Quem disse que rural não rima com luxo citadino?

Lá fora, há relvados, pomares e um tanque com vista para o mar. Cá dentro, design contemporâneo e qualidade de serviço de uma unidade de topo. O primeiro hotel rural cinco estrelas do Algarve foge ao rústico para unir o melhor de dois mundos.

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Luís Tavares fazia aquele caminho quase todos os dias entre casa e o trabalho. Volta e meia, olhava para a ruína no cimo do monte e imaginava-lhe um destino diferente. A antiga quinta do século XIX, localizada junto à estrada que liga a praia da Luz à EN125, estava “completamente abandonada” mas Luís acreditava que dali “podia fazer-se alguma coisa”. “A ideia sempre foi um hotelzinho pequenino, rural, diferente dos que existem aqui no Algarve”, conta o empresário, com vasta experiência no sector do turismo. Um dia, resolveu-se e foi descobrir quem era o proprietário. “Nem quis ouvir a proposta, disse-me logo que não”, recorda. Já Luís tinha esquecido o projecto quando, por mero acaso, voltaram a cruzar-se um ano depois. “Ainda está interessado?”

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Luís Tavares fazia aquele caminho quase todos os dias entre casa e o trabalho. Volta e meia, olhava para a ruína no cimo do monte e imaginava-lhe um destino diferente. A antiga quinta do século XIX, localizada junto à estrada que liga a praia da Luz à EN125, estava “completamente abandonada” mas Luís acreditava que dali “podia fazer-se alguma coisa”. “A ideia sempre foi um hotelzinho pequenino, rural, diferente dos que existem aqui no Algarve”, conta o empresário, com vasta experiência no sector do turismo. Um dia, resolveu-se e foi descobrir quem era o proprietário. “Nem quis ouvir a proposta, disse-me logo que não”, recorda. Já Luís tinha esquecido o projecto quando, por mero acaso, voltaram a cruzar-se um ano depois. “Ainda está interessado?”

Das ruínas, nada sobrou. Como não podiam aumentar o edificado para os lados ou para cima, o novo hotel cresceria para baixo, aproveitando o declive para escavar o actual rés-do-chão, onde fica a recepção, a sala comum, a cozinha, a piscina interior e alguns dos 15 quartos. Da terra, brotou ainda uma cave, com espaço para sauna, sala de tratamentos e adega (que também funciona como sala para reuniões ou eventos). “Aqui havia pedregulhos enormes”, descreve Luís num gesto que abarca toda a sala, onde nos sentamos à conversa antes do jantar. Para aproveitar a nova matéria-prima, levavam os rochedos até à zona da piscina — recriada no antigo tanque da quinta, a uns 200 metros da casa — “cortavam com um caterpillar em 20cm por 20cm e enviavam cá para cima”, recorda. Hoje, as pedras revestem a parede principal da enorme sala, com diferentes zonas de estar e de refeições.

Em 2004, o Vila Valverde abria como hospedaria, já com o intuito de um dia “transformar-se em hotel”. “Segundo o regulamento, precisava de construir uma escada exterior, para o acesso dos funcionários, mas achava desnecessário e não queria fazê-la”, ri-se. A teimosia durou dez anos. Até os prazos ditarem que era agora ou nunca. Ergueu-se a escada, fizeram-se os ajustes e os melhoramentos necessários e, em 2014, reabria como hotel. Em Novembro do ano passado, o Turismo de Portugal atribui-lhe a classificação máxima, tornando-se o primeiro hotel rural cinco estrelas do Algarve e o sétimo do país.

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Campo lá fora, cidade cá dentro

Levassem-nos de olhos fechados até qualquer divisão e, pela decoração, não saberíamos dizer onde estávamos. O rural vive-se lá fora, nos cinco hectares da propriedade, entre o relvado, as árvores de fruto e a horta que abastece a cozinha. O rústico descobre-se na antiga eira, onde deixaram uma velha carroça em exposição, ou na mina e no sistema de distribuição de água pelo terreno, entretanto recuperado. Cá dentro, é a modernidade e o conforto citadino que ditam o conceito. “Totalmente rústico não era bem o nosso estilo”, confessa Luís.

A mulher, Margit, alemã radicada em Portugal há 32 anos, é quem trata de toda a decoração. A filha, Jacqueline, ajuda na gestão da unidade. São transversais as cores neutras e alguns materiais (como a madeira, o aço, o vidro ou a ardósia) mas, de tempos em tempos, quase tudo o resto muda. Por agora, é o azul-turquesa que desponta em bancos e almofadas. Nos quartos, o preto e o branco garantem uniformidade aos 15 espaços, todos diferentes entre si (têm entre 29 e 55 metros quadrados, disposições e elementos decorativos diferentes, mas todos com varanda ou terraço independente e pavimento aquecido nas casas de banho). O resultado é um misto de dois mundos: o sossego, o ar livre, os produtos da terra e o carácter mais familiar e descontraído dos pequenos hotéis rurais e o conforto, o design contemporâneo e a qualidade de serviço de uma unidade de topo.

Ao jantar, feito por marcação antecipada, serve-se “cozinha portuguesa moderna um bocadinho diferente”. Todas as manhãs, o chef da casa deixa o menu para aquela noite junto à recepção. Inclui entrada, um prato de peixe, carne ou vegetariano e sobremesa e custa entre 29€ e 31€, sem bebidas incluídas. “O hóspede pode jantar cá todos os dias e só ao 21.º começar a repetir a ementa”, garante Luís. A sobremesa foi o que mais nos ficou na memória: marmelos do pomar flambeados com gelado de nata e nozes. E, ao pequeno-almoço, uma das melhores marmeladas caseiras que já provámos.

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As histórias do hotel dão ritmo ao jantar. Como a do hóspede milionário que, depois de vir todos os anos, várias vezes por ano, pediu a Luís que o ajudasse a procurar uma casa na praia da Luz. “À tarde, já tinha a casa comprada”, ri-se. Ou como aquele mês em que o hotel fechou para servir de cenário a uma temporada da versão alemã do reality show The Bachelor. Cerca de 80% dos hóspedes são alemães e houve quem reconhecesse a sala ou o jardim. Chega a ser surpreendente como é que, até agora, o hotel se manteve praticamente desconhecido por cá. Mas não deve ser por muito mais tempo.

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A Fugas esteve alojada a convite do Vila Valverde