Admirável Língua Nova (Parte VI)

Não há revisão possível que limpe a face do Acordo e todos os caçadores dispostos a encontrar a “pronúncia culta” voltaram de mãos vazias. Citando Einstein: “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram.”

Procurava explicar numa aula que devemos distinguir “manuscritos” de “dactiloscritos” – os primeiros são escritos à mão; os segundos, à máquina – e logo me lembrei: deixa lá ver como é que os dicionários acordizados acolhem o segundo verbete.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Procurava explicar numa aula que devemos distinguir “manuscritos” de “dactiloscritos” – os primeiros são escritos à mão; os segundos, à máquina – e logo me lembrei: deixa lá ver como é que os dicionários acordizados acolhem o segundo verbete.

A Infopédia (Porto Editora), um dos dicionários mais consultados, da editora com mais penetração nas escolas, regista o seguinte:

  • dactiloscrito
    dac.ti.los.cri.to
    nome masculino
    original datilografado
    Do grego dáktylos, «dedo» +escrito

O “daCtiloscrito” é, portanto, o original “datilografado”. E que dirá o verbete “datilografado”?

  • datilografado
    da.ti.lo.gra.fa.do
    adjetivo
    escrito à máquina
    Particípio passado de dactilografar

“Datilografado” é, afinal, o particípio passado do verbo “daCtilografar”.

Em se tratando do infinitivo impessoal e do particípio passado do mesmo verbo, ora se preserva ora se mutila a consoante. É isto simplificar a ortografia?! É esta salgalhada um melhor caminho para a aprendizagem da língua portuguesa?!

Continuemos a digressão.

  • tactilidade
    tac.ti.li.da.de
    nome feminino
    1. qualidade do que é táctil
    2. qualidade das substâncias que exercem ação especial no sentido do tato
    De táctil+-i-+-dade

“TaCtilidade” é a qualidade do que é “táCtil”, aquilo que se refere ao sentido do “tato”. O “tato” opera no ecrã “táctil”, muito bem.

Temos…

  • circunspecto
    cir.cuns.pec.to
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»

     
  • circunspeto
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»

… mas apenas uma grafia para:

  • circunspeção
    cir.cuns.pe.ção
    nome feminino
    1. qualidade de circunspecto; que revela moderação e decoro; seriedade
    2. ponderação; cautela; reserva
    3. estudo ou análise atenta e minuciosa de algo, considerando todos os seus aspetos
    Do latim circumspectione-, «ação de olhar em volta»

Note que a “circunspeção” é a “qualidade de circunspeCto”.

Encontramos…

  • antisséptico
    an.tis.sép.ti.co
    adjetivo, nome masculino
    que ou substância que combate ou previne as infeções destruindo os micróbios que podem originar contaminações; desinfetante
    Do grego antí-, «contra» +septikós, «podre»
     
  • antissético
    an.tis.sé.ti.co
    adjetivo, nome masculino
    que ou substância que combate ou previne as infeções destruindo os micróbios que podem  originar contaminações; desinfetante
    Do grego antí-, «contra» +septikós, «podre»

… mas apenas:

  • antissepsia
    an.tis.sep.si.a
    nome feminino
    conjunto de medidas destinadas a evitar ou combater as infeções destruindo os micróbios que existem no exterior ou interior dos organismos
    Do grego antí-, «contra» +sépsis, «infeção» +-ia

Temos…

  • lático
    lá.ti.co
    adjetivo
    1. relativo ao leite
    2. QUÍMICA diz-se do ácido 2-hidroxipropanóico [Onde está o Acordo aqui?: “Não se acentuam graficamente os ditongos representados por ei e oi da sílaba tónica/tônica das palavras paroxítonas.”], que existe no leite azedo e tem aplicação na preparação de alimentos e bebidas e na indústria química
    3. diz-se dos agentes e dos fenómenos que provocam a formação desse ácido
    De lacti-+-ico
    também se pode escrever láctico

… mas apenas:

  • lacticolor
    lac.ti.co.lor
    adjetivo de 2 géneros
    que tem a cor do leite; branco
    Do latim lacticolore-, «idem»
     
