encaminhou qualquer eventual proposta da CEFC para o Montepio, o que também não foi feito por outro responsável do seu gabinete.

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Na véspera, a mesma fonte tinha avançado “que o senhor primeiro-ministro recebeu no ano passado uma delegação do grupo CEFC que transmitiu o interesse empresarial de investir em Portugal”, mas “não foi abordado o tema Montepio Geral.”

Ainda na sexta-feira, já ao final da noite, às 22h43, e depois de São Bento ter surgido a distanciar-se de qualquer intervenção na aproximação da CEFC ao Montepio, a Associação Mutualista remeteu para o PÚBLICO um pedido de publicação: “Ao contrário do que diz o título e a notícia, o Gabinete do Primeiro-ministro não encaminhou qualquer proposta para o Montepio proveniente da CEFC”; Tomás Correia “deu nota ao Conselho Geral” de que “os responsáveis da CEFC manifestaram interesse junto do Gabinete do Primeiro-ministro da intenção de estabelecer em Portugal o centro financeiro da empresa para a Europa e PALOP e efectuar investimentos na área das grandes infra-estruturas, da banca e seguros, mas também na indústria e vinho, nunca tendo referido que tenha sido o Governo a sugerir contactos com o Montepio”; “a referida intervenção em Conselho Geral não provocou nos seus respectivos membros qualquer entendimento de que o Governo participou no desenvolvimento ou apresentação de propostas do grupo chinês”. A AMMG diz mais: “Ficou claro que os eventuais acordos do Montepio com o referido grupo careciam de estudos muito detalhados e das aprovações dos reguladores e do próprio Conselho Geral.”

Estes detalhes não constam, no entanto, da acta de 19 de Setembro que foi aprovada por todos os conselheiros que participaram no encontro e que deixa claro que Tomás Correia assegurou que a aproximação do “Grupo CEFC” se fez “mediante proposta, encaminhada via Gabinete do Senhor Primeiro-Ministro”.