  • lactação
    lac.ta.ção
    nome feminino
    1. ato ou efeito de lactar
    2. formação do leite nas glândulas mamárias e a sua condução para o exterior
    período de lactação
    tempo que decorre enquanto a fêmea é capaz de produzir leite normalmente utilizado na alimentação dos filhos
    Do latim lactatione-, «idem»
     
  • galáctico
    ga.lác.ti.co
    adjetivo
    ASTRONOMIA que diz respeito a galáxia
    sistema galáctico
    sistema em forma de lente, constituído por um número enorme de estrelas, gás e poeiras, que inclui o Sol como um dos seus membros
    Do grego gála-aktos, «leite» +-ico

Temos apenas…

  • bissetriz
    bis.se.triz
    nome feminino
    GEOMETRIA semirreta que, partindo do vértice de um ângulo, o divide em duas partes iguais
    Do latim bis, «em dois» +sectrice-, feminino de sector, «a que corta»

… mas:

  • trissectriz
    tris.sec.triz
    nome feminino
    GEOMETRIA cada uma das semirretas que determinam a trissecção de um ângulo
    De trissector
    também se pode escrever 
    trissetriz

 Bissetrizes e trisseCtrizes, será isto a evolução natural da língua?

  • Cactáceas
    cac.tá.ce.as
    nome feminino plural
    BOTÂNICA família de plantas dicotiledóneas, carnosas, de folhas rudimentares, em regra tropicais, representada em Portugal pelos catos e pela figueira-da-índia, e também denominada Opunciáceas
    De cacto+-áceas

Ou seja, e como já tinham alertado os Tradutores contra o Acordo Ortográfico, o “cato” é agora o novo membro da família das “Cactáceas”. Repare-se naquela linha cinzenta, que explica que “Cactáceas” é palavra formada com base em “cacto”, um verbete que o dicionário não acolhe – temos assim a explicação da formação de uma palavra com base numa palavra inexistente.

  • cato
    nome masculino
    BOTÂNICA designação extensiva às plantas da família das Cactáceas, tipicamente espinhosas, muito cultivadas em Portugal para fins ornamentais
    BOTÂNICA cato candelábrico
    planta tropical africana
    Do grego káktos, pelo latim cactu-, «cato; cardo»
    a grafia anterior era cacto

Repare bem na seguinte!

  • egiptologia
    e.gip.to.lo.gi.a
    nome feminino
    HISTÓRIA estudo da antiga civilização do Egito
    De Egipto+-logia

A egiptologia estuda o Egito, mas vem de Egipto + logia. Maravilha fatal da nossa idade!

Temos…

  • materno-infantil
    ma.ter.no-in.fan.til
    adjetivo de 2 géneros
    relativo ou pertencente à mãe e à criança

… mas

  • infantojuvenil
    in.fan.to.ju.ve.nil
    adjetivo de 2 géneros
    1. relativo à infância e à juventude
    2.destinado às crianças e aos jovens

E poderia continuar e continuar... Temos, por exemplo, “interruptor” e “interrutor” (leu bem!, e acrescente-se que o Portal da Língua Portuguesa também acolhe tal monstruosidade), mas só temos “interruptivo”, “interrupto”, “interrupção”.

Não é só a lexicografia que demonstra a catástrofe que foi a aplicação do Acordo. É o dia-a-dia dos textos de políticos, jornalistas, escritores que “seguem” o Acordo, mas que, por desconhecimento ou rejeição convicta daquilo que nele consideram patético, adoptam partes do Acordo de 1990 (aplicando-o mal em inúmeras situações) e outras partes do de 1945. Ou seja, quem “segue” o Novo Acordo “escolhe” fatias do Novo Acordo que mistura com o Acordo que pensa que deixou para trás, que mistura ainda com hipercorrecções (erros derivados do espírito mutilador do Acordo) das fatias que segue do Novo Acordo – e essa mistela turva é-nos servida diariamente há anos sem nenhuma melhoria, ano após ano.

É revoltante ou cómico ver políticos intransigentes quanto à revogação do Novo Acordo e depois ler reiteradamente textos em que exibem despudoradamente uma total ignorância acerca do dito. Não leram, não estudaram, não reflectiram, não sabem o que defendem – mas têm posição firme.

Os políticos que se mostram hostis ou indiferentes ao assunto têm a obrigação de, pelo menos, espreitar o horror que o Acordo infligiu à língua – horror esse que está registado, fotografado, datado e com a devida fonte nas ligações abaixo, fonte essa que é, muitas vezes, um conceituado órgão de comunicação social. É caso para dizer que nenhum escapa, algo que observo todos os dias.

https://ilcao.com/caos/

https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/

Uma breve amostra do horror respigado: eucalito, helicótero, adetos, espetativa [expectativa], espetante [expectante], fição, ficional, ficionista, fitício, hetares [hectares], inteletuais, impatar [impactar], mição [micção], avertência [advertência], nétar [néctar], núcias [núpcias].

Dirão os acordistas (que por autocensura estão agora caladinhos que nem um rato) que isso são aplicações erróneas do Acordo. Não poderão, todavia, negar que, antes do Acordo, estes atentados não existiam. Foi com a aplicação do Acordo que SE INVENTARAM ERROS QUE NUNCA EXISTIRAM. Não poderão igualmente negar que nenhum acordista concorda com outro quanto à pronúncia das “consoantes mudas” dos diferentes vocábulos – a caterva de divergências nos dicionários e prontuários acordizados é mais uma prova de que o Acordo teve o efeito contrário da apregoada uniformização.

Já vimos muitos “patos de estabilidade” e outros quejandos desde a aplicação do Acordo, mas que dizer quando uma edição acordizada de Camilo Castelo Branco altera “a confissão dos seus pactos com Satanás” para “a confissão dos seus patos com Satanás”? Em Caim, de Saramago, lemos “e agora fez um pato com o diabo”. (Há uma certa graça no meio desta desgraça, concedo.)

Sim, eu sei que se deve escreve “pacto”, caros acordistas. Apenas sublinho que este erro nasce exclusivamente do espírito que o Acordo fomenta. Como “contato” e, pior do que isso, o verbo “contatar”, que uma professora garantiu a um conjunto de deputados (está gravado) ser um verbo ensinado em algumas aulas. Faça-se uma pesquisa no Google e vejam-se quantos textos de Portugal têm “contato”. Nem a Dra. Edite Estrela escapa.

Numa altura em que o Acordo volta à ordem do dia (obrigado, PCP), que fique escrito a fogo: quem se opõe ao Acordo não deve aceitar uma revisão do mesmo. Não há polimento possível que retoque o que não tem ponta por onde se lhe pegue. É um exercício fútil tentar ancorar algo no vácuo: a ideia de a ortografia navegar à mercê das ondas do elemento mais indomável, flutuante, contingente, mais variável geográfica, temporal e individualmente que há na língua – a pronúncia, evidentemente.

Quem é contra o Acordo não poderá calar-se por receber um saquito de consoantes mudas de volta. A Academia das Ciências de Lisboa que me perdoe, mas a ideia salomónica do regresso tímido de umas pouquinhas consoantes mudas não resolve o problema e cria outra trapalhada (critério da inescrutável “pronúncia culta” válido para decretar ortografia, mas em certos casos não…) – e não garante que não se resvalaria para a existência de três acordos simultaneamente aplicados. Já temos dois acordos dentro do mesmo jornal (dentro da mesma página e, muitas vezes, sem menção à flutuação de acordos na própria página), dois acordos até em livros com diferentes autores, dois acordos dentro de faculdades, de museus (em que na mesma parede consegue haver dois acordos, como já vi) e demais instituições culturais e de toda a espécie e feitio. Lembremo-nos de que o Acordo foi aprovado em nome da “defesa da unidade essencial da língua”!

Não há revisão possível que limpe a face do Acordo e todos os caçadores dispostos a encontrar a “pronúncia culta” voltaram de mãos vazias. Citando Einstein: “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram.”

(Continua.)